*Esta é uma das investigações patrocinadas pelo Programa de Bolsas de Reportagem da Revista AzMina que você ajudou a tornar realidade. Leia a série completa aqui.

Djamila entrevista moradora das palafitas. Foto: Bete Nago

Minha mãe e meu pai sempre me falaram sobre a realidade das pessoas que viviam em palafitas desde que sou criança. Meu pai, militante comunista, quando foi candidato a vereador na década de 90, tinha essa pauta como uma agenda política importante. Minha mãe conhecia e tinha amigas que viviam lá. Por algumas vezes, fui à casa de algumas delas. Morávamos num bairro de classe média em Santos, mas eu, quarta e última filha, fui a única a viver lá a vida toda; quando nasci, meu pai havia conseguido comprar nosso apartamento, mas antes, haviam vivido em lugares precários.

Por isso, nunca se esqueciam.

Sempre me incomodou essa realidade, sentia angústia por ver que meus amigos nem sequer sabiam que as palafitas existiam ou julgavam ser uma realidade distante demais. Como santista, me intriga esse olhar que as pessoas têm de Santos como se fosse só praia.

Foi triste e ao mesmo tempo emocionante fazer essa reportagem. Poder humanizar as mulheres que lá vivem, ouvir suas histórias, saber quais são seus sonhos. Meu objetivo não foi só o de denunciar essa realidade, mas de tentar mostrar uma visão dessas pessoas para além das opressões: uma visão de sujeitos que compreendem suas realidades e se unem para mudá-las. A organização comunitária foi algo muito marcante em oposição à omissão do poder público.

Para além das dores, vi beleza nos olhos daquelas mulheres. Geralmente, quando se fala sobre realidades precárias, é sempre no sentido de sensacionalismo ou fetiche. Aqui, quis mostrar um outro lado, um lado de potência.

Da marginalização, sim, mas também de respeito àquelas mulheres que lutam diariamente para criar seus filhos, que sofrem pelo abandono, descaso, mas que resistem.

Desculpem-se se deixei escapar algo de muito pessoal em algumas das linhas. Porém, não sou apenas uma santista que se revolta com essa situação, mas a de filha de pessoas que me ensinaram a não esquecer de nossas raízes e por quem e o porquê a gente luta.

Fui muito bem recebida por todas as entrevistadas. Algumas, mais tímidas, foram se soltando aos poucos, mas uma coisa me marcou em todas elas: a necessidade de falar, de ser vista, ouvida.

Todas carregavam um silêncio histórico, institucional, o peso da ausência, da falta.

De alguma forma, ao falarem de si e de suas vidas, se preencheram com algo, mesmo que temporário. A necessidade da escuta qualificada é algo urgente. Vi mulheres que poderiam ser minha mãe, minha avó. Não teve como não me identificar com elas e me conectar.

Precisamos ouvir mais, deixar falar. Essa é uma das melhores formas de contribuir.

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