Foto: J Stimp

Toda sexta-feira a Revista AzMina publica um capítulo do romance de folhetim “Nascem Flores no Asfalto”, de Mariana Lozzi. Leia os outros capítulos aqui.

A moça tinha olhos chamados a pássaro. Deixava vazar divertimento dos lábios, a risada parecia um choro cantado, ria sem motivo, como se os papéis de parede da saleta escura fizessem cócegas em seus olhos. Era tão linda que ter com ela me enchia de contrariedades. Punha-me apoquentada, nervosa na garganta, doida de vontade de acusar engodo no rosto harmonioso, fazê-la envergonhada por vestir uma máscara de dentes brancos e olhos em clarabóia, abertos sem pudor enquanto as gentes todas lá fora conservavam as bocas em vazies de câimbra e os olhos baixos, chamados aos desníveis do chão. Dizia a mim mesma que não importava que os meus dentes também luzissem branquidão, que estivessem alinhados dentro da gaveta da boca como parafusos de marfim cravados em um corpo de cimento e a minha tez fosse opaca, que dela o suor não escorresse.

Ao evitar olhar os olhos de Olívia, minhas vistas eram chamadas aos arredores, drenadas para a casa dentro da qual ela ria sem motivo e onde eu só pude estar porque forcei meu corpo para além das bromélias plantadas no portão de entrada, erguidas diante das fuças das gentes com as pétalas em veludo pontiagudo, espicaçadas em vermelho e resguardadas contra dedos intrusos. A megalomania dos tapetes e dos quadros, dos televisores engolidores de paredes e a claridade que vazava dos cômodos revestidos em madeira me convidavam a rememorar a voz da minha mãe, que certamente se poria horrorizada caso tomasse conhecimento da minha falta de prumo meio a tanta finesse. Com dedos erguidos na minha direção, ela acusaria o contraste entre a figura pardacenta que percorria os corredores com ultrajante languidez e o corpo luminoso da casa dentro da qual Olívia cantava risada. Sem perceber, eu pescava com os olhos o solado dos meus sapatos, certamente sujos de terra, ou escorria as mãos pelos cabelos em uma mímica nervosa, a fim de domar o desalinho dos fios. Estar ali era um eterno desculpar-se por ser a si e não a eles.

Através da fresta da porta, duas crianças me examinavam. Tinham os olhos fixos em mim, queriam me comunicar coisas, mas não ousavam atravessar o portal de madeira que separava o escritório do corredor, onde elas se agachavam, crentes que o gesto era o bastante para segredar sua presença dos olhos altivos da casa, acreditadas que, em um mundo tomado por gigantes, as pequenas gentes se tornavam invisíveis aos olhos comuns. Leozinho, esbaforido para experimentar os desníveis da sala com dedos gulosos, agitava as pernas gordas no meu colo e me chutava a virilha, determinado a se catapultar em direção aos tapetes persas e seguir desimpedido em uma aventura quadrúpede. Quando avistou as duas miúdas de cócoras no corredor, meu filho silenciou de súbito e relinchou de alegria. Ele lançava urros e guinchos às duas garotas, erguia os braços em um clamor torturado, queria tocar-lhes os rostos, os cabelos, enroscar os braços ao redor dos pescoços delas, cutucar-lhes os olhos, maltratar-lhes as orelhas, gritar de amor descompensado. Pela primeira vez eu me dava conta que, até aquele dia, o meu filho não sabia o que era uma criança.

São suas filhas?

