Quem senta no Divã hoje é a Camila Sales Costa.

Foto: Arquivo pessoal

“Minha família é bem grande, minha mãe tem oito irmãos, a casa sempre foi cheia e as camas, compartilhadas. Dentre estes, a tia Luisa cuidava de mim quando criança. Eu esperava ansiosa que ela chegasse do trabalho para me contar histórias antes de dormir ou me dar desenhos para pintar. As lembranças são engraçadas, porque eu me lembro do rosto gelado dela quando me beijava, e do cheiro bom da chegada. Eu achava que aquele era o cheiro da noite gelada.

Tia Luisa tem uma filha: Giovanna. Foi uma criança sorridente, tranquila, e eu a vi crescendo bem quietinha. Sabe Deus o que se passava naquela cabecinha. Nas últimas férias, a gente passou uma tarde juntas na casa da vó. Ela é uma menina linda, olhos puxados, adora comer tudo que é gostoso, chora de rir, molhando as lentes dos óculos, é engraçada, sarcástica e inteligente. Eu estava ali, encantada, ouvindo Giovanna falar, quando ela lançou:

— Como foi para você ser uma adolescente negra? Você ficava com os meninos? Eu sempre sou a “amiga legal” das minhas amigas. Não importa que eu seja várias coisas legais, ninguém quer saber. E como é ser negra e estudar medicina no Rio Grande do Sul? Como era no seu trabalho?

Foi um soco no estômago. A verdade, é que ao 15 anos, que é a idade dela, eu nem sabia que era negra, ou melhor, eu não sabia o que é ser uma mulher negra e suas implicações.

Passei a maior parte da minha infância em colégio privados, onde só deixei de ser a única aluna negra quando minha irmã atingiu idade escolar. Depois, colégios técnicos cheios de gente branca e, hoje, curso minha segunda graduação, em universidade pública, onde deve haver mais duas ou três de mim. Dessa forma, sempre havia visto a vida pelas lentes da maioria. Inclusive me considerava sortuda por não ter sofrido racismo.

OI? COMO EU NUNCA TINHA PERCEBIDO ISSO?

Nos cinco minutos em que elaborava o que ia dizer para aquela menina, mil coisas cruzaram minha cabeça: a vez em que uma criança na escola perguntou para mim, aos cinco anos, porque eu não me pintava com uma tinta branca. Todos o namoradinhos que não tive, achava eu, porque era a mais feia da turma de amigas. Aquele dia em que meu pai fez um escândalo porque eu fui de chinelo para escola (igual a todo mundo), só que ele sabia que eu não era igual todo mundo: se eu uso chinelos, é porque não tenho calçados.

As inúmeras vezes em que se referiram a mim como “negrinha metida” porque eu estava num local, ou em um papel que “não era para mim”, ou porque discordava de algo.

Das professoras que achavam que eu tinha que ser muito, muito, muito, grata por estar na universidade, embora eu jamais tenha sido menos do que excelente. Tinha que ser mesmo, olha a chance que “deram”! Da vez em que pedi uma barra de chocolate do balcão da padaria e o atendente me falou que era R$ 15 e não me deu. Fiquei sem comprar chocolate. Das vezes em que entrei numa entrevista de emprego e as pessoas checavam dupla, triplamente, se aquele currículo era meu mesmo. De todas as vezes em que eu era bonita, apesar da cor da minha pele.

Eu disse à Giovanna que isso com os meninos ia melhorar quando ela crescesse, afinal, adolescentes são assim mesmo. Que estar em uma universidade pública é muito legal, e que era só ela estudar. E no trabalho… Bom, no trabalho, você só tem que ser excelente e fazer o melhor que puder.

Tudo mentira. Mas ela tem 15 anos. Eu não queria ser a portadora das más notícias. Queria pôr tranquilidade e oferecer algum conforto para aquele rostinho preocupado, de quem está tentando se lembrar do que fez para ser punida pelo mundo. De quem gostaria de poder sonhar e realizar tudo o que quiser na vida, mas acha que não vai dar, afinal, o mundo já havia lhe deixado isso muito, muito claro.

Já que essa semana a gente está falando de consciência negra, eu vou dizer a verdade à Giovanna. Eu devo isso a ela, e eu devo isso a mim com 5, 15, 25 e agora 30 anos. E devo a todas as Giovannas:

Você é linda. E brilhante, inteligente e interessante. Qualquer namoradinho seria o mais feliz do mundo por ter você. Faço votos de que você encontre alguém que te veja. Infelizmente, na nossa sociedade, as meninas negras não têm beleza, não têm perspectivas, não têm direito de sonhar com o futuro que quiserem.

As mulheres negras têm espaços e papéis predeterminados para ocupar. Lutar para fazer e estar onde quiser é estafante e solitário, mas é possível. No trabalho, você deverá ser a melhor profissional entre todos e todas para ter o mínimo em contrapartida. E se falhar, atribuirão esse fato à cor da sua pele. Aliás, seus caracteres serão utilizados para te humilhar e te diminuir e desdenhar.

Aliás, à sua estética associam mau cheiro, relaxamento, preguiça e incapacidade.

Sempre esperam menos de você —  exceto no carnaval, aí as pessoas querem que você sambe com elas e exaltam a sua beleza brasileira. A universidade… Bom, a universidade é legal de verdade, mas é solitária em diversos aspectos, posto que provavelmente só haverá você e, portanto, mais ninguém que compreenda que o mundo não é o mesmo para você. Logo, provavelmente será a famosa vitimista-mimimi.

Ninguém aqui está dizendo que vai ser fácil, mas, olhem só, Giovannas: sejam, sonhem, façam e estejam onde quiserem. Não se modifiquem para se encaixar nessa sociedade que não permite que vocês existam, que não lhes vê.

Você também pode ser como quiser, sabia? Você pode ir de chinelo pra escola e comprar o chocolate da padaria. Resistência. Resistência. Força. Respira, e vai pra cima: o mundo é seu também. Você deve isso a você mesma, a mim e a todas as minas pretas que ainda vão pisar nesta terra. Eu estou fazendo o melhor que eu posso e é por vocês.”

* As opiniões aqui expressas são da autora e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.


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