O Divã hoje é anônimo por se tratar de depoimento de menor de idade.

“Tenho 16 anos. Dois dias atrás um garoto me pediu solicitação no Instagram e eu, que sou seletiva em relação a quem pode me seguir ou não, fui olhar o perfil dele. Logo me lembrei que ele era da minha escola antiga, e acabei aceitando e o seguindo de volta.

Três minutos depois ele me mandou uma mensagem. ‘E aí! Como você tá diferente… Lembra de mim?’ E eu respondi. Conversamos por um tempo e ele pediu meu número. Passei.

Conversamos por mais um tempo. Eu me interessei de verdade por ele, e fiz questão de deixar isso claro. Mas aí veio a seguinte mensagem: ‘Você tem um corpão… Vamos trocar fotos, eu mando uma minha e você manda uma dos seus peitos pra mim.’

Eu, que poucas vezes tive contato com essas coisas na minha vida, me assustei na hora. A feminista dentro de mim gritou e eu comecei a dar uma lição de moral nele. Disse, entre tantas coisas, que ele não poderia pedir aquilo pra mim do nada.

Foi aí que ele me disse: ‘Você tem foto do seu peito no Instagram, quando vi fiquei louco, não achei que você se importaria.’

Ele terminou aquela frase e eu engoli seco. A foto realmente marca os meus peitos, mas, espera aí, quando é que essa foto foi um convite pra ele me pedir isso descaradamente?

E ele insistiu. Eu apenas ignorava. Ele me disse que iria mandar uma foto dele, pra ver se eu me animava um pouquinho. A essa altura, eu já estava com vontade de vomitar.

Ele não se importou de mandar. Mandou e ainda perguntou: ‘Gostou?’ Por fim, eu bloqueei o número dele. Já não aguentava mais falar com alguém que só queria um minuto de diversão.

Depois disso, comecei a chorar muito. Comecei, de todos os jeitos possíveis e impossíveis, a me culpar por aquilo ter acontecido. Comecei a fazer exatamente o que toda mulher faz quando é assediada. Olhava pra minha foto e eu achava que ela tinha sido culpada por aquilo. Mas ela não era.

Quando eu postei aquela foto, foi porque eu gostei. Não foi pra ninguém achar que podia fazer o que quisesse comigo.

Quando fui procurar algum amigo pra contar o que havia me acontecido, ouvi o que eu já esperava: ‘Você procurou por isso.’ É claro que’, na visão dele, estava estampado na minha testa que eu queria que alguém me invadisse dessa forma.

Pode até parecer bobagem, mas eu me senti usada. Me senti suja. Depois de me acalmar e ler muito sobre o assunto, finalmente entendi que a culpa não era minha, tampouco da minha foto.

A culpa é do machismo, do patriarcado, que faz todo homem se achar no direito de invadir mulheres todos os dias apenas por serem homens. A culpa é desse falso poder que eles têm sobre nós e sobre nossos corpos.

Eu não o convidei. Não pedi por nada. E não apaguei a minha foto. Ela ainda está lá, totalmente linda da maneira que eu sei que sou. E ela não é um convite pra qualquer pessoa me pedir um nude.”

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.


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