Sim, mas estão invisíveis, não podemos perturbar-lhes o disfarce. Eu mesma as ensinei a curtir sumiço diante das vistas das gentes, disse que precisariam desaparecer tanto quando deveriam ser vistas. Juro que não me incomodo em me transmutar em cadeira ou abajur quando a conversaria nos arredores me maltrata os ouvidos, desde que não sentem as bundas sobre as minhas costas ou puxem as minhas orelhas para fazer jorrar luz dos olhos e da boca, isso não! Dia desses Fernando armou carranca para cima de mim e se cobriu de ares de professor, começou a juramentar umas verdades embatumadas diante das minhas fuças, parece até que tinha gana de cobrir meu cotoco de petelecos, as têmporas estavam estouvadas como nunca vi. Dizia-me para tomar tento, dava ordens que eu colocasse os sapatos nos pés assim que saísse do banho, que não deixasse as raízes do cabelo pretejar, que não zanzasse pela casa com as cerejas dos peitos espevitadas, a roçar no tecido das camisetas e, principalmente, que não inventasse de torrar a pele no sol ao lado de Moço tardes adentro, metida com bichezas e sujidades. Ele não se apeteceu do meu descaso, nem do meu descanso, e nesse dia se pôs vermelhusco nas fuças. Acho que sentia saudade de me judiar o couro, que queria mesmo era me beliscar a pele debaixo da roupa até espalhar galáxias sobre os meus peitos e barriga, expandidas no moloso de um infinito latejante. Antes que Fernando levantasse a mão para mim, porém, fui alumiada por uma ideia divino-portentosa e me fiz geladeira. Enrijeci o abdômen, colei os braços ao lado do corpo, congelei os olhos no susto frio do plástico e formei com a boquinha um Oóó macarrônico. Então disparei a falar a língua dos utensílios do lar, versada que sou no idioma das pequenas máquinas. Fazia sons trócicos, era cada zunido tão maravilhoso e fielmente geladeiresco que tive medo de não conseguir voltar a ser Olívia. Metamorfoseada em geringonça, passaria o resto da vida a refrigerar azeitonas. Você já virou geladeira?

Lis.

Quem?

Olívia?

Eu?

Arrastei a mim e ao meu filho até aqui para avisar que espalham palavra sua pela cidade. As gentes lá fora dizem que está avariada das ideias e que curte troça com os jornalistas que a aporrinham com as bocarras de câmeras, esperançados de bater fotos suas de frente para as janelas da casa com as vergonhas de fora, a balançar diante dos reflexos do vidro azulzado. Também dizem que você gesticula obscenidades com as mãos quando as gentes da televisão pedem que adiante segredos da campanha para governador do senhor seu marido, convencidos que você seria capaz de revelar esquemas dos mais escabrosos no reboliço azeitonado da língua. Mas vou dizer que acho de uma justeza muito bonita isso de você tirar sarro igualitário das gentes, acho mesmo. Assim, não perde chance de escamotear os jornalistas que deixam de lado os assuntos que dizem respeito ao Fernando e te procuram movidos pela urgência de saber quais são os jeitos corretos de descascar uma lichia, ou aflitos para que desacortine os quitutes que come no acaso de uma refeição.

Uma vez eu jantei a casca de uma lichia. Ela me feriu a língua.

Olívia, preciso ter contigo antes que criem coragem de me varrer para fora da casa, então trate de limpar as tintas coloridas que te embaçam as vistas e ouça o que te alumino. Não gosto disso, parece que me olha com cara de geladeira, largue de fazer zunido de máquina e aprume o pensamento, anda! Melhor assim. Espalham palavra que tomou gosto por ofender o marido seu e que por isso se fez candidata a desaparecimento certo. Mulheres com ouvidos muito atentos se puseram convencidas que hora ou outra é bem capaz que os amigos do senhor senador cerceiem a megalomania da boca sua com o arranco de um freio dos mais sinistros. Não tem medo de desaparecer no sopro de uma madrugada? No burburinho de uma onda rasa? De, depois que a luz lavar os escuros do silêncio, ninguém consiga acusar o seu caminhar entre as gentes?

Tenho medo é de morrer antes de entender um poema que diz assim: É crua a vida. Alça de tripa e metal.

Deixe de gaiatice e escute isso que te segredo. Conhece as gentes com que seu marido se mete? Ou melhor, conhece aquele com quem mete? Quer curtir sumiço? Deixar os filhos à deriva de amor de mãe?

Você fala como o doutor que veio ter comigo e me cobriu de escuros no peito.

Olívia?

Ela.

Lembra-se do dia em que perdeu os dedos do pé?

Lembro de andar sobre caspas caídas da cabeça de Deus e encontrar o coruscante de mil sóis explodidos no susto de um só dilúvio. As caspas de Deus encontravam o meu corpo em um beijo tépido, reconheciam os caminhos dos meus pés, beijavam-me a face em mornidão. Eu era toda escuta.

Lembra-se da mulher que fez chover o vidro?

