Foto: Flickr/the.mutator

O Divã de hoje é anônimo.

“A gente sempre lê como é importante ficar atento para não se envolver num relacionamento abusivo. “Fique de olho no seu parceiro” sempre dizem. ‘Cuidado, amor que é amor de verdade não magoa, não machuca’. ‘Ciúmes exagerados e agressão verbal são indícios’.

Mas e se não for um/uma parceirx? É abuso ainda? E se essa pessoa for a minha mãe? Como é possível, se ela tem o mesmo sangue que eu?

Minha mãe me teve ainda muito nova, com 19 anos. E fomos por muito tempo eu e ela, até que finalmente ela conheceu o meu pai e casou. Eu não só o considero como pai como ganhei o sobrenome dele.  Eles vivem um casamento saudável e tranquilo, e tenho mais três irmãos, filhos biológicos dos dois. Tudo muito bem. Minha mãe é uma pessoa maravilhosa, a amo e sou agradecida por tudo que passou e enfrentou.

Mas, como todo abusador, ela tem o pior defeito de todos: se as coisas não são como queria/esperava/desejava, ela parte pros ataques.

Nem sempre foi assim. Na verdade, os surtos começaram com a minha adolescência – a idade em que a gente começa a fazer as coisas pela própria cabeça. A partir do momento em que passei a me interessar por garotos e a passar mais tempo com as minhas amigas, a mãe companheira e confidente que eu conhecia até então sumiu misteriosamente.

Tem um episódio que me dói até hoje. Eu devia ter uns 13/14 anos. Saí de casa para jogar bola na rua com uns amigos. A maioria era de garotos com quem cresci e tenho como irmãos, exceto um, amigo da turminha por quem eu tinha uma quedinha, aqueles amores de adolescência. Ela foi me buscar e me deu uma baita de uma surra quando cheguei em casa.

Entre as cintadas, que me deixaram machucada por uma semana, ela me chamava de vadia, vagabunda e todas outras palavras do gênero. Perdoei, mas não esqueci. Afinal é minha mãe né?

Desde então, não importa quem seja o rapaz. Não importa de onde vem, a família que tenha, se é responsável, se estuda, tem um bom emprego, se é honesto, se gosta de mim ou me põe em um pedestal. Um por um, minha mãe detesta, reclama, humilha e até onde pôde, colocou obstáculos pra que eu não os visse. Mesmo na idade adulta.

Hoje tenho 24 anos, sou formada, trabalho, faço pós-graduação e pago as minhas contas. Tive a ‘ousadia’ de namorar um rapaz que – mais uma vez – ela não aprova. Estamos juntos há três anos. E, mesmo ela fazendo o que pode pra nos separar, ainda estamos juntos e somos felizes. Crime imperdoável. Agora, sou a burra, a vadia, a indecente. Tudo que ele faz, ou eu faço, é motivo para os gritos e ofensas. Afinal, quem eu penso que sou pra me relacionar com alguém?

Como todo relacionamento abusivo, percebi que precisava me afastar do meu abusador. Estou saindo de casa. É a única coisa que poderia fazer. Muito simples, não é? Claro, deixa só eu ouvir mais uma vez que sou uma vadia e que quero ir embora pra “brincar de casinha com o meu namorado” que vai me bater, ao mesmo tempo em que sou chamada de burra. Depois vou embora e tá tudo certo.”

 

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.


Também tem um desabafo para fazer ou uma história para contar? Então senta que o divã é seu! Envie seu relato para liane.thedim@azmina.com.br 

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