Foto: Daska

Toda sexta-feira a Revista AzMina publica um capítulo do romance de folhetim “Nascem Flores no Asfalto”, de Mariana Lozzi. Leia os outros capítulos aqui.

Dorinha, passa pra dentro!

A voz de dona Fafinha era um esculacho nos ouvidos da casa. Ela fazia de tudo para esbravejar com os outros funcionários pelos motivos mais bestas. A pose preferida dela era assim: as mãos enganchadas nas beiras dos quadris carnudos, prostrada no centro da cozinha. Acusava falha no cozimento das carnes, na limpeza dos talheres e nos modos da moça-faxineira, que passava o dia encurvada sobre o esfregão e arrastava consigo baldes com panos em farrapos e águas tão cheirosas que faziam o nariz da gente coçar. Aquilo me deixava triste no corpo inteiro, porque a moça-faxineira era boazinha demais e as inticâncias de dona Fafinha para com ela pareciam em muito o jeito como Fernandinho me beliscava os braços até fazer vermelho na pele, ou enfiava dedos lambidos nos buracos das minhas orelhas quando eu sentava no tapete da sala para assistir televisão.

Dona Fafinha fazia pouco da minha sanha de proteger a moça dos panos. Dava testemunho que ela era abusada das vontades e que merecia um safanão corretivo, porque fazia troça com a cara dela e com as dos patrões, principalmente com a de mamãe, que se recuperava do susto de ter andado sobre o vidro e estava tão aquém das disfunções da casa que nem desconfiava que os funcionários tiravam proveito do seu alheamento e desrespeitavam a sua sabida autoridade.

Se a moça-faxineira dirigia maleducâncias à dona Fafinha eu não sabia, mas, se o fazia, era no chiste abafadiço de um murmurar tão mordaça, tão suspirar de passarinho que a gente nem se atentava para esses desacatos. Mas dona Fafinha não perdoava desacato – ela era estudada em revolta de mordaça, ascultava e entendia de tudo, do dito e do não dito. Contava-nos que tinha ouvidos notivos, como os dos morcegos, e gostava mesmo de acusar sandices, de expurgar a casa das nossas pegadas melentas e das disfunções em que Fernandinho e Lena a punham sempre que inventavam de trotar insano com pés de barro nos tapetes de mamãe.

Diziam que Lena tinha gênio ruim e que Fernandinho era assertivo como o pai. Eu sabia que gênio ruim era só um jeito espetaculoso de dizer que Lena era endemoniada das vontades, mas isso que se assuntava sobre Fernandinho – sobre ele ser assertivo como o pai – vinha sempre acompanhado de alegre contrariedade, de um meio-sorriso guloso, como quando a boca da gente é invadida pelo azedo de uma acerola e fazemos careta, mas, antes de nos darmos conta, tratamos de estender o braço em direção ao pomar e chacoalhar os dedos à procura da próxima acerola. Às vezes eu fantasiava que, quando crescesse e me inteirasse das coisas todas que se passavam na rua nossa, as gentes da casa passariam a gostar tanto de mim quanto gostavam de Fernandinho, e diriam que eu era assertiva como o pai, com um sorriso de acerola.

O Tomaz, coitado, ainda era pequeno e burrinho, não conseguia fazer muito além de chorar e reclamar cólicas, mas nem a isso ele se prestava, porque gostava mesmo é de esticar cochilos no berço e se dependurar no pescoço de mamãe tão logo ouvia sua voz, guloso de amores por ela. Fernandinho e Lena não. Eles judiavam da paciência de dona Fafinha, gostavam mesmo é do mal feito, faziam de tudo para aporrinhar os seus humores, mas ela sempre perdoava ofensa e, no dia seguinte, invocava de tascar beijos estralados nas nossas bochechas e cangotes, desmemoriada de tudo.

No dia em que a moça de cabelos curtos fez aparição na casa nossa e deu ordem de ver mamãe, dona Fafinha quase subiu pelas paredes. A moça desceu a rua esbaforida, levava consigo um miúdo dependurado nos braços que se divertia ao lançar gritinhos para o ar, como Tomazinho dava de fazer depois do banho, acreditado que ele era fluente no bom português e nós fazíamos troça das suas alumiações.

