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Toda sexta-feira a Revista AzMina publica um capítulo do romance de folhetim “Nascem Flores no Asfalto”, de Mariana Lozzi. Leia os outros capítulos aqui.

Difícil nomear o que na infância persistia em mim depois de tantos anos a desbravar a aspereza das ruas como se a desordem tivesse sido a minha casa primeira. Eu não mais traçava caminho sozinha, porque tinha no aperto dos braços – perto, bem perto do meu respirar – um corpo pequeno e quente. Os olhos eram clarabóias muito acesas, peixes negros em aquários de cristalina redondez. Ele me olhava com espanto e divertimento, pertencido ao mundo por dele ainda não ter experimentado as quinas e os desníveis, acreditado que a tragédia pior de todas seria ter um carinho negado, e que durante toda vida arroubos de alegria se sucederiam aos banhos mornos. Lembro do meu filho pouco antes de completar o primeiro ano de vida, pequeno e bonachão, estranho a quedas e atropelos, a tudo que destoasse do dossel de sensações que renovava os giros acima de sua cabeça, em um eterno recomeço de histórias feitas de formas e figuras para ele tão reais quanto eram as bocas que iam ao encontro do torvelinho dos seus cabelos à procura do cheiro da infância.

Meu filho agitava as mãos em aflição de fome, como se estivesse esperançado de apanhar comestíveis no ar, conjurados pelo seu desejo de existir em condição de encantamento renovado, como nos livros de história. Ele se recusava a dormir enquanto as figuras no teto do berço ainda dançassem em roda, metidas em divertimentos em torno de algo que ele desconhecia, mas que não chegava a aborrecê-lo, porque no imo dos dias estava o desconhecimento. Queria estar ali para testemunhar o momento em que o azul se converteria em amarelo, no qual desse amarelo despertaria um verde aquiescente como o das folhas das pitangueiras, ou um vermelho tão ultrajante quanto o voo atarantado dos pernilongos que se desmanchavam em lágrimas carmesins entre as palmas das minhas mãos. Ele se metia em bravatas contra o sono, porque ver era a sua vocação primeira, seu comichão mais fundo, e não suportaria que segredássemos dele divertimentos. Queria estar acordado para o instante em que entre as cores se igualariam na dança caduca das dos dosséis de berço.

Para o meu filho, nada era mais natural que balançar as pernas e se lançar em direção às superfícies duras, crente que eu o seguraria antes que ele conhecesse o aperto firme da dor, porque o nó com que os meus braços o envolviam era feito de minérios. Não desatariam.

As mães são mais antigas que o mundo. Pensar no nascimento de uma mãe ou atrelar sua vida à eminência da morte é tarefa por demais custosa – sempre fica um duvidar desejante, como se admitir os domínios da morte equivalesse a prestar devido culto a ela, artimanha para que, envaidecida, acredite-se soberana e adie passagem. Aceitar a morte da mãe da gente é o primeiro dos absurdos que devemos ensaiar no livor da língua. O esforço de tentar conter a silhueta disforme da Excelentíssima Funcionária em um único nome – para que, assim, pertencida a um só som, a uma só palavra, não a pronunciemos desavisados e ela não ouse se aproximar num rastejar desejante, tomada de curiosidade e pronta para nos beijar a face – é a brincadeira de que os adultos mais carecem, e a única de que não abrem mão. Ao nomear a morte – logo ela, de quem nunca vimos a face, de quem nada sabemos, e só intuímos seu avizinhar dos homens – o corpo transparente da infância ganha opacidade e passa a ser acompanhado por sombras tentaculares tão cedo procura o sol. A realidade nos convida a nos enfileirar diante de portas lacradas, espreitar fechaduras e pronunciar indizíveis.

