Caroline e Julia – Foto: Arquivo pessoal

Quem senta no Divã hoje é a Caroline Godoy Dessen.

“Talvez você não saiba, mas existe uma competição secreta entre as mulheres sobre quem terá o parto mais estelar. Ganha pontos quem tem normal, mas perde quem pede epidural. Pontos extras para quem tem o bebê na banheira. Mas chega ao pódio quem tem filho na sala de casa. E quem perde com tudo isso? As pessoas que acham que o caminho percorrido para a chegada do bebê fará qualquer diferença fora do âmbito ‘segurança em primeiro lugar’.

O engraçado é que essa ‘competição’ é tão sutil que às vezes você nem se dá conta que já está competindo. Eu só percebi isso com o nascimento da minha primeira filha, Luisa, há quase três anos. Super adepta do parto natural, optei por ter minha filha numa Casa de Parto, aqui em Berlim.

Tive uma gravidez perfeita, sem enjoos, com ioga para grávida, alimentação saudável e gabaritando em todos os exames pré-natais. Li vários livros sobre parto natural e técnicas de como se preparar para ele.

O dia finalmente chegou e, numa madrugada gelada, minha bolsa estourou. Seguimos para a Casa de Parto e, depois de 12 horas de muita respiração zen, sem anestesia, minha dilatação ainda estava muito pequena, e tivemos que ir para o hospital.

Lá, depois de receber a epidural, ainda tentamos por mais sete horas, até que o médico veio e explicou que os batimentos cardíacos da Luisa estavam baixando e que precisaríamos fazer uma cesárea de emergência. Naquele momento, meu mundo caiu. Foi quase que como se eu já tivesse sido “desclassificada” daquela competição.

A única coisa que conseguia fazer era chorar enquanto as enfermeiras me preparavam para a cirurgia. Foram lágrimas de cansaço, de decepção, de frustração. O sentimento de derrota insistia em ficar ali quando eu deveria estar me alegrando por finalmente conhecer minha filha.

Demorou para eu conseguir superar a história do parto. Me senti num limbo. Muito se ouve, se lê e se fala sobre cesárea eletiva e sobre parto natural. Entretanto, há pouco espaço para quem fica no meio do caminho: as mulheres que queriam muito um parto natural e precisaram de uma cesárea de emergência.

Durante meses não conseguia contar a história do nascimento da Luisa sem chorar.

Comecei então a perceber o quanto eu fazia parte dessa “competição invisível” que rola entre algumas mulheres, sem ao menos ter sido convidada para participar dela. “Foi natural?” me perguntavam as pessoas (muitas delas sem nenhuma má intenção, confesso). E eu, com um sentimento idiota de derrota, respondia que não, completamente desamparada.

À medida que a Luisa foi crescendo, eu fui aprendendo a ser mãe, o tempo passando e a ferida cicatrizando.

No início deste ano, descobri que estava grávida novamente. Ainda queria tentar o parto natural e, depois de conversar com médicos, fiquei animada ao saber que o fato de eu ter tido uma cesárea não implicaria não poder ter natural dessa vez.

O parto da Julia foi muito mais rápido. Em menos de três horas de contrações eu já estava com 8 centímetros de dilatação. Dessa vez não teve respiração zen e eu estava feito um animal de quatro na sala de parto uivando pela epidural.

No processo, apesar das dores intensas das contrações, lembro de ter ficado animada com a rapidez da dilatação e ter pensado “legal, acho que dessa vez vai dar certo”. Não deu. A dilatação estancou nos 8 centímetros e a Julia não conseguiu encaixar totalmente no canal vaginal.

A decisão pela cesárea foi mais rápida e com menos drama, mesmo sabendo que dificilmente terei a experiência de um parto natural mesmo se optar por ter um terceiro filho. Agora já não tenho mais problemas em dizer que a Julia nasceu de cesárea.

As alegrias que a minha primeira filha me trouxe nesses quase três anos me ensinaram que a maneira como ela veio ao mundo se tornou apenas um detalhe em comparação a tudo que vivemos juntas.

Mas isso a gente só aprende vivendo e hoje vejo que não ter tido o parto natural não me tornou mais fraca ou menor do que qualquer outra mulher.

Enfrentamos as mesmas contrações por horas a fio, muitas delas sem nenhum tipo de anestesia. Usamos todos recursos emocionais que podemos para ‘relaxar’ durante o processo do parto e não se desesperar pelas coisas não estarem saindo como planejado.

A audição se torna nosso sentido mais importante quando se tem um pano verde cobrindo sua visão enquanto os médicos retiram o bebê do seu útero, e você, sem sentir nada, pode apenas esperar por ouvir o choro para ter a certeza de que seu filho nasceu.

Temos que passar um dia ou mais sem nos levantar da cama por conta dos pontos e sem poder cuidar 100% dos nossos bebês. Se virar deitada ou se levantar sem nenhum tipo de ajuda também é mais um desafio durante alguns dias. Carregamos uma cicatriz pro resto da vida.

Por essas e outras, todo o meu respeito e admiração por essas mães. Afinal nessa ‘competição’ aprendemos depois que não importa quem chegou em primeiro lugar, e sim completar a prova, mesmo que seja em último lugar, e, mais do que tudo, terminá-la bem, mesmo que para isso você tenha que sacrificar algumas posições”.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.


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