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“Ser mãe é padecer no paraíso” dizem. Eu sempre detestei essa expressão e, como toda boa feminista, problematizo a naturalização (e romantização) do sofrimento feminino que, sabemos muito bem, serve a interesses não lá muito nobres de manutenção da mulher nesse não-lugar que é a maternidade.

Ocorre que, no dia a dia da vida real à qual ainda estamos aterrados, ser mãe de fato representa a ambiguidade de sentimentos e desejos que a frase popular exprime.

Há momentos em que queremos fugir ou apenas deitar em posição fetal e chorar até todas as lágrimas acabarem e outros em que o coração parece que literalmente irá explodir no peito de tanto amor! O cansaço é muitas vezes extenuante e nos faz desejar coisas inomináveis ao mesmo tempo em que a quantidade de coisas que queremos fazer com a cria quando finalmente temos tempo de qualidade é uma lista que não para de crescer.

É, parece que ser mãe realmente é padecer no paraíso e, na maioria das vezes, muito mais por esta construção social tão dura e pesada do que significa a maternidade.

“É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”, e a melhor notícia é que todo mundo pode contribuir com pequenos gestos para tornar tudo mais leve e fazer do mundo um lugar muito melhor para adultos, crianças e, especialmente para nós mães!

Toda vez que você for julgar uma mãe, respira fundo e conta até 10! – serião, ser mãe é difícil, a gente fica sem dormir, sem comer, às vezes até sem escovar os dentes (#quemnunca), aí a cria dá um chilique no mercado simplesmente porque ela está na idade de amadurecimento emocional em que essas birras devem mesmo acontecer e as pessoas fazem o quê? Vão logo julgando a mãe e cuspindo litros de saliva para o ar. Apenas não! Eu aposto que você é forte e consegue se conter. Ao invés disso, olhe com empatia para aquela mãe que com certeza está querendo se enfiar dentro do buraco mais fundo e só sair em 2087. Dê um sorriso tranquilizador e, se você realmente quiser arrasar, ofereça ajuda! Só não invente de pegar na criança pelo amor da deusa…

 

Não incentive movimentos insanos que despejam ódio sobre mães e crianças alegando que “ninguém é obrigado a conviver com filho mal-educado dos outros” – vivemos em sociedade e, se é isso que queremos, somos sim obrigados a conviver com tudo quanto é tipo de gente (inclusive odiadores de criança, vejam só!?!) e não é permitido discriminar um inteiro grupo de pessoas simplesmente porque as pessoas querem “paz e sossego”. Eu adoraria não ter que conviver com eleitores do Bolsonaro, mas infelizmente sou obrigada a aturá-los por razões de “vivemos numa democracia”. Crianças são cidadãs tanto quanto qualquer um de nós, e limitar seu acesso a espaços (que não lhes ofereçam perigo ou sejam inapropriados é claro!) é limitar o acesso não apenas a elas, mas a uma quantidade enorme de mulheres que não têm rede de apoio alguma e cada vez mais são relegadas a se enclausurarem em casa sem opções de lazer e/ou de trabalho, culpadas apenas do crime de estarem garantindo a preservação da espécie humana. “Ahhh mas eu tenho o direito de comer sossegado sem barulho de criança birrenta”. Não amigo, você não tem esse direito. O direito a comer sossegado não está em lugar nenhum. Você e todo cidadão, incluindo crianças, tem direito a ir a espaços públicos tanto quanto qualquer pessoa, e nesse espaço público deparar-se com gente de tudo quanto é tipo, inclusive adultos birrentos, bêbados, chatos e eleitores de Bolsonaro. Crianças também podem eventualmente incomodar.

