O Divã  de hoje é anônimo, já que fazer aborto ainda é ilegal no Brasil.

“Falar sobre aborto no Brasil é um desafio e uma necessidade. O tema é sempre motivo de receio, seja pela criminalização ou pela culpa que este país nada laico tenta colocar nas mulheres, como se qualquer um pudesse opinar sobre nossos próprios corpos.

Quem já fez um abordo dificilmente fala, por medo ou porque simplesmente quer esquecer, seguir, mas,  inevitavelmente, as marcas ficam.

Tenho 26 anos e o meu aborto foi um processo traumático e doloroso, que não deixou nenhuma sequela física, mas marcas emocionais. Eu tinha acabado de ingressar no mestrado (que também tinha sido um processo desgastante e cansativo), estava me adaptando à nova rotina e namorava com meu atual parceiro há seis meses. Não estava tomando anticoncepcional, pois todos me causam efeitos colaterais, mas utilizávamos outros tipos de contraceptivos.

Minha menstruação estava atrasada e eu sentia enjoos, mas eu me negava a cogitar a possibilidade de uma gravidez. Por insistência de meu namorado, fiz um teste de farmácia. O resultado? Positivo. Não é possível… depois de tudo que passei para ingressar no mestrado, uma gravidez! Deveria estar errado.

Entrei em contato com um ginecologista de minha total confiança. No ultrassom, veio a confirmação: eu estava grávida, inclusive, já era possível ouvir os batimentos. Não contei para minha família, apenas minha sogra (que adorou, mas disse que a escolha era nossa) e alguns amigos sabiam.

Ter ou não ter? Uma corrida contra o tempo. Quanto mais o tempo passasse, mais difícil seria o aborto. Decidi interromper a gestação.

Falamos com o médico e ele nos informou que era um caminho sem volta. Compramos três comprimidos de um remédio abortivo (cada um por R$ 200). Eu estava com cinco semanas. O médico inseriu o remédio via vaginal e deslocou uma pequena parte do meu saco gestacional porque disse que ajudaria o aborto – foi uma dor terrível: eu não tive anestesia e, além disso, meu colo do útero é bem fechado e foi difícil até para o médico realizar esse procedimento. Fui para casa esperando as cólicas e o aborto. O resultado? Nada! Não reagi à medicação, me desesperei, me arrependi por ter começado aquilo, mas agora iria até o fim.

Fiz outro ultrassom e não tinha sinal algum do aborto, apenas o leve descolamento do saco gestacional. Chorei muito, voltamos ao médico que propôs tentar novamente o procedimento de descolamento para induzir o aborto. A dor foi ainda pior, e eu não conseguia conter as lágrimas. Um novo ultrassom e nada…  Outra tentativa que havia dado errado.

Eu estava arrasada. Nunca me senti tão só em toda a minha vida, mas me revoltei ainda mais porque em alguns países onde o aborto é legalizado sei que as mulheres têm acompanhamento de psicólogos, o procedimento é feito em salas de cirurgia, com segurança e anestesia. Quando acordam, elas já podem voltar a suas vidas.

Na terceira tentativa decidi que tentaria por mim mesma. Segui as recomendações de um site sobre como fazer um aborto. Comprei cinco compridos que me custaram R$ 1.500, tomei de hora em hora e em jejum, conforme as recomendações, senti cólicas terríveis, tive alguns sangramentos, vomitei bile (porque nada tinha em meu estômago) e torci para que finalmente esse martírio tivesse chegado ao fim.

Um novo ultrassom e o aborto foi confirmado – em contrapartida, estava retido. Os enjoos tinham chegado ao fim, meus seios ainda estavam inchados, mas a gestação tinha sido interrompida. Esperei uma semana e, como não expeli o saco gestacional, marquei a curetagem. Jejum, internação rápida, anestesia, dormi e acordei na enfermaria, passado o efeito da anestesia voltei pra casa, estava muito fraca e tive bastante sangramento ainda, mas segundo o médico tinha dado tudo certo.

Em um mês já estava menstruando novamente, meu corpo voltando ao normal, mas hoje ainda dói ver um bebê, roupas de criança e grávidas. Eu continuo com meu namorado, que me apoia bastante. Contei para meus pais (muito católicos), que me ampararam e entenderam meus motivos. Faço tratamento psiquiátrico (não só pelo aborto, mas também por outros motivos) e, por mais que haja dor, ela se tornou de mais fácil compreensão. Além disso, a vida precisa seguir e tudo isso não foi em vão.

Se eu faria um aborto de novo? Acho que não, só em caso de extrema necessidade – em caso de risco a mim ou a criança. Ainda quero muito ter filhos. Sei que os terei no momento certo e com melhores condições para criá-los nesse mundo, quando eu estiver melhor e com a cabeça mais organizada.

Agora, mais do que nunca, torço para que o aborto seja legalizado. Essa é uma escolha individual e eu sei a diferença entre ser pró-vida e pró-nascimento. A vida da mulher precisa ser valorizada, as mulheres precisam ser amparadas, ser ouvidas e de condições igualitárias para realizarem esse procedimento caso optem por ele.

Depois de tudo que passei penso que a escolha do aborto também exige coragem.

Porque ter é mais comum, mais aceitável, mais “respeitável”. Agora não ter… é um ato solitário, é rebelar-se.

Com base em minha experiência eu deixaria como conselho para as mulheres que pensam em fazer um aborto que se informem, tenham o máximo de cuidado e, por fim, lembrem que a vida de vocês é importante: não se culpem, perdoem-se e sigam — é necessário seguir.”

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.


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