Foto: divulgação Carafem

Vejo a questão do aborto como a batalha final do Feminismo. O dia em que ele for visto como um procedimento de saúde entre outros e que, em lugar da redução do número de abortos, tenhamos no alvo a prevenção de gestações não planejadas – mal para o qual já conhecemos a solução -, penso que o Feminismo poderá se aposentar nas Bahamas. Hoje, no entanto, os tabus que cercam o aborto ainda estão fortemente vivos – inclusive dentro do movimento feminista.

Foi sobre o estigma do aborto o mais impactante treinamento que recebi ao longo dos meus 5 meses de safe2choose, trabalhando para tornar conhecida no Brasil essa organização que, como as famosas Women Help Women e Women on Waves, tem como missão promover o acesso irrestrito ao aborto seguro. “Quem de vocês conta no bar ou no jantar com as amigas sobre o trabalho que faz?”, perguntou a especialista, que trabalhava com aborto há mais de década na Cidade do México, onde o procedimento é legalizado.

Apesar de eu e minhas colegas termos baita orgulho do que fazíamos, a pergunta escancarou uma mistura de medo, vergonha e receio que simplesmente nos impedia de dizer “eu trabalho com aborto” a quem nos perguntasse o que fazemos.<

Não seria honesto terceirizar a fatura e culpar o mundo pelo nosso segredo: nosso orgulho de feminista convicta era nosso tanto quanto eram nossos o medo, o receio, a vergonha. Ela nos contou sobre uma pesquisa que mapeou as palavras mais frequentemente mencionadas por pessoas que trabalham com aborto, e nós éramos apenas mais uma comprovação dos resultados do estudo. Esses sentimentos, disse ela, estão muito frequentemente relacionados ao aborto, e não apenas – como se costuma pensar – na mulher que aborta, mas também nos profissionais, mesmo quando não executam qualquer atividade ilegal. Surpresas, fomos encontrar o estigma do aborto dentro de nós.
Do estigma deriva o silêncio (ele deriva também da ilegalidade, evidente, mas enfrentar a primeira variável está totalmente ao nosso alcance) e deriva também uma forma de comunicação homogênea e negativa, que pode contribuir para tornar dolorosa a experiência da mulher que aborta.

Nós poderíamos associar o aborto a palavras como “escolha”, “autonomia”, “liberdade”, “empoderamento”, “tranquilidade”, mas como fazer isso se no arcabouço imaginário do aborto quase que só há dor e sangue?

Se as campanhas e documentários que discutem o aborto – e esse é o ponto comum entre as pró escolha e as pró vida – mostram cabides ensangüentados, contam histórias trágicas, falam em morte, em risco de cadeia?

Sim, pode haver dor, morte, sangue, risco de cadeia e cabides ensangüentados no aborto. Mas pode não haver. E pode haver escolha, autonomia, liberdade, empoderamento, tranquilidade. E talvez fique mais fácil militar em prol do aborto e conversar sobre essa realidade por meio de narrativas que compreendam o aborto não como um mal em si, mas como um procedimento de saúde que pode ser trágico, mas pode ser muitas outras coisas, a depender da trajetória de vida e do contexto social da mulher que aborta. Felizmente, essas histórias, que têm tanto a dizer sobre diversidade, estão começando a sair das sombras.

Em 2015, 3 ativistas norteamericanas criaram o movimento Shout Your Abortion (grite seu aborto), e hordas de mulheres gravaram depoimentos em vídeo contando sobre suas experiências de aborto. O lema “aborto é normal” é traduzido com perfeição pelo depoimento de Sammy: “essa é uma lista de coisas que aconteceu naquele dia: comi um muffin de blueberry, fui com minha amiga à clínica onde recebi atendimento médico gratuito, eu ri muito, eu chorei muito, eu abracei a enfermeira que cuidou de mim, eu comi uma enchilada, tirei uma soneca de 3 horas e fui ensaiar naquela mesma noite. E essa é uma lista de coisas que não aconteceram: eu não fiquei triste, com raiva, machucada e não me senti abandonada, não contei à pessoa que me engravidou, e eu não olhei para trás”.

O depoimento de Sammy, que pode ser visto abaixo, viralizou, e a repercussão evidenciou uma tentativa maciça de invalidar o que muita gente simplesmente não conseguia reconhecer como uma experiência de aborto. Estigmas têm esse poder de totalizar afetos, excluindo a diversidade de vivências em prol da vivência única que condensa o imaginário social em questão. Sammy só podia estar mentindo, ser fictícia ou desnaturada.

E a recusa em aceitar que o aborto pode ser uma experiência tranqüila – a despeito das mulheres que nos encaram nos olhos para dizer isso em primeira pessoa – está presente também em setores progressistas.

É amplamente tida como verdade a ideia de que todo aborto é um trauma – o que está a léguas de distância de dizer que pode ser um trauma. Nas diversas vezes em que falei ou escrevi sobre a questão do estigma,  fui interpelada por mulheres feministas que abortaram e que se sentiram ofendidas com essa discussão. De alguma forma, ouvir sobre experiências de aborto vividas como neutras ou positivas (como esta, publicada na seção Divã d’AzMina) parecia ferir algumas daquelas que sofreram e sofrem com seus abortos.

Mas a lista de novas narrativas sobre o tema vem crescendo e abrindo espaço para a diversidade que é talvez uma das mais belas bandeiras do Feminismo. Em um vídeo produzido pela Irish Family Planning e pela International Planned Parenthood Federation como parte de uma série de iniciativas para fomentar um diálogo mais aberto sobre o aborto, o procedimento aparece como “apenas mais uma decisão pessoal que as mulheres tomam”. O tom positivo está nas cores, na trilha sonora, na escolha da fonte.

Mas a proeza maior talvez seja da Carafem, com sua identidade visual vibrante e comunicação sagaz. A foto que ilustra este artigo é uma resposta à recusa por parte do metrô de Washington de veicular propaganda da clínica, que oferece serviços de aborto e contracepção. A Carafem aproveitou o buzz gerado pela recusa e botou os cartazes para circular em caminhões pelas ruas da capital norteamericana.

Nas redes sociais, posts celebram profissionais que trabalham com aborto e comemoram o aniversário das pílulas do aborto – e um vídeo de 30 segundos aborda o tabu com surpreendente bom humor:

Também é otimista – e bota otimismo nisso! – o tom do imperdível documentário Vessel, que conta a ousada história de ativismo de Rebecca Gomperts e de sua Women on Waves (sim, tem no Netflix!!). O longa é um dos 8 filmes da lista que AzMina preparou para o especial deste mês.

Dia 28 de setembro é o dia da luta pela descriminalização do aborto. E nesse mês todinho, que a gente fale sobre aborto sem parar, e com a mesma naturalidade com que falamos de todas as coisas que existem. Que a gente possa acolher a diversidade também na forma das experiências distintas – e são tão distintas quanto são as mulheres – e que, cada vez mais, a gente construa uma militância estratégica e inteligente, que tire a gente do tão desgastado “contra ou a favor”.

 

**Você sabia que pode reproduzir tudo que AzMina faz gratuitamente no seu site, desde que dê os créditos? Saiba mais aqui.