por Raquel Monteath e Samanta Dias, de Brasília

A esposa do ex-governador Sergio Cabral, Adriana Ancelmo, deixa a 7ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro após depoimento à Justiça Federal (Fernando Frazão/Agência Brasil)

Em torno de 15h do dia vinte de maio, Roberta Funaro chegou à sede da JBS. Estava com sua filha, uma menina aparentando ter dois ou três anos de idade. Após permanecer no prédio, encontrou-se com Ricardo Saud. Ela entra no carro, retira sua bolsa preta que estava no banco da frente e a coloca no chão do veículo. Em seguida, ela se acomoda com a criança no banco da frente e Ricardo passou a conduzir. No interior do veículo, Ricardo apanha o volume com dinheiro e sugere a sua conferência, o que ela dispensa. Em seguida Roberta apanha a maleta preta e desembarca do carro.

De acordo com um dos relatos da Polícia Federal, assim aconteceu o recebimento de uma maleta com R$ 400 mil em espécie por Roberta. A PF filmou este momento e encaminhou seu relato ao Supremo Tribunal Federal, para embasar o pedido de prisão preventiva de Roberta Funaro no dia 18 de maio. Ela é irmã do doleiro Lúcio Funaro, preso desde julho do ano passado, acusado de ser o operador do ex-deputado e ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Segundo a colaboração premiada de um dos donos da empresa JBS, Joesley Batista, era Lúcio quem recebia a mesada para que Cunha permanecesse calado e não fizesse colaboração premiada sobre esquemas de corrupção. A conclusão da Procuradoria-Geral da União, com base na documentação da PF, é de que após a prisão de Cunha e Lúcio, os repasses de dinheiro para a família Funaro continuaram sendo feitos por meio de seus irmãos, Dante e Roberta.

Assim como Cláudia Cruz, esposa de Eduardo Cunha, e Adriana Ancelmo, casada com o ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB-RJ), a imersão de Roberta em supostos esquemas de corrupção se deu através da atuação política de um homem pertencente a seu núcleo familiar – seja fraternal ou conjugal.

Olhando somente esses exemplos, seria possível concluir que a criminalidade feminina se dá dentro de uma lógica machista que rege as relações de poder em nossa sociedade. Mas vamos adiante.

 

Nas colaborações premiadas de empresários da JBS, homologadas e tornadas públicas pelo ministro do STF, Edson Fachin, outras mulheres são mencionadas, muitas delas, parlamentares. Não é novidade a diferença quantitativa da presença feminina no cenário político, ocupado majoritariamente por homens brancos, com ensino superior completo e heteronormativos. Considerando as eleições de 2014 e 2016, o Brasil ocupa a 115a posição no ranking mundial de presença feminina no Parlamento, segundo levantamento feito em um total de 138 países pelo Projeto Mulheres Inspiradoras, divulgado em março deste ano. Na atual configuração do Congresso, dos 81 senadores, 12 são mulheres e dos 513 deputados federais, 51 são mulheres. Então, quem são essas mulheres que teriam protagonizado, de maneira direta ou indireta, atos ilícitos?

Não são apenas as esposas ou familiares de homens acusados de protagonizar os escândalos. São também mulheres que conseguiram se candidatar,  receber apoio financeiro e logístico para suas campanhas e, enfim, serem eleitas. E mais do que isso: alcançaram projeção nacional e influência no meio político. A exemplo da ex-presidenta Dilma Rousseff, que já havia ocupado cargos como ministra da pasta de Minas e Energia e ministra-chefe da Casa Civil; a senadora Gleisi Hoffmann, também ex-ministra da Casa Civil; a senadora Marta Suplicy, ex-ministra da Cultura e ex-prefeita de São Paulo, e a deputada Alice Portugal, atual líder da bancada do PCdoB na Câmara e tantas outras trajetórias.

Terem sido eleitas é de uma enorme projeção. O pensamento a seguir seria: para chegarem nessas posições elas tiveram de participar do modo tradicional de operar a política, por isso o envolvimento nos escândalos? A Revista AzMina fez um levantamento das principais figuras femininas que foram citadas, até o momento, nas delações de Ricardo Saud, diretor de Relações Institucionais e de Governo da JBS, e dos irmãos Joesley e Wesley Batista, e o que foi dito sobre cada uma delas:

Andrea Neves foi a primeira a ganhar as manchetes do escândalo, com sua prisão preventiva pela Polícia Federal no dia seguinte à divulgação do material da JBS pelo jornal O Globo. Irmã do senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG), Andrea tem importante valor simbólico para a dinastia Neves, influente no estado de Minas Gerais desde a época de seu avô, o ex-presidente da República Tancredo Neves. A “Primeira Irmã da República das Gerais” é jornalista e esteve à frente do Grupo Técnico de Comunicação do Governo durante os oito anos do governo estadual de seu irmão. Foi ela a responsável por manejar verbas durante o governo de Aécio em Minas e de construir, junto à mídia, uma imagem imaculada do seu irmão. A influência na imprensa teria resultado, inclusive, em demissões de jornalistas contrários ao seu governo.

