Crédito Pixabay

A coluna desse mês não poderia ser mais íntima e, ao mesmo tempo, mais coletiva.
Outubro é o mês do meu aniversário, no primeiro dia logo. Digo sempre que ser de etnia romani, libriana e nascida na Espanha me faz mais passional e exagerada do que um filme do Pedro Almodóvar misturado com o Carlos Saura.

Demorei muito para ter orgulho da minha etnia. Nos espaços payos (não romani) demorei muito para entender que mesmo sem oportunidades iguais às dos outros seria o que sou. Hoje cheguei a uma posição que me orgulho. As pessoas dizem que sou inimiga da auto-declaração, o que não deixa de ser verdade. Sei que a maioria das pessoas que se diz “cigano” não o é.

Eu não sou um estereótipo!

Não uso saias e argolas o tempo todo (luto boxe, então seria estranho), não adoro Sara Kali (no Brasil 80 % dos de etnia cigana professam uma religião evangélica, santos estão fora da sua crença). Leio tarô, porém acho bobagem leitura de mão.

Morei no rancho (acampamento) e, acreditem, não é um lugar para ser romantizado.

Direitos básicos são negados. Comprovantes de residência, educação e saúde não estão em nosso caminho. Passei fome, sim, muita fome. E sei que muitas meninas de identidade étnica (ribeirinhas, extrativistas, etc) também estão nessa situação.

Apesar de tudo isso me orgulho de cada minuto que me reafirmei como uma mulher romani, e, acreditem, o mundo a cada dia me lembra dessa condição, seja de uma maneira boa seja de uma maneira ruim.

Eu tinha 7 anos quando comecei a me preparar para ser Shivanni (sacerdotisa). Essa palavra significa “aquela/aquele que atravessa a ponte”, e em cada um dos anos que vieram depois disso eu atravessei a ponte.

Atravessei a ponte da negação de meus direitos humanos.

Atravessei a ponte do que os payos queriam que eu fosse, e não do que eu acreditava ser o melhor para mim.

Atravessei a ponte que dizia que certas posições não seriam alcançadas.

Atravessei a ponte do machismo do meu próprio povo (pensa em uma ponte difícil)!

E sei que muitas pontes ainda estão aí. E a cada uma que atravesso vou segurando pela mão aquela menininha cigana magrinha de tranças longas e digo pra ela:

Vem Rebecca, vamos atravessar mais essa, que atrás de nós vai vir um monte de outras meninas, que logo atravessarão suas próprias pontes.

Lembro uma vez que após o fim de uma conferência uma senhora trouxe uma menina pelas mãos e disse:

“Romi, está aqui a minha filha! Moramos em um rancho e eu já estava procurando marido para ela. Mas depois de ouvir você falando conversei com meu homem e vamos botar a menina para estudar”. Em 2014 eu estava na Paraíba na formatura dessa ciganinha no Ensino Médio.

Sim, valeu muito a pena ser aquela que atravessou a ponte.

 

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.


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