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O Divã de hoje é anônimo.

“Tenho 21 anos e um bebê de quase quatro meses. Tive tanta dificuldade na maternidade que acho que quase tudo que podia dar errado deu.

Sou casada há quatro anos, mas fiquei grávida por acidente. Durante a gravidez foi tudo uma loucura. Meu marido ficou desempregado — ele tem minha idade, mas a cabeça de uma criança. Dizia que não pediu pra que eu engravidasse e simplesmente não queria mais transar comigo. Dizia que era por conta do bebê.

Com 32 semanas tive contrações e comecei a tomar remédios pra segurar o bebê por mais tempo. Com 36 as contrações voltaram.

Em pânico, com 37 semanas comecei a ter contrações fortes, fui para a emergência de um hospital particular, onde fiz uma cesariana, a pior experiência da minha vida.

Quando o bebê nasceu, ficou dez minutos no oxigênio. Depois, meu bebê não pegava o peito e me colocaram na cabeça que tinham que dar leite de fórmula. Esmagaram meus mamilos e brigaram comigo: ‘Seu filho vai morrer de fome porque você não quer amamentar ele’. Quando passou a anestesia, senti dor, sangrei.

Fui embora do hospital ainda sem conseguir amamentar. Tentei usar um bico de silicone, mas foi uma merda porque meu bebê continuava sem mamar direito e começou a perder muito peso. Recorri a um banco de leite, mas nesse meio tempo perdi a conta de quantas pessoas disseram pra eu dar mamadeira.

Descobri que meu marido estava saindo com uma ex-namorada. E a ‘justificativa’ dele foi que eu vivia descabelada, de pijama, fedendo a cocô de neném e leite, 20 quilos acima do peso. Eu não me reconhecia no espelho. Ainda não me reconheço.

Eu amo meu filho. Mas é tanta dificuldade que passamos que eu não sei como as pessoas julgam quem não quer ser mãe. Eu tenho que pensar no meu filho 24 horas por dia, não posso mais pensar em mim mesma! E isso é só com as mães, porque os pais acham que não têm essa responsabilidade.

Eu passava a madrugada inteira com o bebê no peito. Ele só ia dormir de manhã e só por duas horas. Depois tudo de novo. Horas no peito e minutos dormindo. Minha casa ficava uma bagunça, mas ninguém se importava em compartilhar comigo a responsabilidade.

Ser mãe é estar com uma responsabilidade maior do que se pode ter. É muito doído.

Passar uma semana sem lavar o cabelo porque não tem tempo. E as pessoas te apoiam na teoria, na prática é outra história. Passei tanta raiva que meu leite secou.

O pai do meu filho acha que eu não faço nada. Que eu ‘só’ cuido do bebê. Aí ele fica 15 minutos com o guri e se acha o pai do ano.

É isso aí. Filho é treta. Quando dizem pra gente com 15 anos que, se a gente engravidar, a vida acabou, duvidamos. Mas é praticamente isso. Você não vive sua vida, vive a vida do seu filho. E se tentar ser diferente as pessoas te julgam até conseguirem te controlar.”

 

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.


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