Quem senta no Divã de hoje é a Maria Rosa.

“Eu já estava decidida a não escrever essa carta como faço todos os anos. Achei que não tinha nada de bom a dizer. Então recebi um convite inesperado para escrever um texto de Natal e pensei:  Mas logo eu, que nem gosto do Natal!

Mas o danado do universo estava querendo carta, então eu aceitei.

O compromisso selado me fez refletir sobre por que eu não gosto do Natal. Me fiz várias vezes essa pergunta nos últimos dias.

Houve um tempo em que eu gostei. Acho que mudei de ideia. Ou na verdade, simplesmente parou de fazer sentido para mim.

Não me identifico mais com a decoração da cultura importada que em nada combina com o nosso clima; com o desperdício de dinheiro e de comida.

O ano passado arrumei a casa durante o dia e na noite de Natal fui comer um pedaço de pizza na padaria do Largo do Arouche.

Para muitas pessoas isso pode soar deprimente, mas para mim, não ter que cumprir protocolos e compromissos que não me representam é libertador.

Libertar-se de convenções sociais nem sempre é uma escolha fácil. Acreditem, dizer não para a família, dizer que você não tem mais vontade de compartilhar esse momento com eles pode gerar certo desconforto.

Parece que eu estou vendo a cara de desgosto da minha mãe dizendo: “Porque você tem que ser sempre a do contra? Por que você tem que ser assim?”

O caso é que eu não tenho que ser. Eu apenas sou. E o tal do contra ou a favor varia muito de acordo com a perspectiva em que se olha.

Acho que o Natal e o fim do ano têm uma energia, uma felicidade coletiva que não consegue passar ilesa. Para o bem e para o mal.

A parte maligna se espalha folgada no consumismo encrustado que contagia até uma “do contra” convicta como eu. Tem ano que me pego comprando coisas que eu nem preciso tanto, só porque eu mereço e vou me dar de presente de Natal. Essa metade tenho extirpado aos poucos. Recentemente até com mais afinco.

Nessa época costumo pensar qual tem sido o movimento dos últimos meses, que provavelmente se estenderá para o próximo ano. E a resposta certeira é o movimento do minimalismo.

A gente acumula. A gente vive acumulando. As coisas, as lembranças, coisas que lembram lugares, momentos, pessoas. Com o tempo as lembranças vão sendo esquecidas num canto da sala e, quando percebe, você está tirando o pó de tudo o que não usa. Aí fica cheio de vazio.

Caixas e caixas se vão a cada dezembro. Sinalizando o tão adiado quanto necessário desmonte da casa e do caos, para enfim não guardar mais o que não me serve. De coisas e sentimentos.

A metade do bem pertence aos encontros.

Esse arrastão de felicidade coletiva consegue tirar um pouco o foco do mundo virtual e implantar uma disposição que faz o tempo render e os encontros acontecerem. Sim, porque a falta de tempo é a desculpa mais esfarrapada que o ser humano inventou. Até a do trânsito é mais convincente.

Eu vou a todas as confraternizações. Adoro encontrar gente que eu não vejo há tempos e ver que nada mudou. Que o sentimento nutrido é mútuo e o de sempre.

É um pretexto maravilhoso para risadas e conversas reais, instantâneas e genuínas; que incluem abraços de dez segundos ou mais. Isso poderia acontecer em qualquer dia ou mês.

Deveria ser assim também com os panetones. Esse ano pensei em congelar e tentar seguir comendo até maio. Mas aceito que seja só agora. Melhor agora do que nunca. Aceito que cada um é o que é e faz o que pode.

Talvez esse seja o meu jeito de cultivar o amor. Porque também espero ser amada apesar de mim mesma e então poder ser “do contra” em paz.

Sobre o Natal e coisas da matéria, eu escolhi não me importar mais. Pode ser até que algum dia eu volte a me importar. Não espero que os outros façam o mesmo. Espero que cada um faça o que quiser, o que gostar e seja feliz.

Que no Ano Novo a gente possa amar de coração; desgostar de peito aberto e livre; e praticar o respeito sincero à escolha alheia. Mesmo que isso nos afete.

 


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