A dançarina. Ela dançou com Deus. Subiu sobre os pés Dele e o desafiou em uma valsa demente, explodia estrelas com o cabo da vassoura. O universo era percorrido por violenta câimbra quando ela desacortinava os véus que cobriam o corpo de Deus e o provava criança, trancafiado em um quarto escuro a brincar sozinho com as realidades que inventava no reboliço dos braços magros e delas logo se fartava, magoado pela custosa orfandade com que perfurava os veios do tempo. Quando dançou, a mulher de olhos ciganos acusou o nosso Deus-Menino de punhetar mísseis sobre as cabeças dos homens. Ela O sacudia pelos ombros e caspas caíam da cabeça Dele. Nelas, cortei os meus pés.

Vão tirá-la de casa.

É o quê?

Estão prontos para separá-la dos seus filhos e confiá-la dentro dos muros de um lugar sem bromélias nem amoras, feito de corredores brancos ao longo dos quais mulheres vagam entorpecidas dentro de pijamas, em um sono vigiado. Já esteve em um Lar de Tratamento para Mulheres Arredias?

Uma vez, sim. Eu segurei as mãos de uma estranha entre as minhas e ela me disse que as águas da cidade estavam contaminadas por venenos invisíveis, que faltava pouco para nos acreditarmos peixes e nos lançarmos no mar.

Gostou do que viu?

Aquele lugar me arranhou as retinas. Assim que a imprensa noticiou a minha visitação ao Lar como parte da campanha para a candidatura de Fernando, imagino que os funcionários saracotearam pelos corredores na aflição de galinhas neurastênicas, doidos para encobertar as disfunções das mulheres e ensiná-las melhor etiqueta, como se fino fosse aspirar sorriso e calar ofensa. Imagino que deram ordem para que passassem panos úmidos sobre o chão, espalhassem argamassa sobre as rachaduras mais farelentas, abrissem as janelas para a luz entrar e espanassem das paredes e do teto as teias de aranha mais bojudas. Estar metida ali, naquele antro de choros e queixumes, maltratava-me em muito, mais do até que pensar nos cortes espalhados pelos braços da minha mãe, ou no agudo dificultoso que foi expulsar do corpo os filhos. As mulheres metidas dentro das camisolas me olhavam com olhos muito acesos, algumas sorriam, outras se esquivavam e abraçavam a si mesmas. Muitas me pediam que as levasse comigo, diziam que a derrocada delas ali era de um desmerecimento completo, que haviam se arrependido dos crimes que cometeram e nunca mais entristeceriam por tão longos dias, nem cairiam de mãos anêmicas, inventariam de falar parvoíces na mesa do jantar ou fariam pouco do amor dos maridos e do cuidado para com os filhos. Uma delas uivava na minha direção e me nomeava assim: Lua. O alarido dela me fazia poderosa para além dos mandos dos homens que decidiam os giros do mundo dentro de ternos quadráticos. Era como se o avanço e recuo das marés dependessem somente da desenvoltura das flores e ou da fome das pragas que atravessavam a varanda do meu peito e me cobriam de aluamento estrelado. Largue de me olhar assim, Ana, não me ache feia por não ter uivado de volta para a moça que me coroou luar. Saiba que eu queria mais do que tudo beijar-lhe a face e dizer toda sorte de coisas bonitas, mas fiquei incapaz de olhar aquelas mulheres nos olhos, tive foi medo de gritar mais alto que todas elas e perder dureza, quedar liquefeita, como o vidro que caiu do céu no dia em que caminhei sobre as caspas de Deus.

Não se apoquente. Palpito que não vai te faltar tempo para olhar aquelas mulheres nos olhos uma vez que te mandarem para um desses antros de coitadas. Eu tenho ouvidos apurados para os porvires, Olívia, as gentes todas assuntam que o seu lugar é em um dos Lares de Tratamento de Mulheres Arredias.

É nada.

Pois eu conheço uma mulher que foi entregue nos portões do Lar pela Carrocinha de Gentes e só saiu de lá anos mais tarde, com os olhos rentes ao chão, acreditada que o devido era olhar as pessoas de baixo, para que elas a vissem de cima. Quer ouvir essa história?

Quero não.

Vou contar mesmo assim. O nome dessa mulher é Chica.

Gosto.

