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Quem senta no Divã hoje é a Pietra Montovani.

“Oesporte entrou na minha vida antes do feminismo. Antes de entender o que era ser mulher na sociedade eu já era participativa em praticamente todos os times da minha escola, treinava semanalmente e, desse período, por não ter tanta intimidade com o feminismo, tenho poucas lembranças. Entrei na faculdade e continuei a treinar. Meu amor pelo esporte foi só aumentando e, então, resolvi participar da Atlética do meu Instituto.

A minha atlética sempre teve foco no esporte e, mesmo tendo algumas festas para arrecadar dinheiro, o objetivo sempre foi bancar os treinos para que o maior número possível de pessoas fosse alcançado. Todos os esportes têm modalidades femininas e masculinas, menos futebol de campo, uma vez que não há essa categoria nos jogos universitários.

O primeiro evento que participei como atleticana, o Interanos, é um encontro entre os alunos de diversos anos e que em 2015 teve sua primeira edição feminina. Durante o evento havia escalas para vender rifas e arrecadar dinheiro para a entidade. Em todas elas eu fui colocada com a minha amiga, cujo físico se enquadra no chamado “padrão de beleza”.

Enquanto tentávamos vender as rifas, pediam nosso telefone, nos “elogiavam” e nos deixavam completamente desconfortáveis.

Ela foi a primeira a sair da atlética, e eu continuei. Era uma entidade com mulheres fortes, presentes e que lutavam pelo seu espaço, mesmo sem “levantar a bandeira” do feminismo. Era naquele espaço que eu via oportunidade de mudar um pouco a mentalidade e a minha realidade.

Quando chegou a época de mudança de gestão, decidimos que o machismo não seria mais tolerado como havida sido até então. Queríamos desmistificar a atlética como promotora de um ambiente opressor. Dos oito cargos de diretores, seis foram ocupados por mulheres, inclusive a presidência. Porém, mesmo com resultados mais positivos dos times femininos nas competições, os times masculinos se sentiam no direito de exigir mais.

Mesmo com o curso de Ciências Econômicas, em que há quantidades parecidas de homens e mulheres, pela falta de incentivo do esporte às mulheres, os times femininos das quatro modalidades (handebol, vôlei, futsal e basquete) são compostos praticamente pelas mesmas meninas. Como na maioria dos times femininos da Unicamp, já houve meses com três treinos no mesmo dia, realidade completamente diferente dos times masculinos.

Na minha universidade, a infraestrutura para a prática de esportes não é das melhores: as quadras são descobertas, com tamanhos diferentes dos oficiais e protegidos por um alambrado ao lado de uma avenida bem movimentada. Durante os treinos, as meninas são assediadas e, mesmo com pequenos atos de protesto e exposição de cartazes, os assédios não diminuíram por parte dos motoristas que frequentam a via e por parte dos usuários das quadras que não pertencem à comunidade universitária.

Durante minha gestão, fui Comissão Organizadora de um dos Jogos Universitários que participávamos. Das 12 atléticas participantes, seis eram presididas por mulheres e a secretária da mesa também era mulher. Apesar disso, as reuniões eram guiadas pelos homens, que discutiam durante horas e, quando uma mulher entrava na discussão e se exaltava, seus argumentos eram invalidados pela “emoção”.

Participei poucas vezes de forma ativa das reuniões por me sentir em um ambiente intimidador, em que decisões importantes de comissões acolhedoras eram tomadas e medidas contra opressões eram discutidas mas de uma forma como se nada afetasse aquele ambiente de homens, feito para homens.

Da minha experiência como atleta universitária, o que eu vejo são discriminações sutis, mas recorrentes, em relação aos esportes femininos: a torcida subestima os coletivos femininos, os tempos de partidas na maioria dos campeonatos não são equivalentes e, em geral, os times masculinos têm mais privilégios do que os femininos. A maioria dos técnicos é de homens e suas habilidades raramente são contestadas, confiança que não é dada para as técnicas mulheres.

Como sempre, temos que fazer o triplo para termos o mesmo reconhecimento.

O que vejo entre nós, mulheres, é o surgimento de uma força que fomos obrigadas a ter e uma união que veio como consequência. Cada vez mais vejo cargos importantes das atléticas sendo ocupados por mulheres e técnicas dirigindo times de expressão na universidade. A Liga de que fiz parte é hoje presidida por uma mulher e aos poucos estamos sendo mais ouvidas, mais respeitadas e valorizadas. Ainda temos um longo caminho. Mas percorrendo juntas, os times masculinos vão ter que correr para nos alcançar!”.

* As opiniões aqui expressas são da autora e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.


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