Fotos: Paula Fróes

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Ciganas de diversas idades dançam pelas ruas de Boa Vista do Tupim.

Quando você cruzar uma cigana de saia rodada e colorida, saiba que está diante de uma peça de resistência. “O que define a mulher cigana são as vestimentas”, respondem, em uníssono, todas as entrevistadas pela reportagem em Boa Vista do Tupim, no sertão baiano.

Apesar das vestes as tornarem alvo fácil de preconceitos, elas insistem em exibir, com orgulho, essa marca identitária.

Ninguém sabe ao certo de onde os ciganos vêm, mas a tese vigente entre a maioria dos historiadores hoje é que são um povo de diáspora que saiu da Índia há cerca de mil anos e se espalharam pelo mundo. O primeiro registro de sua presença no Brasil data de 1574: a deportação do cigano João Torres e sua esposa, Angelina, pra cá a mando do governo português.

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Das muitas etnias ciganas, três fincaram pé no Brasil: Calon, Rom e Sinti. As mulheres de Boa Vista do Tupim pertencem ao primeiro grupo. Elas têm uma língua própria, o romani, que guardam como um segredo e não ensinam a ninguém que não for cigano.

Há pouco mais de duas décadas, algumas mudanças importantes nos costumes dos ciganos calon tornaram ainda mais importante a estética marcante das mulheres e os casamentos dentro da comunidade. Nesta fotorreportagem, a gente te mostra um pouquinho como elas vivem.

Até 25 anos atrás, as mulheres ciganas andavam em caravanas nômades com seus maridos. Tinham uma vida dura que incluía dar à luz em ruas e acampamentos. “Mover-se, para os ciganos, era uma questão de economia”, conta Irandir Souza da Silva, mestre em identidade cigana pela Universidade Estadual da Bahia (UNEB). “Eles trabalhavam com venda de objetos e animais, como cavalos, para transporte. Com a industrialização do Nordeste e melhora das rodovias e meios de transporte, essa atividade perdeu rentabilidade. Por isso, se fixaram e trocaram o comércio de equinos por venda e troca de carros.” As ciganas da etnia Calon se fixaram principalmente no Nordeste. As desta foto andam pelas ruazinhas de Boa Vista do Tupim, onde residem e levam uma vida com muito mais segurança e conforto.

Ter uma casa fixa melhorou muito a qualidade de vida das ciganas, como conta Eliana Almeida, 48 anos, que foi nômade até os 23. “Hoje o sofrimento é bem mais pouco”, atesta ela. “Não tinha esse lazer que tem hoje, não tinha hospital, nada.” A rotina dela, como a da maior parte das mulheres ciganas, é cuidar da casa e dos filhos até o meio dia mais ou menos e depois relaxar vendo televisão, ouvindo música ou conversando com as vizinhas. A casa de todas as ciganas é um primor: limpa, colorida com peças feitas à mão, perfumada e cheia de peças de inox polidas na cozinha.

Roupas bordadas à mão, brilhantes e coloridas são a principal maneira que as ciganas encontram para expressar orgulho por sua identidade. Elas permanecem se vestindo assim mesmo que isso lhes custe enfrentar uma série de preconceitos em suas cidades. Resistem, firmes, em ser quem são.

Os dentes de ouro permanecem uma marca importante da cultura cigana. Tem um valor estético, de marca de identidade e uma terceira função: expressar que sua família tem boas condições financeiras.

Segundo a tradição, uma boa mulher cigana é aquela que obedece ao pai e, depois, ao marido. “Uma mulher cigana deve manter o caráter do marido, ser obediente, fazer o que ele quiser”, decreta Roberlânio Mascarenhas, de 19 anos. “O homem deve também manter o respeito, mas eles sempre são descarados. Arruma um carro com som e vai pra rua beber, farrar, raparigar. Homem pode trair, mulher não. Pode até ser escondido, mas se alguém descobrir, aí o bicho pega.” Na foto, um dos casais mais antigos da comunidade.

“Em família de brasileiros, as meninas namoram um e depois outro, aqui não tem isso não”, explica Rogério Almeida, no centro da foto. “Pode até separar depois de casar, mas a virgindade da mulher é garantida no primeiro casamento.”

Segundo a tradição, meninas ciganas se casam cedo, logo após menstruar, ocasião em que abandonam a escola. A idade média de casamento é 13 anos e 15 anos é a idade em que têm, em geral, seu primeiro filho, como Shanya, 15, na foto.

Quando se casa, a menina deixa de obedecer ao pai para submeter-se ao marido. Sua família não mais lhe pertence: agora, ela é parte da família dele e a mulher que a aconselha não é mais a mãe, mas a sogra. Fátima Almeida, 42 anos, é a sogra de Shanya, no fundo, e desempenha esse papel para ela. Shanya, por sua vez, fará isso com eventuais noras, mas não com a filhinha que segura nos braços.

O sonho de Karine Soares, de 10 anos, é “Casar e viver feliz para sempre”. Daqui a dois ou três anos, se seguirem a tradição, seus pais organizarão seu casamento e pagarão um dote ao noivo, entre R$ 30 e R$ 100 mil. Como os ciganos casam-se entre si para preservar sua cultura, é possível até que ela se case com algum dos meninos da foto.

Assim que se casa, toda mulher cigana deve dar filhos ao marido. Para Fátima, deveria ser sempre “de três pra arriba”.

Apesar de viverem em Boa Vista há 25 anos, comprarem na mesma feira, circularem na mesma praça e estudarem nas mesmas escolas, as mulheres ciganas ainda enfrentam muitos preconceitos. A maioria das pessoas acredita que são “ladras” e “sequestradoras de bebês” e se nega a dar-lhes emprego. Sem outra perspectiva de autossustento, resta a elas, apenas, o casamento precoce.

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* Nomes fictícios para proteger a identidade de menores que são, segundo a lei brasileira, vítimas de casamento infantil.


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