Abrimos as janelas de casas imaginárias para que brisas abstratas se convidem a entrar, para que nos visitem em sonhos e nos envolvam em uma vertigem adocicada, em um medo de geometrias pontiagudas, todo taquicardia dos sons, estranho ao existir esparramado da infância – insana liquidez. Absurdos se enfileiram com uma naturalidade sintética, passamos a cantar leis anteriores a nós e a nos munir delas como se fossem tão antigas quanto são as mães. O tecido dos dias se fia em plataformas de metrôs, em passarelas lotadas e nos interiores de prédios espelhados – um carretel silencioso entremeia as costuras do tempo em baques metálicos, agulhas invadem a pele nossa com uma impessoalidade sinistra, injetam contraste.

Apesar de ter encontrado na morte uma companhia fiel para os pequenos delírios, eu nunca descobri se seria capaz de me livrar da certeza azucrinante que a minha derrocada para além do véu selaria o destino do meu filho com uma promessa enlaçada em seus dedos, e que, mesmo decidida a não morrer para que ele também vivesse, eu mesma já havia sido jurada de morte pela velhice da minha mãe. Éramos uma fileira de dominós, a despencar cândidos, catapultados pelos anelares do Grande Insuflador de Vida.

Sair com Leozinho na rua era tarefa das mais cerimoniosas. Tudo fremia perigo, desde as quinas dos paralelepípedos – feitas para ir de encontro aos bicos dos pés e calcanhares desavisados no atropelo das buzinas e das luzes dos semáforos – até a eminência de olhos intrusos, cravados como pregos no corpo frágil da concha nossa. Eu o segurava rente a mim em uma comunicação silenciosa, como se o dissesse com o aperto dos braços, numa timidez autoritária, que não havia motivo para choro, e que ele podia serenar os desassossegos porque estava perto, muito perto de mim, e era hora de nos fazermos atentos aos perigos da rua. Bastava ele agitar as pernas em aflição brincativa para eu acelerar a marcha, porque, miúdo e entregue à retidão da própria natureza, meu filho estava jurado de amores pela profundidade do próprio grito, fabricador de espantos. Eu o perderia entre uma esquina e outra – fácil assim – e quebrariam o nó das minhas mãos com os canos de escopetas. Seria tirado de mim como me tiraram a Lis, cuja voz eu ainda podia ouvir, porque chamava por mim em um pranto ardido, segredada por portões de ferro e por portas de vidro que não reconheciam os labirintos nas pontas dos meus dedos. A saudade era um cavalo esquálido, na danação anunciada de um trote manco, arritmia mais minha.

Olhava para o meu filho, que balançava as pernas e apontava para cachorros de rua em bobo divertimento, esparramado na própria natureza, e tentava lembrar como era isso de se bastar em si. Eu não sabia quando em mim havia sido instaurado o alvoroço trócico que me invadia o corpo e me enchia de urgência de farçar contentamento, placidez, eficiência, completude, ou até mesmo de cruzar as pernas e esticar a coluna ao intuir o aproximar de outros corpos. Eu me acreditava observada por pares de olhos invisíveis que se alternavam como pêndulos de chumbo envenenado.

A essas consciências escorregadiças, feitas de chistes e de sussurros que se sobrepunham num eterno deslizar de vozes, eu dedicava Ana, que antes de nascer já tinha nome e sina de mulher. Pensava nas garotas que se sentaram ao meu lado em carteiras durante a longa infância, afoitas por decorar respostas e entregá-las aos professores com a mesma conformidade ensaiada com que outras mulheres um dia devolveram camisas engomadas às gavetas de uma casa, ou com que estenderam mãos que abrigavam doces cristalizados, polvilhados de açúcar e embrulhados em papel de seda. As garotas alinhadas em carteiras na escola, que brincavam com bonecas no recreio e confiavam sonhos modestos a orelhas de plástico, ainda se revezariam nas portas de banheiros químicos, filariam cigarros para espantar o frio destilado da madrugada, recusariam sobremesas, evitariam espelhos, teriam as cinturas percorridas por mãos indesejadas e mascarariam caretas quando as línguas fossem chafurdadas por um amargor que as amorteceria de si.

