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Semana passada, a rapper Azealia Banks relatou, no Stories de sua conta no Instagram, que fora dopada em uma festa e estuprada. Ela pediu a ajuda de seus fãs e foi prontamente atendida por alguns. O caso foi divulgado em vários portais de notícias e sites de cultura pop.

Mas sites e páginas feministas do Facebook não escreveram uma nota sequer sobre o assunto.

Por uma razão simples: Azealia é uma mulher negra. Uma mulher negra que gosta de falar muitas verdades em relação ao racismo que existe no feminismo e no mundo da música. Como se não bastasse o showbusiness sempre boicotá-la por falar sobre o racismo e a misoginia que rola nesse meio, os fãs de outras cantoras pop (a maioria, fãs de cantoras pop brancas e influentes, como Taylor Swift e Katy Perry) costumam destilar seu ódio contra a cantora — com a justificativa de que ela é bem homofóbica e xenofóbica (lembrando o episódio em que ela ofendeu brasileiros no Twitter e ela justificou dizendo que recebeu comentários racistas dos mesmos) e que merece todo esse boicote que sempre sofreu.

Inclusive esse estupro.

É claro que é difícil não esquecermos algumas coisas desnecessárias que ela disse sobre os gays — eu também acho que ela exagerou em alguns pontos. Mas ela, como mulher negra e revoltada com toda essa caçamba de lixo tóxico que jogam em cima de seu corpo desde que se conhece por gente, sabe que gays brancos não são isentos de cometerem atos racistas e serem misóginos, e quis mostrar isso em suas declarações pelo Twitter. Militantes negras estão exaustas (eu inclusa) de verem gays brancos sendo racistas de diversas formas. Azealia nunca esteve errada nessa questão, e ao invés destes mesmos homens gays colocarem a mãozinha na consciência e repensarem, eles recusam esse apontamento e passam a atacá-la com mais racismo e mais misoginia. E devido a esse histórico de tretas que ela teve entre entrevistas e tuítes, as pessoas criaram um ranço imenso dela, ignorando o fato dela ser uma excelente artista.

Ela já pediu desculpas pra todo mundo. Mas todo mundo ignorou. Gente branca vacila o tempo todo e adivinha? São facilmente perdoadas.

Eu também acho que Azealia precisa rever algumas coisas que ela falou sobre o feminismo e as iniciativas nascidas do movimento. Mas não somente ela. Ela falou bastante merda sobre a luta de mulheres não-brancas ao longo dos anos quando o assunto feminismo veio a tona, mas várias outras personalidades fizeram o mesmo e não foram rechaçadas como Azealia foi.

A atriz Catherine Deneuve e a escritora Catherine Millet chamaram de“puritanismo” e “caça às bruxas” a onda de denúncias de assédio sexual em Hollywood. Basicamente, elas (e mais um monte de francesas) passaram aquele belo pano pro assédio, dizendo que “(…) a paquera insistente ou desajeitada não é delito, nem é o galanteio uma agressão machista.” A mesma Deneuve, inclusive, defendeu Roman Polanski, o diretor que estuprou uma menina de 13 anos. Ela simplesmente disse que acha a palavra estupro “um exagero”. Apesar das inúmeras críticas sofridas por estas declarações, ela continua sendo uma atriz muito prestigiada.

E outros tantos exemplos: Lana Del Rey não se interessa pelo feminismo e mandou um “He hit me and it felt like a kiss” (ele me bateu e pareceu um beijo) em sua música Ultraviolence. Aquela atriz de A Culpa é das Estrelas, Shailene Woodley, disse que não é feminista “porque ama os homens” (???).

Gente branca famosa erra pra caralho, expõem suas merdas nas redes sociais e cometem crimes, mas passam tão batido que as pessoas dificilmente lembram de seus vacilos. Agora quando é uma mulher negra que faz o mesmo…

Racistas nunca perdem a oportunidade quando veem uma pessoa negra pública falando umas verdades. Esse ranço todo pela Azealia não é por causa de sua música e/ou pelas suas declarações, mas sim pela sua existência. A galera na internet simplesmente odeia essa mulher. E fazem questão de sempre amarrá-la nos troncos cibernéticos e chicoteá-la quando essa tal oportunidade aparece.

O silêncio do feminismo circula pela internet ao invés de status e textos para falar sobre as mulheres negras vítimas do machismo e da misoginia. Azealia já foi agredida numa festa pelo ator Russell Crowe, já sofreu agressões machistas e racistas e agora foi dopada e estuprada… E são escassas as vozes no feminismo contra isso.

O que se percebe é a perpetuação do esterótipo da “preta barraqueira”. Feministas brancas não querem as angry black woman [mulheres negras raivosas] por perto — elas querem manter esse feminismo “He for She” [Eles por elas, movimento criado pela ONU Mulheres para envolver homens pela igualdade de gênero] bonitinho e diplomático associado a personalidades brancas como a atriz Emma Watson e a já mencionada Taylor Swift.

Acontece, meus queridos, que pretas como Azealia e tantas outras têm muitos motivos para estarem bravas. E não é difícil para nós, feministas pretas, percebermos que a indignação é bem seletiva: se este mesmo crime tivesse acontecido com alguma cantora branca, a mobilização seria imediata: até campanhas pedindo a devida punição aos responsáveis seriam feitas.

Deixando bem escuro aqui: eu acho IMPORTANTÍSSIMO que haja essa mobilização. Estamos em 2018, não estamos mais em tempos de vivermos caladas. O feminismo branco se mobilizou por Kesha, em seu exaustivo processo contra o ex-produtor Dr. Luke. O feminismo branco se mobilizou por Taylor Swift no caso em que sofreu assédio de um embuste em seu camarim. O feminismo branco se mobiliza pelas atrizes que sofreram assédio sexual em Hollywood. Por que as mulheres negras são tão esquecidas pelo feminismo branco?

A própria Azealia responde:

“O feminismo nunca apoiou as mulheres negras. Nós caímos nessa merda no início dos anos 1920, ajudando as mulheres brancas a ganharem o direito de votar… As mulheres negras ajudaram as “feministas” a ganharem o direito de votar e elas se viraram e fizeram muita merda contra nós. Nos deixaram no escuro. Com nada.”

O feminismo é diverso e heterogêneo. Existem várias vertentes, perspectivas, modos de atuação. O movimento feminista negro não pode se dar ao luxo de escolher entre lutar contra somente contra o machismo ou contra o racismo. Ele precisa lutar contra todas as opressões vividas. Está na hora do movimento feminista branco ouvir e dar protagonismo para esta luta.