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10 motivos para assistir – e refletir – sobre o filme ‘Eu, Tonya’

por Luisa Toller
11 de abril de 2018
O filme mostra a adultização da infância, competitividade feminina e relacionamentos abusivos. A análise é da Luisa Toller, e atenção, contém spoilers!
Divulgação

Para quê escrevo essa coluna? Sempre me faço essa pergunta quando estou no dilema de escolher o tema da vez. Bom, colunas sobre arte, acredito eu, servem para instigar quem lê. Quando entro em contato com alguma obra artística que me chacoalha sinto uma vontade incontrolável de vê-la reverberando em outras pessoas. Então pronto, já sabemos o que estou fazendo aqui.

E por isso o assunto escolhido é o que é. Poderia ter falado do dia 8 de março e dos diversos eventos culturais que aconteceram no último mês? Poderia ter falado do Oscar, dos discursos e das temáticas dos filmes mais premiados?

Sim.

Mas hoje vim falar sobre Eu, Tonya (I, Tonya), o filme que levou um prêmio de melhor atriz coadjuvante, foi até comentado e elogiado em sites e críticas de cinema mas ainda não teve uma leitura feminista – o que acho um verdadeiro desperdício – então cá estou.

10 razões para ver Eu, Tonya

 

(guia prático: se você não gosta de spoilers, leia somente a primeira frase, em negrito, de cada item)

Para quem ainda não ouviu falar, Eu, Tonya é um filme ficcional baseado em história verídica sobre a ex patinadora artística Tonya Harding (interpretada bravamente por Margot Robie), que foi banida do esporte por ter sido acusada de tramar um ataque à outra patinadora, sua concorrente, em 1994.

Vamos à lista:

1. Reparem na escolha do diretor Craig Gillespie em não tomar partido nem optar por contar uma das versões da história. A alternância entre atuação e entrevistas documentais (também fictícias porém baseadas em cenas reais) contribui para que cheguemos às nossas próprias conclusões.

2. Um dos pontos que surge logo no começo do filme é a adultização da infância. O universo esportivo infantil pode ser saudável e inspirador, mas periga também desenvolver nas crianças a competitividade exagerada e a busca por um virtuosismo inalcançável e prejudicial ao próprio corpo. No caso das mulheres isso pode ser mais grave, como veremos nos próximos dois tópicos.

3. A competitividade feminina. Já somos ensinadas desde cedo a competirmos entre nós socialmente. No filme, o comportamento controlador da mãe de Tonya reforça esses padrões, dificultando que a filha faça novas amizades. Suas relações com outras mulheres se reduzem ao meio profissional e conforme a personagem cresce, mais esta se afasta e reafirma sua “convicta superioridade”.

4. Padronização de estética e comportamentos femininos. Tonya sofre em diversos momentos por não ter um figurino adequado e luxuoso ou por ser cobrada das técnicas e dos jurados em seu desempenho esportivo por uma suposta falta de delicadeza.

5. Relação abusiva com a mãe. Chegamos a um ponto chave da história. Inclusive o Oscar de melhor atriz coadjuvante para Allison Janney não foi à toa. Tonya tem um histórico de relacionamento abusivo com a mãe LaVona, que a acompanha durante toda a trama. Violências físicas e psicológicas (segundo o diretor 100% prováveis de veracidade por terem aparecido em vários depoimentos) são expostas no filme e contribuem para que criemos empatia com a personagem principal. Assim começam linhas de raciocínio como “se ela fez (planejou o ataque) pelo menos conseguimos compreender o contexto de violência em que esta pessoa se desevolveu”.

6. Culpabilidade da mãe. Ok. Errei. No primeiro tópico disse que o diretor não nos direciona a uma leitura específica. Sobre o ataque, certo, mas que grande parte da irresponsabilidade de Tonya é depositada sobre a criação violenta e destrutiva da mãe é quase dito assim com todas as letras. Caímos então em mais uma armadilha. Se há cinco linhas a proposta era compreender Tonya com humanidade e empatia, teríamos que assistir a um novo filme que contasse a história de sua mãe? Lembrando que violências são cíclicas por isso a vilanização não seria uma solução para a vida real.

7. Ausência do pai. Pois é. Enquanto isso o pai “amoroso que compreende a menina” vai embora de casa também como vítima da violência diária, não participa e muito menos protege sua filha do ambiente em que cresceu.

8. Tonya é vítima de outro relacionamento abusivo, desta vez com seu marido (interpretado por Sebastian Stan). Ao apanhar e assumir as idas e vindas com Jeff Gillooly sua explicação é tão didática quanto cruel: “minha mãe me batia e me amava, então ele também me ama”. No filme e segundo os depoimentos, as violências eram devolvidas na mesma intensidade, o que em certo ponto corre risco de naturalizar atos aburdos como tentativas claras de feminicídio.

9. O terceiro abuso: a mídia. Uma das falas mais dolorosas do filme é quando Tonya declara o quanto se sentiu exposta e abusada pelas mídias em toda a polêmica. Uma mulher, com infância complicada, que obviamente não se encaixa nos padrões estéticos, comportamentais e familiares esperados para representar os Estados Unidos diante do mundo, se envolve em um ataque a outra mulher com quem competiria. Sendo fato ou não imagino o gozo de todos, desde donos de jornais e revistas, passando pela redação e chegando ao público sedento por polêmica. O patriarcado que tanto adora briga entre mulheres, recebe como um prato cheio – metáfora óbvia porém necessária – a situação em que uma delas já aparece como vilã-bruxa- maligna-conspiradora. Difícil é não exercer
empatia se colocando neste lugar.

10. A sentença. O último spoiler é aquele que se pode encontrar em qualquer pesquisa rápida: o que aconteceu? Resumidamente, Tonya foi punida sendo proibida de patinar em qualquer tipo de competição, anos depois tornou-se lutadora de boxe e hoje se diz muito satisfeita com o filme e a forma como sua vida foi retratada. Mas uma questão levantada pela personagem no momento em que recebe o veredicto também me dói. Tonya foi julgada por mãe, pai, treinadoras, jurados, marido, mídia e ao fim por um juiz que lhe tirou a única coisa para qual foi educada, condicionada, violentada e programada a amar. Ela só sabia patinar.

Fui longe, mas enxergo muitas destas questões em todas nós. Eu, vocês, Tonyas.

Espero então ter escrito o bastante para provocar a vontade de ver o filme e o insuficiente para saciar o que a história nos oferece de reflexões. Corram e discorram.

Afinal, para quê escrevo essa coluna?

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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