Na vida nossa, era imperioso baixar os olhos e esboçar sorriso, mais por receio de sermos vistas do que por falta de vontade de ver. Era natural reconhecer perigo na marcha dos coturnos, represar o choro no umbigo fundo das multidões, temer afogamento de si em pestanas alheias e morder a língua a cada gole de café mal tomado, engolido num devir de sonhos postergados. E a felicidade lá, a resplandecer cristalina em telas de monitor, escancarada em mil sóis brancos, simples como o beijo guloso sobre a mesa posta do café da manhã, promessa de um amor custoso, que se demorava a chegar e, quando chegava, deixava na boca rastro de estranheza, acusava incompletude. Vivíamos na sutileza do quase.

 

Às vezes eu encasquetava em achar que existe um eu-caduco que habita a pele de todas as gentes, como uma farpa há muito encravada no rosado da carne nossa, ferida que não se coça, só faz doer conciso. Eu nomeava a minha falta primeira de amor, e me metia em brigas infindas com a outra Ana, que mora em mim, mas atende por nomes diversos, e, às vezes, dava de aparecer em sonhos. Quando vinha ter comigo no claustro escuro do quarto, a outra Ana me dizia obscenidades em um murmurar custoso, fluente na língua dos absurdos, que curtia parecença duvidosa com o português, e em muito me lembrava o idioma com que Olívia descrevia as tardes sobre a sombra da amoreira, fugida da realidade. Linda e louca, ela me conduziu pelos corredores de uma casa com bromélias no portão de entrada. A outra Ana me disse, um dia:

 

O amor está lá,

não vê?

bonito impessoal

dos outros

forjados pelos outros

para os outros

pelos anelares de um Outro maior

surdo sonolento

apático anterior

imperturbável

 

Habitávamos entre-reinos. Perseguíamos os mesmos pares de sonhos rasos, inalcançáveis e fadados a se esvaziar diante da nossa presença, porque não haviam nascido em nós, mas nos outros, e a eles revolveriam. Eram desejos cravados no mais fundo, incrustados atrás das nossas orelhas, e seguíamos em direção a eles em um deslocamento febril. Era um destino que não se fixava. Perigávamos despencar de um abismo aparentado em tudo com uma garganta de pedra, aprofundada no grito das crateras, deites de leite antecipados na soltura.

Mesmo jurado de esquecimento e morte, o cavalo esquálido que desbravava os escuros do meu peito se recusava a silenciar o trote envenenado. Não importava o quanto eu tentasse, não conseguia rememorar as pequenas contravenções, nem os crimes de liberdade. Parecia que haviam me nascido mulher.

Ana?

Hein?

Cê tá com cara de choro que não se chora. Parece que ideias pontudas te espicaçam a garganta e bramem soltura, querem por tudo sair de dentro da goela sua, as coitadas, mas você é gulosa de tormentos e teima em não segredar os atropelos d’alma, engole a todos. Se continuar assim é capaz de ficar constipada de tristezas.

O meu filho.

Deixe de bestagem que ele está numa felicidade que só lá em casa. Eu instruí dona Fafinha de cuidá-lo pessoalmente como a um príncipe ou, melhor, como a um pequeno senador fraldado. Ele vai nem se atentar para a sua ausência, então largue de queixumes, o filho seu está é guloso nas pontas dos dedos, roxo de vontade de brincar com Tomazinho, ou pelo menos com os brinquedos de Tomazinho, visto que o meu filho não é a melhor companhia brincativa, o coitado. Deus sabe que eu já tentei torná-lo interessante, mas nenhuma cócega mental despontou. Mas é lindo dum tanto, miúdo e roliço nas vontades, quer saber só de serenar no berço, gritar fino para as luzes que varam as persianas e abrir berreiro apaixonado, guloso de corpo e de modos, esfomeado desde o nascimento custoso. Mas não há de ser sempre assim, fique sabendo. Mais dia menos dia o meu filho vai curtir fermentação insana nos ossos e nas ideias para se tornar um moço responsudo e alongado, desses dois quais vaza inteligência do olhar. Vai ser sensível aos apetites do mundo e acarinhar os cocurutos dos cachorros do jeito próprio que Moço faz. Vão ser muito parecidos, os dois.

