“E lena Ferrante é o pseudônimo de uma suposta escritora que vem fazendo sucesso com suas histórias desde a década de 1990 na Itália. Sua fama decolou definitivamente a partir de 2011, com o lançamento de uma tetralogia conhecida como “séria napolitana”, que logo foi traduzida para inúmeros idiomas. O primeiro romance dessa série, A amiga genial, foi lançado no Brasil em 2015. Desde então, o furor internacional em torno da autora e de sua obra passou a reproduzir-se também em português. Em apenas dois anos, nove livros de Ferrante chegaram às prateleiras brasileiras pelas editoras Globo (através do selo Biblioteca Azul) e Intrínseca.

Desconfiada que sou de best-sellers, relutei para me render à autora, mas as críticas e indicações de colegas do meio literário eram tão entusiasmadas, que acabei cedendo. Como tenho uma certa preguiça de séries – nada contra elas, mas sou meio frenética, costumo ler vários livros ao mesmo tempo, de acordo com o humor do dia, e às vezes demoro para ler os mais longos –, decidi começar por um romance ao acaso.

A filha perdida me enganchou desde a primeira página. No entanto, passei boa parte da leitura tentando desvendar o que me atraía tanto no texto, já que não encontrei um estilo marcante ou tom peculiar que imaginei estar associado a tamanho frisson. A prosa de Elena flui naturalmente, sem grandes arroubos poéticos, nem uma objetividade fria. Mistura reflexões sensíveis a descrições claras de cenas e ações com uma sutileza própria a mestres da narrativa. Não há detalhe sequer em vão, tudo no livro se encaixa com uma exatidão assombrosa. Fica evidente que, qualquer que seja a identidade (ou identidades) por trás do pseudônimo, trata-se de uma escritora extremamente experiente.

“Fui muito infeliz naqueles anos. Não conseguia mais estudar, brincava sem alegria, sentia meu corpo inanimado, sem desejos. Quando Marta começava a gritar no outro cômodo, era quase uma libertação para mim. Levantava-me interrompendo bruscamente as brincadeiras de Bianca, mas não me sentia culpada, eu não estava fugindo da minha filha, era minha segunda filha que estava me arrancando da primeira. Preciso ir ver Marta, já volto, espere. Ela começava a chorar.” (Trecho de A filha perdida, Intrínseca, 2016, p. 58)

Entendi, por fim, que além da narrativa perfeitamente construída, o que me puxava violentamente para a história era o fascínio em relação às personagens, especialmente a principal, que narra a própria experiência. Um encantamento nutrido não apenas por sua complexa construção, mas pelo simples fato de que nunca tinha lido sobre os dramas absolutos e corriqueiros das vidas de mulheres do nosso tempo naquela profundidade – é realmente difícil supor que a autora não seja uma mulher.

É claro que Elena Ferrante não inaugurou a protagonista feminina na literatura, mas vem fazendo um verdadeiro trabalho de representação e resgate de temas muito intrincados no cotidiano atual das mulheres, mas que raramente recebem tamanha atenção. Seus livros destrincham os diferentes papeis assumidos e impostos a nós na sociedade ocidental – mãe, esposa, filha, irmã, amiga, amante –, bem como as relações entre mulheres, de maneira extremamente detalhada e reflexiva, algo raro de se ver ainda hoje.

“Na época já havia algo que me impedia de abandoná-la. Não a conhecia bem, nunca tínhamos trocado uma palavra, mesmo competindo continuamente entre nós, na classe e fora dela. Mas eu sentia confusamente que, se tivesse fugido com as outras meninas, lhe teria deixado algo meu que ela nunca mais me devolveria.” (Trecho de A amiga genial, Biblioteca Azul, 2015, p. 26)

Fui fatalmente “ferroada” por Ferrante e sucumbi, inclusive, à “série napolitana”. Ao ler seus livros, sinto como se começasse a remexer em emaranhados de sentimentos, conceitos e impressões tão embaraçados, apertados em nós quase impossíveis de desmanchar durante anos, décadas, séculos de silenciamento feminino. Muitas vezes, nem me identifico pessoalmente com as personagens ou as relações entre elas, mas suas histórias acabam me trazendo reflexões inesperadas sobre minha vida ou de muitas mulheres que conheço e vejo minha mãe, minhas avós, tias, amigas, conhecidas por ângulos completamente novos. Os fios embaraçados vão se soltando e mostrando inúmeras possibilidades de relações e subjetividades, infinitas maneiras de ser mulher à sua própria maneira.

“Naquela ocasião, ao contrário, vi nitidamente as mães de família do bairro velho. (…) pareciam ter perdido os atributos femininos que nós, jovens, dávamos tanta importância e que púnhamos em evidência com a maquiagem. Tinham sido consumidas pelos corpos dos maridos, dos pais, dos irmãos, aos quais acabavam sempre se assemelhando, ou pelo cansaço ou pela chegada da velhice, pela doença. Quando essa transformação começava? Com o trabalho doméstico? Com as gestações? Com os espancamentos? Lila se deformaria como Nunzia? De seu rosto delicado despontaria Fernando, seu andar elegante se transmutaria nas passadas abertas, braços afastados do tronco, de Rino?” (Trecho do segundo romance da série, História do novo sobrenome, Biblioteca Azul, 2016, p. 100)

Afinal, só se fala em Elena, porque precisamos ouvir Elena falar. Seu discurso expõe a necessidade de que mulheres falem mais sobre si e sobre outras mulheres, sobre todos os temas importantes para cada mulher, em cada estilo, em cada realidade, em cada lugar de fala. Não apenas as “Elenas”, brancas, ocidentais, heterossexuais, de classe média, mas todos os nomes de mulheres reais, negras, indígenas, orientais, ricas, pobres, homossexuais, bi, trans, periféricas. O sucesso da autora mostra a urgência de nos falarmos e, principalmente, nos ouvirmos cada vez mais.

 

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