Segundo Joesley, ele conheceu Andrea em fevereiro de 2017, quando ela o procurou para pedir R$ 2 milhões, recebidos por um primo deles, Frederico Pacheco de Medeiros, que seriam destinados ao pagamento de advogados. Semanas depois, Andrea teria pedido a Joesley R$ 40 milhões para a compra de um apartamento no Rio de Janeiro, como forma de maquiar o repasse que ela havia solicitado também em nome de seu irmão. Segundo os delatores, os valores seriam referentes ao pagamento de propina, em 2014, em torno de R$ 63 milhões, ao senador Aécio Neves, em troca de atuação favorável aos interesses do grupo J&F, holding detentora da JBS, dentre eles a liberação de crédito do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços, o ICMS. Outros R$ 2 milhões foram pagos já em 2017, em razão da aprovação da Lei de Abuso de Autoridade e pela expectativa da aprovação da anistia ao caixa dois. A PGR pediu a abertura de investigação contra Andrea por corrupção passiva.

A ex-presidenta Dilma Rousseff também é citada nas delações dos irmãos Batista e de Saud, principalmente no tocante à chapa Dilma-Temer, por repasse de verbas nas eleições de 2010 e de 2014. Sobre esse aspecto, Saud ressalta que as negociações com o Partido dos Trabalhadores se davam por meio do ex-tesoureiro de campanha do PT e atual prefeito de Araraquara (SP), Edinho Silva (PT), que negociava a destinação de verbas de “doações dissimuladas”, ou seja, de dinheiro ilícito. Na gravação, Saud diz que “Temer participava de tudo e a Dilma ficava ‘um pouco distante'”.

Em suas delações, Joesley Batista e Ricardo Saud indicaram a destinação de U$ 30 milhões em uma conta no exterior em benefício de Dilma Rousseff por intermédio do ex-ministro da Fazenda de seu governo Guido Mantega em razão de esquema criminoso no BNDES e em fundos de pensão (Petros e Funcef) para beneficiar a JBS. Joesley indica, no entanto, que a conta estava em seu próprio nome e era movimentada por ele. O empresário afirma, ainda, que Guido Mantega teria confirmado que Dilma sabia da existência da conta. Na campanha de 2014, Joesley diz ter se encontrado com a presidenta Dilma e relatado todo o histórico das contas para ela. Ele afirma que, nesse encontro, Dilma demonstrou ter conhecimento do esquema envolvendo o BNDES que beneficiou a JBS e confirmou que R$ 30 milhões oriundos desse esquema deveriam ser repassado à campanha do candidato ao governo de Minas pelo PT, Fernando Pimentel.

No acordo de colaboração premiada, o Ministério Público Federal relata que os pagamentos haviam sido de US$ 50 milhões para Lula e US$ 30 milhões para Dilma. Mas, no depoimento, Joesley Batista, aponta cifras ainda mais altas: “Na fase do presidente Lula, chegou acho que em uns US$ 80 milhões e depois, na Dilma, chegou em uns US$ 70. Ou o contrário, 70 na do Lula e 80 na da Dilma”. Os valores foram pagos, conforme o delator, em uma conta no exterior. Em 2014, a conta teria um saldo de cerca de US$ 150 milhões.

O repasse de propinas a partidos é o ponto em comum a todas as outras mulheres que foram citadas nas investigações até então. Quatro senadoras também tiveram os nomes citados: Marta Suplicy (PMDB-SP), Gleisi Hoffmann (PT-PR), Fátima Bezerra (PT-RN) e Ângela Portela (PDT-RR).

Segundo Joesley Batista, houve destinação de R$ 1 milhão para a campanha eleitoral de Marta em 2010, metade em doação oficial e a outra metade “em dinheiro”. Outros R$ 3 milhões teriam sido repassados em troca de possíveis negócios, caso ela fosse eleita prefeita de São Paulo, em 2014. Em nota, Marta Suplicy diz que diante da delação “há verdades e mentiras”. “Confirmo a doação oficial, e única, feita para minha campanha ao Senado, que presumo tenha saído da contabilidade regular da empresa dele, porque ele sabia que esse dinheiro seria declarado ao TSE, como efetivamente foi. Desminto, enfaticamente, qualquer outra doação. É absurda a afirmação de que suas empresas tivessem me doado qualquer valor mensal para a campanha à prefeitura de São Paulo em 2016”. Ela finaliza dizendo que tomará as providências cabíveis para esclarecer legalmente as afirmações que considera falsas.