Fico besta de saber que o marido seu serve nem pra isso, que temos que desempenhar nós mesmas as tarefas que ele poderia cumprir no tamborilar de dedos no telefone. Duas ligações e me resolveria a vida inteira, o pulha. Então deixo meu filho pra trás e nos enfiamos nesse carro grã fino, estacionado na garagem sua com a casualidade de uma pedra envernizada, porque encasquetamos de resolver a vida de duas pobres coitadas. Temos que fazer milagre nesse pardieiro de expiações, então se prepare para sorrir até a exaustão, dona Olívia, valiosa como a senhora é para as câmeras. Meu sonho era que a Lis não tivesse tanto azar, sabe, que não ficasse com os olhos assim curtidos por emoção e que não se esquecesse do que é devido, do que é correto, que levasse em conta o quão pequenas somos antes de cometer sandices, que não sofresse nem fizesse sofrer.

Fernando só quer saber de mim para assuntos maridais. Ficou emputecido em definitivo depois que eu curti insanidade no tribunal e contei aos repórteres que já havia me fartado de parir, que nem adiantava ele se assanhar a me mostrar a bronha, porque não deixo mais ele espirrar semente em mim, isso não. Gostou em nada de encontrar os caminhos do corpo barrados, tentou foi se aproximar, todo candura, a rigidez do verbo abrigada atrás de palavras de bonita escuta, macias e perfumadas, como pedaços de maçã cobertos de caramelo borbulhante. A língua queimava em antecipação da mordida. Nas horas de urgência assim avolumada, ele era todo hálito quente no oco dos meus ouvidos, todo dedilhar dos dedos em vincos e dobraduras da pele, rubros recônditos que ele gostava de amassar, sem saber que o agudo do seu toque me judiava no mais fundo, como uma mão que empunha um graveto com o qual procura caramujos para cutucar o moloso das conchas sem comiseração da sua vontade de se sozinhar, de tomar sol e percorrer o cocuruto cravejado das pedras em lambidas de corpo inteiro. Eu calava a zanga, a sanha de afastá-lo de mim, de fazer parar de jorrar as palavras com que ele encobria o meu silêncio. O silêncio me comunicava. Então eu consentia e abria os meus meios, quedava objeta, abjeta, em obediência de caramujo. Nenhuma vez disse assim: Pára, Fernando, arrêt, arrêtez-moi, ARRÊTEZ-MOI!,  Como aquela mulher loira – lindíssima – fez em um filme que eu assisti em numa tarde especialmente longa da infância. Agora, interferências, corusques e granulados encobrem o seu retrato já tão embaçado. Eu olhava para aquela moça assim tão linda, tão biscoito de gengibre em lata de alumínio, judiada pelo corpo pesado de um homem mais velho, tão ogro, tão opaco no olhar, e dizia: mãe. Ela tinha olhos de água-viva. Eles eram luminosos, tecidos numa seda-neural de transparência acetinada, limpidez de choque, e ficavam metidos num insuflar infindo de bolhas e vidas pequeninas, que pulsavam como se todo o mar não passasse de um único coração, a bombear marés. Não, eu sabia que para Fernando não existia esperança de sutileza, então não exigia dele mergulhos mais macios, mais tenazes. Eu via suas mãos à semelhança das asas de pássaros jovenzinhos, metidos num eterno trocar as penas da infância, desengonçados e afoitos por desvelar novos voos, mas incapazes de se imiscuir ao destilado da tintas do céu e entender do que são feitas as manhãs, com qual cadência o carretel do Tempo trabalha para tecer os fios de uma alvorada e envolver a todos num anil profundo, mais rouco que Deus. Quando ele jogava o peso sobre o meu corpo e arfava sem fim, eu abria a boca como num desmaio e deixava resvalar dos dentes branquidão lunar. Quedava muda, estupefata, com a presença envergonhada de uma estrela há muito morta, já incorporada à massa amorfa de astros e feita areia pelas cólicas violentas dos intestinos de Deus, que engole planetas no livor da língua. Suas azeitonas. Mortíssima, a minha estrela é ressuscitada diante dos homens e de suas lunetas todas as noites pela memória da luz. Por favor, entenda, Ana, que, se quando tinha com o meu marido, eu abria a boca e fechava os olhos em um ummm-gemido de funda umidade, era porque me assustava a sua presença, a nossa parecença assim entrelaçados, e eu me cobria de aflições mudas tão cedo ele cismava em me dizer mulher. Sua mulher. Ele me cavucava os escuros com mandonice de patrão, rondava a geometria delirante de um instrumento cujo som verdadeiro desconhecia, mas estava decidido a fazer jorrar sinfonia a qualquer custo.

