Com o passar do tempo, o acampamento em Joinville, que tinha apenas uma barraca, foi crescendo. Novos eletrodomésticos foram adquiridos. Novos cobertores foram comprados. Novos contatos foram trocados. A venda de panos de pratos já não é a única fonte de renda da família Fernandes. As irmãs Calins também trabalham com costura. Aprenderam a fazer vestidos, saias e cortinas com a mãe, que fazia roupa para elas e para vender. As mãos grossas, com calos e cicatrizes refletem o intenso trabalho manual feito desde pequenas. Já os homens ciganos, trabalham com compra e venda de produtos diversos.

– Eles trabalham assim, negociam tudo, eles vendem celular, colcha, cobertor, o que vier pra vender eles vende. Geralmente eles vão lá no Paraguai e depois trazem um monte de cobertor pra revender. Mas a gente aqui só trabalha com costura mesmo, porque pra mim vender um cobertor do Paraguai, que é mais barato, eu tenho que ir lá comprar. Mas eu não tenho carro e nem dinheiro pra pagar a passagem.

E se for pra comprar aqui é muito caro, eu não vou tirar meu lucro. Então pra mim trabalhar com outras coisas não vale a pena – justifica Lindacir.

As costuras são negociadas pelo aplicativo WhatsApp. As encomendas são feitas por outras ciganas, principalmente do Rio Grande do Sul, que, segundo as Calins, são as famílias com maior poder aquisitivo. Todas as informações são passadas pelo celular, assim como o tipo de tecido que deverá ser utilizado ou o modelo de vestido a ser confeccionado. As principais demandas são para festas, casamentos ou batizados. A renda, a fita e a saia são os elementos centrais para se fazer uma vestimenta cigana. Primeiro, as famílias vão até o acampamento para deixar os tecidos. Depois só voltam para pegá-los e pagar a encomenda.

– Quando eles vêm buscar, eles ficam uns dias acampados aqui até terminar, porque tem muita roupa pra costurar. Se a família tem dinheiro mesmo, um casamento pode durar até 15 dias. E cada dia é um vestido. Tem muita saia, forro de baixo e renda que as mulher dão pra nós fazer. Fora aqueles prateado, com pano brilhoso, é pior pra gente costurar. Quebra muito a agulha da máquina. Esse é o mais arrumado. Então tem que ser com paciência. Se for cortar na loucura, perde tecido e nós não tem condição de comprar – ensina Delir.

Quando chegaram em Joinville, as ciganas cobravam a mão de obra de cada vestido por R$ 30. Atualmente, elas cobram R$ 50, pois o dinheiro que recebiam não era suficiente para cobrir as despesas.

Quando as clientes não possuem dinheiro para pagar, acabam negociando para não saírem no prejuízo e assumem um papel historicamente destinado aos homens.

– É que nem esse fogão e essa lona. Nós fizemo a costura e vieram pegar, só que como eles não tinham dinheiro pra me pagar, daí eu peguei o som e peguei a televisão. Porque eu não sô de pegar fiado não, porque depois vai procurar eles onde? Aí eles ligam pra gente e nós combina com eles pra trazê as coisas de carro. Outra vez eles falaram, “ah, não tenho dinheiro, mas tenho uma geladeira”. E eu digo, “traz para mim vê, se tiver funcionando eu pego”. Eu peguei essa geladeira aí no valor de 600 real. E era pra ele me pagar em dinheiro, porque pra mim a geladeira não vai fazer tanta falta. Eu preciso é do dinheiro pra tá se mantendo. Mas pra não perder tudo eu peguei. Mas aí se precisar eu vendo a geladeira também. Mas é difícil, porque se eu for vender no brechó eu não ganho nada. E tem uns que falam que nem vão comprar – diz Lindacir, agitada.

Na ausência dos maridos, elas são obrigadas a fazer esses tipos de trocas.

– Quando eu vim aqui eu não tinha esse tamanho de barraca, era uma pequenininha. Não tinha nada dessas coisas. Eu fui pegando de costura. Eu não queria pegar, mas só que daí eles disseram pra mim, “então eu vou pegar a tua conta e tardinha eu te deposito o dinheiro”. Daí eu falei não, porque eles viajam muito, pra tudo quanto é lugar. E um marido nós não temo pra ir atrás. Um filho grandão, de maior, de responsabilidade, nós também não temo pra tá indo atrás. E a gente não confia de mandar os menino atrás das ciganada, porque eles são muito brabo. Capaz até de matar a família da gente e falar que foi qualquer um da rua – teme Delir, nervosa, enquanto fuma um cigarro que estava pendurado atrás da orelha.

