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O Divã de hoje é anônimo.

“Há uns três anos ouvi falar sobre o Dia da Visibilidade Lésbica, dia 29 de agosto. Li qualquer coisa por cima, entendi, concordei. Até então, eu escondia com muita eficiência a minha orientação sexual de mim mesma. Sempre tive relacionamentos heterossexuais, e sempre senti algo errado. ‘Você é muito exigente, assim, vai acabar sozinha, viu?’, ‘Homem é assim mesmo, mas existe um legal e você vai encontrar’.

Passei por relacionamentos abusivos e conheci também homens muito legais. Educados, abertos ao diálogos, respeitadores do espaço, do corpo e do espírito de outra mulher. Não os vanglorio porque são coisas básicas em qualquer relação humana. Conheci várias realidades, ruins e boas. Mas eu não era feliz.

Hoje, no auge dos meus 27 anos, tenho de forma lúcida que me sinto mais feliz me relacionando com mulheres.

Existem problemas, são relações humanas. Existem sim relacionamentos abusivos. Conheço casos extremamente infelizes. Como qualquer relacionamento, nós temos preocupações, ciúmes, brigas.

Nas últimas semanas tenho sentido uma dor de forma mais intensa, e parece que ela não para de crescer. Meu WhatsApp apita freneticamente. Uma dezena de grupos e amigos combina alguma coisa para esse fim de semana. ‘Vamos ver um filme, vamos almoçar, vamos tomar uma’. Eu não quero, eu não consigo ter força para estar presente na mesa com vocês, porque eu estou obcecada com a minha dor.

Não tenho disposição de encarar as ruas, de aguentar assédio de macho escroto falando das minhas pernas, falando que meu vestido é uma delícia, puxando meu cabelo. Eu apenas quero existir, e não posso existir.

Lembro da mulher que eu amo. Eu penso na voz bonita que ela tem e o quanto ela gosta dos meus bichos. Eu penso nas discussões de ideias que temos. Aquele texto, aquela teoria, aquele filme. Eu lembro do café que ela prepara para mim e me faz acordar mais feliz. Eu lembro do seu companheirismo, dela andando nas ruas, ao meu lado. Lembro do carinho reprimido. Lembro do carinho que não foi reprimido. Lembro dos olhares repressores. Eu só queria passar a mão no cabelo dela.

Lembro do meu pai na mesa de um restaurante falando que conhecia perfeitamente as obras do demônio. Homossexuais são os próprios anjos caídos. Minha mãe, não sei. Sinto pena e raiva. Nós não nos falamos, escolhi não falar com ela. Minha mãe é estudada, esclarecida, mas título nunca deu sensibilidade a ninguém. Eu sou um projeto dela, sou uma extensão dela. Eu sou tudo o que minha mãe quis ser… Epa. Não sou.

Agora eu sou a frustração, a desgraça, a aberração, o motivo que irá lhe desconcertar quando seus amigos lhe perguntarem ‘E sua filha? Casou? Cadê os filhos?’.

Minha mãe não me odeia. Ela odeia o fato de ter uma obrigação moral de me amar, eu sendo tudo que ela não quis que eu fosse.

Lembro da minha tia dizendo ‘Adoro os gays, eles são tão inteligentes’. Tia, ser inteligente não é característica de gay, tem muito gay burro e babaca. Lembro do meu primo dizendo que o sonho dele é transar com duas lésbicas. Lembro do meu amigo falando ‘pode beijar ela que adoro segurar vela de duas mulheres’. Lembro do assédio nojento de um grupo de homens ao me ver beijando uma menina na rua. Lembro do medo súbito que tive de morrer, de ser  violentada. Lembro da raiva que não contive e fui atrás deles esbravejando palavras de ódio. Lembro da menina me puxando e dizendo ‘Calma, calma, vamos embora, tenha cuidado’. Enquanto ela dizia isso, era como se eu ouvisse ‘Calma, é porque nós não podemos existir’. Eu queria colocar aquela foto com a mulher que amo no Instagram.

Queria um dia poder colocar ‘Em um relacionamento sério com Fulana de Tal’ no Facebook. Queria andar de mãos dadas. Queria não ter que me policiar quanto aos gestos. Queria poder alisar seu cabelo na fila do supermercado. Queria não ter que ficar procurando ‘lugares LGBT friendly’. Queria não ter que comprar minha liberdade, me restringindo a existir, tal como eu sou, em apenas alguns lugares.

Tenho consciência que ainda estou dentro de recortes privilegiados: sou branca, classe média, tenho ensino superior completo. Quanta dor também existe nas minhas outras irmãs com seus outros recortes.

Nós, lésbicas, somos pensadas exclusivamente dentro de quatro paredes. Nós somos pensadas como objetos, como fetiches, como aberrações. Somos a frustração da família. Temos o direito à cidade negado. Não temos políticas públicas de saúde. A medicina não se preocupa com nosso corpo. Nós somos lembradas pela nossa incompetência em existir. Nós somos estupradas por homens que acreditam que podem corrigir essa ‘falha’.

Meu WhatsApp toca. Não, eu não vou sair hoje. Eu não consigo tirar essa dor de mim. Eu não quero experimentar, mais uma vez, esse sabor de não existir. E eu fico indignada, porque sinto que lutamos pelo óbvio: existir, ter voz, ter participação, ter direitos.

Mas acham que não merecemos um Dia da Visibilidade Lésbica. Como ver alguém que não existe?

Existem relatos e histórias maravilhosas de superação. E é sempre neles que tento me apoiar e lembrar que, em todo o contexto de crise, há um movimento de resistência. Eu lembro da minha mulher, eu lembro do meu amor. Eu gostaria de construir um outro mundo simplesmente para poder amá-la em paz.”

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.


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