Conheci vários Fernandos.

Desde que me recusei a lhe acarinhar a bronha, Fernando convida doutores d’alma para visitas azucrinantes, custo a acreditar que me afasta da sombra da minha amoreira para isso. Na volta do trabalho passa na farmácia e me aparece com unguentos malcheirosos e comprimidos cada vez mais variados na plasticidade das cores, pintas amargosas que ele alinha sobre a mão aberta, milho para amortecer grito de galinha histérica. Quer que eu os engula sequenciais, ligeira, acho que gosta quando me ponho sonolenta, com a língua adormecida na gaveta da boca, e não espezinho os ouvidos das gentes da casa com o meu verbo descarrilado.

Os corpos das árvores se deitavam sobre a pintura do carro como aquarelas ligeiras. Olívia falava com a cabeça recostada no vidro da janela enquanto a tarde lançava sombras vermelhas sobre o asfalto, cada vez mais alongadas e decoradas do azul que vazava dos bocados mais altos do céu, tenra tessitura. O recorte retangular de cimento logo se desenhou no horizonte e, ampliado a cada instante, foi fixado diante de nós como signo de um futuro que ainda não podíamos nomear, mas convidava nosso sangue – quente e espumoso, delirante correnteza – a navegar ligeiro nos labirintos estreitos do corpo, cobrindo-nos de comichões.

Olívia?

Olívia é uma azeitona.

Chegamos.

Os mesmos corredores que eu percorri com as mãos em punhos e nos quais eu me alinhei em meio a outras mulheres no desespero de uma fila para que – uma a uma – dessem-nos ordens de nos despir e afastar as pernas para que nos revistassem as intimidades estavam, enfim, vazios. Escoltadas por guardas, Olívia e eu espantávamos o corpanzil insidioso do silêncio com o ribombar dos nossos sapatos no linóleo. Os guardas nos conduziram a uma escadaria estreita que se encaracolava até o terraço do prédio. Do outro lado de uma passarela modesta, escoltada por guaritas, era possível avistar uma sala cujas paredes eram tomadas por janelas amplas, emperiquitada com descrição acima dos muros do presídio. Suspensa sobre o vai e vem do pátio com a antinaturalidade de um aquário voador, as janelas da pequena sala eram dum escuro azulzado, reluzente e aquoso como são os olhos dos cães. A sala via, mas não era vista.

Senhora Olívia?

Parado em frente à porta do aquário voador, um homem calvo nos aguardava com o cenho franzido e a mão estendida diante de si, pronto para envolver o pulso de Olívia em um aperto formal e convidá-la a se sentar em uma poltrona diante de uma mesa de metal escovado, povoada por alguns porta-retratos e um grampeador. Ela não esboçou reação. Limitou-se a agachar diante da mão aberta do homem e desamarrar as fivelas dos sapatos, que deixou para trás enquanto andava em direção ao interior do aquário. Eu apanhei os sapatos e a segui.