A senadora Ângela Portela, que trocou o PT pelo PDT em abril deste ano, também é citada na delação de Joesley e teria recebido R$ 1 milhão. Primeiro, ele diz que liberou o dinheiro quando ela era candidata ao Senado, em 2010, mas, em seguida, diz que foi para a eleição de 2014, ano em que ela concorreu ao governo de Roraima. A assessoria da senadora afirmou que as informações não são verdadeiras e que todas as doações foram feitas por vias legais.

Segundo acusações, a senadora Fátima Bezerra declarou gastos de cerca de R$ 3,4 milhões em 2014, dos quais R$ 1,165 milhão teriam vindo dos cofres da empresa dos irmãos Batista. Em nota, ela reafirma que não fez contato e que sequer conhece os proprietários do grupo JBS. “Quem recebeu da empresa foi o PSD e não nossa campanha (…) Há uma confusão, não sabemos se por desconhecimento ou se de forma proposital, acerca das doações privadas das campanhas passadas no Rio Grande do Norte e no país. A população precisa ser informada sim, mais do que nunca! Mas é necessário responsabilidade com a verdade. Eu jamais esconderia o nome de qualquer empresário que contribuísse com o financiamento de minhas campanhas, até porque eu faço política com honradez, não a utilizo como moeda de troca”.

Em declaração de Saud, a empresa teria repassado R$ 5 milhões em propina para a campanha da senadora Gleisi Hoffmann (PT/PR) quando candidata à governadora, em 2014. Em nota, a senadora afirmou que “todas as doações recebidas na campanha eleitoral da senadora Gleisi Hoffmann em 2014 foram devidamente registradas em sua prestação de contas eleitoral e observaram todas as normas pertinentes”. Apenas as senadoras Marta Suplicy e Gleisi Hoffmann são alvos de inquéritos anteriores junto à PGR. No caso das outras senadoras citadas, ainda não houve qualquer pedido de abertura de inquérito contra elas envolvendo as citações em delações de empresários da JBS.

Na Câmara dos Deputados, a deputada federal Alice Portugal (PCdoB-BA) afirmou que recebeu a doação legal de R$ 400 mil do partido, assim como outros candidatos da legenda. “Eu sei que a direção nacional fez até um agradecimento público na época, foi uma doação legal com toda a estrutura e rigor da lei. Não tive qualquer tipo de contato com a JBS”, afirma em nota. Já a Professora Marlei (PT-PR), candidata não eleita em 2014, teria recebido R$ 95 mil para sua campanha. Ela não está em exercício no momento e não se pronunciou até agora sobre o assunto.

No âmbito estadual, até o momento aparece apenas a deputada gaúcha Larissa Rosado (PSB), que teria recebido R$ 200 mil para sua campanha de 2014. Em nota, a parlamentar diz que a doação foi realizada ao Diretório do PMDB, que contribuiu com as candidaturas da coligação formada, entre outros, pelo PSB, partido ao qual se filiou em 2005. “Isso, de maneira lícita, transparente e com a aprovação dos auditores e juízes do Tribunal Regional Eleitoral”. Da mesma forma que as senadoras, ainda não houve por parte da PGR ou do Ministério Público Estadual pedido de abertura de inquérito contra elas em decorrência das delações da JBS.

No último dia 25, Cláudia Cruz foi absolvida da acusação dos crimes de lavagem de dinheiro e de evasão fraudulenta de divisas em ação relacionada à Operação Lava Jato. Já Adriana Ancelmo cumpre prisão domiciliar após polêmica envolvendo o Marco Legal da Primeira Infância, lei que permite que presas provisórias cumpram a pena em casa caso estejam grávidas, tenham filhos de até 12 anos ou sejam ré primária. Adriana, esposa do ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral, tem filhos de 11 e 14 anos. Ela é acusada por corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa na Lava Jato, assim como seu marido. O Ministério Público Federal recorreu da decisão.

O advogado de Roberta Funaro, que também defende seu irmão Lúcio Funaro, afirma que o dinheiro que ela recebeu era proveniente de contratos legais que Lúcio tinha com a empresa J&F para mediação de conflitos societários com a família Bertin. A defesa também argumenta que a prisão de Roberta foi ilegal por ela ser provedora de uma criança menor de seis anos e pediu ao STF a liberdade dela com base nisso.

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