Não me interrompa. Ainda na meninice, Chica caiu de amores por um rapaz e fez filho com ele, mas ele não queria ter com ela, que havia nascido em uma esteira no chão de um barraco e a infância inteira brincava de procurar botões de costura embaixo dos parcos móveis da casa, para que a mãe não tivesse que se levantar a muito custo, pois tinhas pernas elefânticas percorridas por veias gordas pipocadas de feridas escuras. O rapaz dos olhos da Chica morava em uma casa de vidro dentro de uma rua como essa, na qual o asfalto se estendia em lisura de fita e portões altos e emperiquitados por flores protegiam os moradores de visitas malquistas, como pedintes e mulheres com bebês dependurados nos quadris ou segredados dentro das barrigas. Esse rapaz que espirrou filho dentro da Chica – assim que soube que ela o buscava com braços gulosos, no desvario coxo dos apaixonados – espalhou palavra que ela farçava o envolvimento dos dois porque estava avariada no juízo e queria estirar o corpo sobre os móveis macios da família e observar o fino viver das gentes através das muitas janelas de que era feita a casa. Como aquela vizinhança não era dada a assumir parentesco com mulheres de pele escura, logo encontram um jeito de dar razão ao rapaz e dizer que a tal da Chica o perseguia porque tinha vocação para sofredora. Entregavam-se a uma zombaria que principiou em sutileza, mas endossou no desenrolar dos dias. Logo as gentes todas se renderam a uma troça confessa para com a garota, porque ela era tida como abusada das vontades – levava consigo uma cadeira sobre a qual se sentava na espionagem da casa de vidro e devolvia aos cães da rua os latidos com que eles a apoquentavam. Só a Chica conhecia a verdade da semente de milho que o rapaz metido na torre de vidro havia lançado dentro dela e que estourou em flor de pipoca.

É mesmo muito bonito isso de estourar pipoca.

Shhhh. As visitações da Chica acabaram por aporrinhar em definitivo as gentes da vizinhança, que não queriam estar com ela e fechavam as cortinas ao seu mero aproximar, para que ela não criasse hábito de mendigar cuidados para eles, como fazia com o rapaz na casa de vidro. Chegou o dia, porém, em que a Chica se fartou do silencio debochado que a acompanhava naquelas bandas e curtiu curto-circuito na paciência, enfim buliu revolta contra a crueza daquelas gentes.

Ela rivalizou com os pés de Deus no desatino de uma valsa, como no dia em que a mulher com olhos de faróis ciganos esmigalhou estrelas no cabo da vassoura?

Isso! A Chica tirou a roupa em frente à casa de vidro e trabalhou o corpo na estranheza de uma dança muito parecida com aquela que te custou os dedos dos pés. Girou de braços abertos até assustar as famílias em definitivo, que não se apeteciam de rivalizar os pés num encontro com a loucura. A Carrocinha de Gentes não tardou a lançar sobre a rua o grito uno de uma sirene e foi logo ter com o desvario da Chica. Rebocaram-na daquela rua de gentes direitas e a levaram para um Lar de Tratamento de Mulheres Arredias, o menorzinho de todos, com um telhado que vazava chuva e fazia lago sobre cabeças, colchões e pratos de sopa.

Dizem que tem uma goteira dentro dos meus pensamentos, que ela faz umidade e embolora as ideias corretas.

É possível. Pois bem, a flor de pipoca no ventre da Chica adoeceu de tanto desgosto. Decidida e entristecer, ela parou de mastigar o pão que a davam de comer todas as manhãs e diminuiu dentro das roupas até que uma febre de alabastro a invadiu e perigou intimar a pele dela a gritar vapor na quentura do sangue espesso. Quando as gentes no Lar de Mulheres Arredias se aperceberam que estava perigada de morte, fizeram esforcinho para mantê-la com eles, dentro da plataforma onde se acotovelam os vivos. A flor de pipoca, porém, não cessou de murchar e escapuliu por entre as pernas da Chica.

Credo em cruz.

Quer ouvir outra história?

Quero não. Você conta umas histórias muito tristes.

A história é assim: Uma mulher enfia um cano enferrujado na boceta para desfazer barriga. Ela é presa e, dentro de um lugar de paisagens horroríficas, encontra a mulher que ficou tão triste, mas tão triste que chorou os sucos do corpo por entre as duas pernas.

Por que a mulher que ficou triste está no lugar de paisagens horroríficas, e não no Lar de Tratamento para Mulheres Arredias, como se é devido em caso de cândido enlouquecimento?

Porque ela dançou até caírem caspas da cabeça de Deus.