Entre, não tenha cerimônias, por favor. A senhora deve ser assessora da dona Olívia, a que me ligou mais cedo para comunicar visita. Peço desculpas antecipadas em nome da diretoria por quaisquer obscenidades que as senhoras possam ter presenciado no caminho até aqui, saibam que eu mesmo imbuí os guardas de tirar as detentas da cela e colocá-las para serenar os humores no pátio. Percebem como aproveitam o fim do sol estiradas no chão, como se tivessem diante de si o mar, felizes por pertencer? Ou como principiam a conversar umas com as outras em arroubos de tagarelice? Nós prezamos por usurpá-las do mínimo de liberdade possível, o conselho diretor da nossa rede é governado pela vontade de reabilitar essas mulheres para o convívio em sociedade, devolvê-las ao seio da família ou livrá-las dos maus intentos para que prezem pelo bem comum e se percebam afortunadas, com poderes de fazer brotar vida numa hora assim escura para a nação. Nossas salvadoras.

Olívia recusou o lugar na poltrona estofada que o diretor havia reservado para ela. Com os braços cruzados sobre o peito, ela esticava o pescoço e cravava as vistas no pátio que se descortinava abaixo dos nossos pés. A marcha das presas pelo quadrado de concreto era revestida pelo filtro azul das janelas, como lentes de contato fabricadas para vislumbrar realidades outras. A distância entre nós e elas era de súbito dilatada, como se a torrente corpulenta de centenas de mulheres não estivesse há poucos metros de nós, mas confinada em um passado longínquo, e – desvelada pela luz fria – fosse transmitida pela tela de um monitor silencioso. Lá de cima, era fácil vê-las com a impessoalidade descontraída de quem admira a engenhosidade de um formigueiro e se diverte com a textura dos corpos pequeninos, agrupados em guerras infindas. Com a boca seca e os olhos muito abertos, eu procurava Lis. Não a encontrava.

Dona Olívia, que falta de prumo a minha, nem perguntei como vão as crianças. Sei que o marido seu cresce nas pesquisas a passos de gigante, dizem que é aposta certa para o partido. A senhora nem imagina como me alegram os elogios que ouvimos à administração dele, Deus bem sabe que torço por todos os meus amigos, ainda mais pelos que têm a qualidade de Fernando, que sempre foi generoso para com as necessidades do sistema prisional feminino e nunca hesitou antes de fazer passar projetos de lei que zelassem pela segurança das famílias e pelo amparo de mulheres necessitadas de alinhamento das ideias e correção dos modos. Tem certeza que não quer se sentar? Engraçado. Com o olhar assim atravessado a senhora lembra em muito a sua mãe naquela novela de tantos anos atrás, acho que a senhora nem era nascida, mas é certo que o país inteiro se apaixonou por ela em um só tempo. Não conseguíamos parar de olhá-la. Ninguém ficou mais sentido que eu quando a toda-linda se aposentou das telas da nossa emissora, ou quando aquele acidente horroroso a afastou dos palcos, benzadeus, perdemos um dos nossos maiores talentos naquele dia. Dona Olívia, a senhora já pensou em atuar? As gentes iriam à polvorosa caso a vissem refletida nas telas dos televisores país adentro, seria paixão garantida.

De costas para a janela que encarava a extremidade do pátio, o diretor não viu a formação de mulheres em círculo, rente à face do muro chapiscado, em um carnaval de corpos que escapava do controle dos nossos olhos. Elas se atropelavam com bofetadas e empurrões, investiam umas sobre as outras e abriam os braços a acenar para o nada, como se estivessem prestes a submergir no mar de membros em um afogamento assistido. Com os olhos presos em Olívia, ele perdeu o momento em que corpos espalhados por todo pátio começaram a correr em direção à roda, tomados pela vontade de lutar naquela batalha silenciada pelas paredes do aquário de vidro, dentro do qual pairávamos, de súbito despertencidos daquela realidade.

