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Uns 10 anos atrás eu nunca ia pensar que precisava ter consciência da minha responsabilidade de viver saudável neste mundo. Na minha cabeça tudo acontecia meio que sem querer…querendo.

Eu comia, dormia, ia à praia, viajava, transava, convivia com meus amigos…estudava, trabalhava…tudo “normal”. Até que algo curioso, e muito mais frequente do que a gente imagina, me aconteceu. Eu comecei a namorar um homem violento.

No começo tudo eram rosas e bandeiras — vermelhas. E, no meio de tanto machismo, a gente vai vivendo confusa, aceita tudo… não questiona nada.

Nesse processo fui definhando… deprimindo… desiludindo… até que meu corpo, até então super “normal’’, foi me dando sinais de que algo estava muito errado e que, se eu não mudasse rápido, a coisa ia ficar feia.

CLIC. Virou minha chavinha.

Minha cabeça estava toda confusa, desbaratinada. Meu corpo me dava alertas e meu espírito pedia pra eu sair daquela situação já. Tinha pensamentos muito negativos sobre mim mesma, todo dia acordava sem energia, tinha infecções urinárias constantes, dores na coluna, pesadelos e sensação de estar sendo perseguida. Não sabia se meu julgamento estava correto porque vivia em estado de confusão mental.

Foi nesse evento traumático da minha vida que percebi a importância do autocuidado.
O que é afinal esse conceito tão místico, que nos remete a férias (do mundo) numa praia paradisíaca?

Um relatório de 1983 da Organização Mundial da Saúde definiu autocuidado simplesmente como “atividades que indivíduos, famílias e comunidades empreendem com a intenção de aumentar o bem-estar, prevenir doenças e restaurar a saúde”.

Desde então, o conceito tem sido expandido por psicólogos, ativistas e simpatizantes da nova era, que enfatizam a retomada do tempo para focar em si, no meio da vida corrida e trabalho incessante, além das obrigações sociais.

Focar? Em mim? Oi?

Como mulher, eu sempre fui coagida (isso mesmo, a sociedade machista faz isso com a gente) a pensar no bem-estar do outro. Dar atenção a mim mesma significava egoísmo. Constantemente era chamada de egoísta pela minha mãe e achava este um “defeito” péssimo meu.

Então, o autocuidado não era um conceito pensado pra mim. De jeito nenhum. Talvez fosse coisa de gente rica. Gente que pode pagar um spa e ter massagista semanalmente. Na minha cabeça autocuidado era isso.

Por que seria uma realidade tão distante? Ah, porque sendo mulher da Baixada Fluminense (isso levando em conta minha própria experiência), preciso trabalhar, cuidar da casa, estar “bonita” (o que muita gente assume que seja autocuidado), estudar, manter minha sanidade mental no mundo machista, lutar contra as opressões diárias, ler mais, ter opinião formada sobre os problemas mundiais, me levantar contra o racismo de cada dia, dar conta dos filhos, do marido, das amigas, da família. E descansar somente para produzir mais e mais.

Em 2008 Psychology Today publicou um artigo onde a médica Dana Gionta escreveu: “Equilibrar trabalho, família e vida pessoal sempre foi algo desafiador. Hoje em dia, isso é ainda mais difícil devido aos avanços tecnológicos que continuamente nos sobrecarregam com informação por todos os lados.”

Além de tudo, não fomos educadas a usar a tecnologia a nosso favor, o que nos causa estresse por não saber “desligar” quando nos cansamos.

Autocuidado parece uma utopia quando se pensa em vida saudável na Matrix em pleno 2017.

Pois é. Tem gente que acha que férias uma vez ao ano é autocuidado.

Se eu não tivesse chegado ao fundo do poço e entendido o poder que essa palavra tem… eu não estaria aqui vos escrevendo.

O que é o autocuidado afinal, Luna?

Aprendi que é apenas aprender a escutar meu corpo.

Criar mecanismos de escuta. Conectores. Entre os ouvidos e a boca. Entre o estômago e o nariz. Entre as costas e os olhos. Tudo é parte de um sistema que foi naturalmente desenvolvido pra nos proteger, não só física, mas mentalmente.

Cada reação no nosso corpo, por menor que seja, nos diz onde começar a investigar pra saber se o caminho a seguir será benéfico ou não.

Socialmente, fomos ensinadas no caminho da auto destruição. Por que será?

Quando eu era criança, adorava brincar na rua. Correr. Jogar bola. Jogar vôlei. Era uma liberdade tão imensa que gerava uma alegria que não cabia em mim.

Quando fiquei “mocinha” fui cortada da minha liberdade de correr feliz e selvagem e precisei entender que “uma moça não fica pela rua vagabundeando até tarde”.

Depois da primeira menstruação começou a preparação pra ser a “mocinha perfeita”. Agora existe um peso enorme na minha vida. 1) posso ficar grávida se não me cuidar. 2) posso me sujar inteira de sangue se não me cuidar.

Ser mocinha significa que todo mês vou receber uma “visita indesejada” que incomoda, dói, faz sujeira e eu preciso não só me acostumar com ela…já que vai ser ser assim até mais ou menos os 50 anos, mas achar formas de camuflar essa “coisa” pelo resto dos meus dias de mulher.

Obediência é a chave pro sucesso da “missão camuflagem”.

Já que desde cedo somos castradas da nossa liberdade e ninguém nos ensina como construir uma relação saudável com nosso corpo a partir dessa iniciação “não desejada”, o que nos resta é encontrar maneiras de nos encaixar no sistema da melhor forma possível.

Aqui começam os problemas. Porque nos desligamos do que nos fortalece em uma tentativa desesperada de dar conta de todas as expectativas que são colocadas na gente durante essa nova fase. E crescemos dormentes. No automático.

Antigamente, em algumas sociedades, as mulheres se reuniam em tendas durante o período menstrual. A conexão era com os ciclos lunares, o que regia toda a vida em comunidade. Elas se retiravam a um lugar chamado “a tenda vermelha” e ali ficavam e cuidavam umas das outras com chás, repouso e unguentos por alguns dias.

Sim, havia um tanto de “nojinho social” do sangue menstrual, mas nossa ideia aqui é transgredir o sentido historicamente dado à tenda vermelha e valorizar outro aspecto dela, este sim, positivo.

Porque era durante essa convivência que as mulheres se conectavam muito profundamente. Dias que eram de extrema importância, pois nesse período as mulheres pediam pela fertilidade da terra, ofereciam seu sangue às entidades da agricultura e pediam visões para que tudo continuasse em harmonia para toda sua família e entes amados.

Era um momento de poder. Onde o autocuidado era exercício. Todo sinal era de extrema importância e ali, juntas, elas se educavam para se escutar melhor.

Hoje eu entendo o poder dessa prática. Na vida moderna pode não ser possível estar em uma tenda vermelha com as pessoas que a gente ama, mas podemos sim criar um espaço de cuidado para nosso dia a dia.

Desenvolver a escuta no nosso corpo é retomar práticas antigas que nos permitiam ser mais poderosas, centradas, cuidadosas, amorosas e melhores líderes dentro da nossa comunidade. Conseguindo viver uma vida com mais harmonia e dando prioridade ao bem-estar.

Essa é a minha visão hoje. Por isso, decidimos criar esta coluna.

Queremos juntas desenvolver essas práticas e voltar a nos ouvir, pra que todos ao nosso redor sejam impactados de forma positiva.

Vamos retomar nosso poder pessoal através do autocuidado.

Esta vai ser a nossa tenda vermelha virtual. Sintam se à vontade pra participar.

 

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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