Quando costuram à mão, as ciganas levam dois dias inteiros para fazer um vestido.

Maria Paula ressalta que as mãos ficam machucadas, porque os vestidos de malha são piores, “o pano é duro pra costurar e chupa a agulha”.

Dessa forma, elas têm que fazer mais força para transpassar as agulhas no tecido, e, por isso, acabam se furando. Lindacir afirma já ter pegado tétano, por causa disso.

Em 2014, quando Elisa Costa, presidenta da Associação Internacional Maylê Sara Kalí (AMSK), retornou ao acampamento, trouxe consigo uma máquina de costura nova para doar às ciganas. Um alívio para Lindacir, que com os dedos infeccionados, já não aguentavam mais costurar à mão. No mesmo ano, Milton Zanotto, diretor de Legislação e Assuntos Jurídicos do Sinpronorte, e amigo das Calins, que vêm ajudando-as desde então, também doou uma máquina às irmãs. Agora, elas podem se revezar, e levam apenas um dia para confeccionar um vestido. Para Vilma, a mais velha e a primeira a aprender a costurar, “agora é muito mais fácil e mais rápido, não dói tanto a coluna”.

Quando não há muitas encomendas de costura, elas acabam recorrendo à mendicância, que acontece somente em casos extremos.

Principalmente quando as ciganas não possuem mais comida no acampamento. Milton Zanotto lembra que mendigar é um ato de extrema vergonha para a comunidade cigana. Antes da morte de seus maridos, nunca necessitaram passar por isso. Agora, ao terem que enfrentar a fome, o preconceito e a vulnerabilidade em que vivem, muito da cultura cigana tem se perdido entre as Calins.

– Elas acabam deixando passar muitos elementos do ser cigano, que era a leitura de mão, que era aquela intuição, do olho no olho. Elas não fazem mais isso. E agora estão fazendo mendicância, porque eu já vi elas na sinaleira, mas fingi que não vi. E elas fingiram que não me viram, porque não é digno pro povo cigano viver da mendicância. Então a gente faz um jogo, só que a gente não quer isso – enfatiza Zanotto.

Elisa Costa considera que a leitura de mão também deixou de ser algo natural e constante, por conta das violências que elas sofrem nas rua

– É muito comum uma pessoa fazer a leitura de mão e depois chegar na delegacia e falar “eu quero o meu dinheiro de volta, porque fui enganada”. Automaticamente, o delegado manda prender e ainda manda devolver o dinheiro.

O assédio e as agressões contra as ciganas não acontecem só nas ruas, mas, principalmente, dentro do acampamento. No mesmo ano em que chegaram no terreno, um ato violento traumatizou as irmãs Calins.

– A gente já sofreu muito em Joinville. Uma vez, passou um de moto e jogou uma bomba aqui na nossa barraca. O filho da Linda tava com dois anos na época. Era madrugada, mais ou menos uma hora da manhã, a gente já tinha conseguido fazer ele dormir. Mas nós fiquemo acordada, cuidando dele. A bomba pegou bem reto, na direção da cabeça do menino, ele danou de chorar. E nós olhando pra ver se machucou o menino. Mas nada, foi só o susto que ele levou. A barraca fez um rombo assim ó – descreve Maria Paula fazendo um círculo com as mãos, de cerca de 20cm de diâmetro, para indicar o buraco na lona.

As ciganas falam que as ameaças são recorrentes. Variam entre xingamentos, apedrejamentos e até invasões.

– Tem carro que entra aqui à noite, fica fazendo cavalinho de pau. Daí vem cheio de homarada dentro do carro. Primeiro eu pensei que fosse assalto, mas não. Só que quando nós ia ver, os carro já tava aqui. Meu Deus, que medo! Umas hora da noite, tu não vai pensar que é gente boa, né. Eles querem insistir pra entrar. Mas aí a gente fala pra não entrar, porque nosso chefe não quer, que ele tá dormindo e se acordar ele vai ficar brabo. Mas é mentira, as nossas crianças que tavam dormindo. A gente é o chefe. Aqui quem manda somos nós. Mas como é que fala que só tem mulherada? Daí os malandro faz coisa com a gente – explica Delir, com os punhos fechados e músculos rígidos.

Maria Paula diz que, apesar de terem medo da violência, muitas vezes elas pensam em reagir e se unir para proteger da família.

– A gente fica quietinha, mas se eles querem insistir pra entrar, a gente vai se reunir e vai pegar ele de pau, vai cacetear, fazer o quê, é a nossa segurança. Porque se ele vem e dá um soco nela, eu já venho e vou pular nele, daí vem a outra, se vai uma vai todas. Mas o corpo da gente não tá resistindo mais.

 

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