Sabe, Olívia… Posso te chamar de Olívia? Não se aborrece? Bom. Eu me entristeço em muito em saber que dizem desaforos a seu respeito, que as revistas não se cansam de propagandear um desalinho que não é devido, como fica claro a um qualquer que seja agraciado com a sua presença e prumo, tão luminosa quanto era a da toda-linda, pérola na concha dos olhos comuns. Mamãe chorou durante três dias e três noites quando a morte encasquetou de ter com ela em hora assim prematura, minhas primas fizeram um velório com as bonecas, as vizinhas desbravaram madrugadas a sapear canais de televisão que prestassem homenagem à sua vida. Não sabe como nos apoquentou essa tragédia.

A movimentação no pátio havia cessado de súbito, num susto congelado, e as mulheres convergiam o arco dos corpos para uma silhueta assim diferente delas, prostrada no centro da roda. Ela não vestia as mesmas camisolas encardidas das detentas, sim um uniforme escuro de corpo inteiro. O reflexo azulado das janelas da sala do diretor revelou um corpo caído ao redor do qual as mulheres recuavam, em uma marcha reversa. Uma mancha escura perfilava caminho no chão do pátio em direção aos pares de pés mais próximos, ampliada até que se tornasse claro que a morte havia cruzado os portões de ferro do presídio em um viajar silencioso, e se debruçava sobre o corpo daquela mulher, na tez da qual seus lábios pronunciavam um beijo.

Lis!

Senhora?

O diretor havia despregado os olhos de Olívia e, pela primeira vez desde que cruzamos a porta de vidro do aquário voador, atentou-se para o rebuliço das detentas no pátio. Assistimos ao aproximar ligeiro de dezenas de corpos uniformizados, que desbravavam o quadrado de concreto com os cabos de cassetetes erguidos diante de si como espadas e, num estremecimento de corpo inteiro, golpeavam cabeças e estômagos até que as mulheres metidas dentro de camisolas despencassem como dominós cândidos, alinhados em fileiras bem comportadas ou, se já jaziam no chão, rendidas, comprimiam seus estômagos, cabeças e mãos sob o solado das botas. Eu gritei o mais alto que pude e senti mornidão escorrer entre o vão das pernas. O diretor saracoteava ao redor da sala, aflito para dar ordens, e gritava aos homens fardados no pátio comandos que eles não podiam ouvir, isolados que estavam da boca do chefe por paredes assim grossas, suspensas acima de seus corpos. De súbito percorrido por uma alumiação, o pequeno homem correu até a mesa de metal escovado, onde sentou com a bunda na cadeira e tirou o telefone do gancho. Antes, porém, que ele tivesse a chance de pronunciar palavra sequer no bocal, um baque excruciante penetrou nossos ouvidos e a janela atrás da sua cabeça se desintegrou em uma tempestade cortante. Chovia vidro.

Eu olhei para trás e encontrei Olívia prostrada no centro da sala com os olhos congelados em um choque muito azul. Diante de si, onde antes havia uma poltrona acolchoada na qual fora convidada a se sentar, não havia nada. O diretor tombou diante da superfície cortante da mesa, com as mãos a encobrir a careca luzidia, polvilhada por pequenos cortes. Eu segurei a mão de Olívia, pronta para arrastá-la pelos corredores em um atropelo desordenado, até que encontrássemos o pátio dentro do qual um deus da carnificina amolava as presas de marfim e eu pudesse beijar os olhos de Lis mais uma vez. Antes, porém, que pudéssemos alcançar a porta, uma procissão de silhuetas fardadas deixava as guaritas e corriam em nossa direção. Com os ganchos das mãos embrenhados em nossos cabelos, fizeram-nos marchar sobre as caspas caídas da Deus.