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Nesta minha estreia aqui n’AzMina resolvi compartilhar um pouco dos meus olhares e andanças por aí.

Quando esbarram comigo e dizem que ando aparecendo na mídia por conta de uma entrevista ou vídeo, costumo brincar dizendo que estou tão famosa que no BRT todos querem me cumprimentar. Uma sátira da experiência do transporte coletivo carioca, onde geralmente eu e tantas milhões de pessoas vamos apertadas compartilhando poucos metros quadrados. Hoje não foi diferente. Ou pelo menos eu achava que não ia ser…

Em pleno domingo de sol, o que geralmente é sinônimo de busão lotado, milagrosamente entrei e consegui um lugar para sentar próximo a um senhor bem alcoolizado que exercia naquele cenário o papel de comediante do coletivo. Percebi que ele fazia coro com outros 4 meninos negros sentados atrás de mim improvisando funks e zoando as pessoas que entravam.

Um rapaz loiro entrou e eles começaram: “Ô, Renato Russo dá uma palhinha aqui…hahaha”, berrou o senhorzinho, acompanhado pela “jovem guarda”. Um outro moço negro foi logo apelidado de Alexandre Pires: “tô fazendo amooooor com outra pessoa”, cantou o coro desafinado. Ao verem uma menina de óculos e cabelo preso chamaram de Chiquinha e começaram a cantar “que bonita a sua roupa” em ritmo de funk preenchendo trechos da música com muito “Tchutchatchutchutchutcha”. O próprio cantor principal se autointitulou Seu Madruga e disse que toda a turma do Chaves estava no ônibus também. Só ouvimos os demais do grupo falando “Alá o Sr Barriga”, “aquele ali tá mais para Professor Girafáles…”.

Reparei que o grupo zoado, de modo geral, estava rindo e eu também estava achando aquela situação bem cômica. Dizem por aí que é coisa de brasileiro fazer humor até nos momentos mais difíceis. Mas certo é que de certas coisas não tem como rir. Ao descer do BRT, do trajeto das gargalhadas, e entrar na fila para pegar um novo ônibus no terminal rodoviário, vejo dois jovens negros caminhando e que pararam atrás de mim na fila. Um deles com uma garrafa na mão. De repente, os dois foram abordados por dois homens, sem qualquer tipo de uniforme ou identificação. Eles revistaram os jovens dos pés à cabeça em meio de uma multidão inerte à espera dos seus ônibus vendo aquilo tudo. Tocaram nos shorts, mandaram tirar os tênis, cheiraram a garrafa.

Um rapaz que testemunhou a cena perguntou para um dos guardas do BRT quem eram aqueles homens e a resposta foi que eles eram P2. Mais tarde outro guarda nos disse que P2 são policiais militares à paisana. Perguntei se tinham direito de revistar dois jovens negros daquela forma truculenta e constrangedora, sobretudo por que eles acabaram seguindo no mesmo ônibus em que eu estava.

A resposta que recebi foi que certamente eles haviam feito algo errado, o que justificaria a revista

Estes dois jovens vieram no ônibus de cabeça baixa, sem olhar nos olhos das pessoas. Um deles de cabelos molhados disse estar vindo da praia e relatou que é revistado com muita frequência.

Chorei. Não contive minhas lágrimas por pensar e lutar para que construamos um país de oportunidades de educação e trabalho para estes jovens enquanto têm vida. E torcer para que não percam de vez a esperança.

Uma revista violenta em um domingo ensolarado pode não ser o pior a acontecer em um país onde um jovem negro é morto a cada 23 minutos

Uma famosa e corriqueira situação que ocorre no BRT e na vida do mirado e “com cara de suspeito” povo preto deste país. Não podemos deixar de lutar e de não sermos indiferentes a esta situação. E isso não tem graça.

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