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Somos uma questão invisível. Sobre nós, mulheres de etnia cigana, pouco é falado, pouco é debatido. Quando falamos, quando nossas roupas e costumes se colocam em espaços de debate, vez por outra os aliados viram fogo amigo.

Muito se fala sobre “descolonizar”. Contudo, será que estamos dispostos a isso?

Uma das minhas inspirações feministas se chama Vanessa Rivera, uma feminista islâmica chilena que escreve o blog Mezquita de Mujeres. Vanessa faz questão de frisar que seu título de Doutora em Estudos de Gênero perde a importância diante do fato dela usar véu.

Quando digo que os aliados se transformam em “fogo amigo” sempre vem em minha mente a campanha que feministas francesas fizeram a favor da proibição do Burkini, aquela vestimenta de banho voltada às mulheres muçulmanas. Eu não estou defendendo as burcas impostas por regimes totalitários, mas, sim, mulheres que por uma questão de afirmação política contra a islamofobia usam e resistem usando vestimentas que as ligam à sua religião. Eu, mesmo não sendo islâmica, já senti na pele a islamofobia, pois muitos não sabem diferenciar um véu islâmico de um lenço romani, cigano.

Durante a minha caminhada, sempre fiz questão de que as pessoas me vissem como uma mulher de etnia cigana. Sempre quis deixar claro que mesmo que minha cultura seja machista (afinal, qual cultura não é machista?), estava ali alguém que falava por si mesma.

Quando digo que xenofobia também é uma violência de gênero, é pelo fato de reconhecer que nós, mulheres de identidade étnica, estamos vulneráveis a sofrer duplamente: por nosso gênero e por nossa etnia. Em nosso dicionário de opressões entram dolorosos termos como limpeza étnica, esterilização forçada, e colonização sobre nossa cultura e religião.

Não parece absurdo que até 1995, na Bulgária, fosse permitida a esterilização forçada de mulheres ciganas? Por qual motivo nós, feministas, não nos levantamos quando em Curitiba mulheres islâmicas tiveram seus véus puxados e pedras jogadas contra elas?

Na sua luta cabe escutar o que as mulheres islâmicas acham do véu? Você questiona como uma nordestina ou nortista se sente ao virar, aos olhos do senso comum, uma única massa de “Paraíbas e Cearenses”? Você já pensou sobre as condições de trabalho de uma boliviana que vem trabalhar no Brasil?

Na verdade, a grande pergunta pra você que está me lendo agora é: aonde você guarda sua xenofobia?

É naquele sentimento de que mulheres que se cobrem são oprimidas? É naquela “brincadeira” com mulheres com traços orientais? É ao ficar rindo dos sotaques nordestinos? É na firme crença de que determinadas pessoas de determinados lugares se vestem ou agem de tal forma?

Isso é xenofobia!

Não quero aqui apontar dedos, nem pensar que amanhã todos e todas estarão aceitando as diferentes versões de sociedade. O meu desejo é que passemos a entender que culturas ou manifestações são também um direito humano.

Como diria a minha musica preferida do Criolo:

“Quem vê de longe pode não gostar, não entender e até censurar.
Quem tá de perto diz que apenas é cultura, crença, tradição e fé”

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.


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