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Quem senta no Divã de hoje é a Camilla.

“Conheci o Leonardo em 1997, no primeiro mês de aula na faculdade. Ele era veterano, já estava no último ano da graduação. Ele era super tímido, o tipo de homem que me agradava, daqueles bem nerds. Não transamos no primeiro encontro porque ele era virgem e não gostava disso (transar no primeiro encontro). Começamos a namorar, e assim foi por cinco anos. Era muito relax, sem ciúmes e sem exigências.

Sempre fui fiel, apesar de várias investidas de outros caras – uma delas chegou a me balançar de verdade! Mas, no fim, era dele que gostava e, se o desejo estava balançando, a obrigação falava mais alto. Até me gabava disso. Aliás, achava o fim da picada pessoas que ficavam com outras pessoas estando comprometidas.

Fomos morar juntos. Nesta época, tive o diagnóstico de uma doença crônica e da qual não se tinha muita informação. Ele me deu todo apoio, pagou os exames (já que eu não tinha plano de saúde) e uma internação de dois dias num hospital para fazer um tratamento de choque.

Já estava formada, mas ainda não havia me firmado na profissão — trabalhava muito e ganhava pouco. Ele já estava consolidado, funcionário público e ganhava cinco vezes mais do que eu. Mesmo assim, eu fazia questão de dividir as contas da casa igualitariamente.

Não tínhamos o costume de andar de mãos dadas, ficar beijando e fazendo carinhos em público. Com o tempo, isso também caminhou para a esfera privada. Acabamos em um relacionamento ‘burocrático’. Éramos um casal, morávamos juntos, éramos companheiros, mas faltava um quê…

O Leonardo não gostava de fazer sexo oral e isso me fazia muita falta. Dizia que tinha nojo, não gostava do gosto. E eu simplesmente aceitei. Até pedia, às vezes, mas ele se recusava.

Em vários anos, acho que fez umas duas ou três vezes, mas não tinha o menor jeito, a ponto de eu pedir para que saísse dali, porque tanto eu quanto ele não estávamos gostando.

Quando fomos morar juntos, eu trabalhava demais e vivia cansada, nossa frequência sexual caiu, mas eu tinha em mente uma ‘obrigação marital’, então, pelo menos uma vez por semana, tinha que garantir nossa relação sexual. No fim de 2003, passei em um concurso público e fui morar em outro estado. Oficializamos nossa união em junho/2004.

Já na festa de casamento, discutimos e ele me xingou (‘sua puta’). Engoli seco.

Ficamos um ano morando a mil quilômetros de distância. Eu encarava uma viagem de 16 horas de ônibus em três fins de semana por mês. No início de 2005, conseguimos ficar na mesma cidade, enfim. Alugamos uma casa ótima, morávamos perto do trabalho.

Nessa mesma época, fui aprovada no mestrado da faculdade em que cursei, uma terceira cidade estava a caminho. Numa festa, um rapaz, cinco anos mais jovem, o Marcio, meu amigo, começou a se aproximar mais. Sabia que ele me admirava, me achava inteligente, articulada e atraente. Eu senti algo diferente.

Tudo veio como um turbilhão. Há anos o Leonardo não me fazia qualquer elogio. Aliás, me criticava porque eu comprava muita roupa e dizia que ficava preocupada demais em fazer a unha e emagrecer.

Queria alguém que me admirasse, mas não trairia o Leonardo. Mas aconteceu, acabei cedendo e fiquei com o Marcio, na escada do prédio em que ele morava. Fiquei nas nuvens, sentindo o gosto daquele beijo que há tantos anos eu não dava. O Leonardo não me beijava mais como um amante. No máximo, me dava um selinho.

Como eu teria de ir para a cidade em que Marcio morava toda semana, isso foi como um empurrão para que ele se tornasse o meu ‘amante oficial’.

Fiquei completamente apaixonada, sentia um sopro de vitalidade em mim.

Com o tempo, comecei a ficar angustiada. Estava fazendo algo que me parecia errado, traía meu marido. Eu queria ter um ‘namoradinho’, o que nunca tive com o Leonardo. No meio daquele ano, decidi não ter mais nada com o Marcio. Sofri muito, foram seis meses de muitas reflexões, de tentativa de limpar a minha imagem perante eu mesma. Não me sentia digna, por isso, acabava aceitando muitas ofensas do Leonardo – minha culpa interior era maior.

Em outras viagens, tive mais três casos, transas rápidas, até em 2010 vir o Daniel, o último marco no que apelidei de ‘vida bandida’.

Eu entraria na fase final de redação da dissertação e depois eu e Leonardo planejávamos ter filhos, apesar de tudo. Eu sabia que nosso casamento estava péssimo. Eu o traindo, culpada. Ele me tratando mal, mas dependente de estar comigo. E eu de estar com ele. Se não pelo amor, pelo receio de ficar sozinha.

Várias coisas vinham à minha cabeça, como não ter direito a ser feliz porque eu traía meu marido, achar que essa coisa de amor da vida era bobagem, o importante era ter alguém em dias frios e no sábado à noite. Eu me sentia condenada àquela vida maculada. E não conseguia fechar o ciclo de traições.

Decidi que, depois do Daniel, seria uma mulher exemplar, dona de casa, esposa devota. E que, se até o fim do ano o Leonardo não mudasse, eu me separaria. Mas um acontecimento inesperado causou uma guinada na minha vida.

O marido de uma amiga descobriu um e-mail que trocamos em que eu falava dos casos e, tomando as dores do Leonardo, disse que ia contar tudo a ele. Eu não suportava a ideia de ter a verdade revelada por outra pessoa. Então, decidi contar tudo a ele antes. Falei que teríamos de nos separar, porque eu o havia traído:

‘Te traí mais de uma vez. E não vou aguentar viver com isso’. Ele dizia que me amava, que nunca havia me traído. Choramos muito.

Saí com a roupa do corpo de casa. E com um vazio enorme. Passei a viver em stand by. Me afastei do trabalho para redigir minha dissertação. Morava em um hotel péssimo, todas as amigas felizes com suas famílias. Nem sempre tinham tempo para mim. Num domingo chuvoso, fiz meu perfil num site de relacionamento. Casei de novo, temos dois filhos. Mas isso é outra história.”

*Os nomes das pessoas citadas neste depoimento são fictícios

** As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.


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