 

Brincadeira NÃO TEM GÊNERO! – essa é velha, mas sempre atual! Continuo vendo o tempo todo gente limitando crianças em brincadeiras tidas como de menino ou de menina e assim minando a autoestima, a criatividade e as possibilidades de meninos e meninas, que crescem reproduzindo discursos que servem apenas para perpetuar violências históricas especialmente, mas não somente, contra mulheres. Se não ficou claro, teve gente que literalmente desenhou. Aqui vai:

 

Repense o elogio – ainda na questão de gênero, vamos repensar a forma como elogiamos meninos e meninas? Vamos repensar os padrões que impomos a esses jovens corpinhos e almas puras que tão cedo já se sentem cobradas a atenderem a padrões que servirão apenas para aprisioná-las em relacionamentos abusivos, distúrbios alimentares, disforia de imagem ou, no mínimo, uma vida bem chata correndo atrás de um corpo que raramente existe. Sobre isso indico demais o documentário feito pela Maria Farinha com o Instituto Avon e que pode ser conferido na íntegra aqui.

 

Deixe as mães amamentarem – e os bebês mamarem – em paz – Os benefícios da amamentação exclusiva até 6 meses e prolongada por dois anos ou mais são consenso na literatura científica e só trazem benefícios se mãe e bebê estiverem satisfeitos com isso. Não amamentou porque não quis, não teve apoio, não teve paciência ou o que for? Tudo bem! Ninguém pode te julgar, mas não precisa minimizar a importância da amamentação para aplacar sua consciência tanto quanto não vale achar que livre demanda é troféu de qualidade de maternidade. Essa dica pode ser aplicada sem restrição também para desfralde/cama compartilhada e qualquer outra decisão de educação familiar que não seja do seu fuck**&¨¨ business.

 

Essa vai para a bolha das mães da criação com apego – parem de romantizar sofrimento de mãe baseado no bem-estar do bebê. “É assim mesmo! Vai passar! Respira e aguenta” NÃO É resposta para tudo! Ficar meses e meses a fio sem dormir NÃO É NORMAL e ninguém deveria ser obrigada a isso não. Há importantes diferenças entre as necessidades de um recém-nascido e as de um bebê de 12, 15, 18, 24 meses. Mais: há necessidades diferentes das mães de bebês nessa faixa e quando normalizamos esse tipo de coisa estamos fazendo um desserviço porque ao passo que muitas coisas que são absolutamente normais e necessárias para recém-nascidos (e para isso temos que lutar por maiores licenças maternidade), não o serão para quem volta ao mercado e mesmo assim segue um zumbi ou para mães de bebês maiores que simplesmente nunca dormiram uma noite inteira. Idem com amamentação e qualquer outro tema. Vejo pessoas julgando mães que viajam por alguns dias com bebês de mais de dois anos e penso: isso não pode estar certo em um país em que a média de amamentação é de 52 dias! Gente, no mundo real as pessoas não querem ficar 2 anos sem dormir tendo que trabalhar no dia seguinte e nem sem poder viajar uma semana ou sei lá o quê. No mundo real a gente é mamífera, mas vive numa sociedade que exige muito de nós e nesse binômio parece que ou se pensa só na mãe ou só no bebê. E aí a conta não fecha mesmo. Então bora exercitar essa empatia toda da criação com apego com as mamães também e não apenas com os neneins?!?! #ficadica

 

Por último, mas não menos importante: vamos falar de paternidade? – precisamos exigir dos homens que se posicionem em seu paternar e que assumam as rédeas e as responsabilidades que lhes são cabidas. Não cabe mais em 2018 perguntar “cadê a mãe” sem se perguntar “cadê o pai”. Mãe solo não é pãe, é apenas uma mulher sobrecarregada tendo que cumprir uma função que não é sua e sendo julgada ao cubo simplesmente porque um macho se recusou a fazer seu papel e cumprir suas obrigações! Não romantizemos mais essa forma de opressão tão comum e devastadora!

E para fechar esse textinho de inicio de ano, desejo a todas nós mamães feministas (declaradas ou não) e às não feministas também, porque não?!, um ano de muita problematização, pouca treta e com a desconstrução necessária desses papéis tão pesados, para o despertar de um maternar saudável, leve e gostoso.

Que em 2018 a gente se livre de toda a sobrecarga, dos textões julgadores e da treta inútil e se vista de empatia, sororidade e reconstrução! Do nosso maternar e de nós mesmas!

Afinal de contas, meu nome NÃO É MÃE! 😉