A falta de tino da moça prostrada diante da porta nossa era coisa do calamitoso, porque não estávamos acostumados com visitas de mulheres com bebês no colo, ainda mais se eram abusada das vontades e davam ordens de ver mamãe antes mesmo de elogiar as bromélias que Moço havia plantado na entrada da casa, ao lado das trepadeiras pelas quais dona Fafinha curtia profundo desgosto. “Trepadeira, isso lá é nome para se dar às flores? Parece que ficam de troça comigo, uns inticantes, isso sim”, ela esbravejava toda vez que abria as cortinas da sala maior e dava de cara com os cachos verdejantes emperiquitados na cerca.

Quando a voz da moça de cabelo curto ecoou pelos azulejos da cozinha, fui invadida por uma vontade aguda de ter com mamãe. Dei de zanzar pela casa despertencida, à procura de um lastro qualquer da sua presença, como os suspiros custosos que ela deixava escapar pelo nariz quando deitava na cama com os sapatos ainda nos pés ou o gorgolejo feroz que era a sua risada quando ia até o jardim descalça, para comer amoras e ter com Moço. Encontrei Lena de cócoras em frente à porta do escritório de papai, fechada por decreto.

Papai repetia à dona Fafinha que éramos dados a descontroles e, caso criássemos costume de entrar no escritório, era bem certo que faríamos porquices com os documentos confiados às gavetas de ébano e colaríamos melecas entre as páginas dos livros bojudos. Dona Fafinha professava que ele estava coberto de razão quando dizia que eu, Lena e Fernandinho éramos uns destrambelhados porque, na última vez em que esqueceram de passar a chave na porta, nós três desbravamos os escuros do escritório com passos soturnos. A minha sanha de ter com os livros foi tanta que paniquei de alegria e fiz xixi no carpete. Sentei sobre a mancha de umidade e não arredei a bunda do chão, pungida de vergonha. Fernando e Lena, corajosos como só eles, nem se prestaram a fazer devida troça do meu descontrole bexigal. Estavam impacientes para encontrar as maravilhanças escondidas do outro lado da porta lacrada, alegrias que foram segredadas durante uma vida inteira só para se revelarem nos momentos de bravura insana, porque acreditávamos que os tesouros tinham um pouco do Inominável.

Depois que vasculharam o cômodo sem encontrar sinal de divertimento nos fundos das gavetas ou debaixo dos abajures, meus irmãos se puseram a tatear o labirinto de livros. Buscavam histórias de aventuras. Nem precisavam ter mapas para tesouros escondidos entre uma página e outra, contanto que fossem mais divertidas do que os versinhos tristes que mamãe garimpava como muito custo na prateleira mais alta e lia debaixo da amoreira, ou mais ilustradas que os mesmos três livros que não deixavam a cabeceira de papai e cujas primeiras páginas ele folheava todos os dias pouco antes de pegar no sono.

Lena, sai daí que se a dona Fafinha souber que cê está de mexerico para com os assuntos de mamãe ela coloca nós duas para dentro do quarto até a hora da janta.

Deixa de ser besta, pois se ela me colocar para dentro do quarto eu espero papai chegar do trabalho pianinha, então digo a ele que dona Fafinha judia da gente, que bate no miolo das nossas mãos com colheres de pau e que nos coloca para fazer serviço de casa depois da escola, como a filha da cozinheira, que é só um ano mais velha que eu e passa as tardes com os braços enfiados em luvas de sabão, encurvada diante da louça suja, o nariz cataplásimico num escorrer sem fim.

Cê faz isso não, Lena, que dona Fafinha não merece.

Faço mesmo não, mas se digo que faço tudo sossega para o nosso lado, porque dona Fafinha se treme toda só de pensar em ter com papai. Além do mais, as gentes da casa estão saracoteando pelos cômodos em arranca-rabos sem fim, mais aflitos que vira-latas em dia de tempestade. Estão é doidos de vontade de saber quais assuntos o doutor veio tratar com mamãe, mas não têm raça para bisbilhotar, como se é devido. Vão ficar gaiatos de contentes quando eu der notícia da conversa, até Fernandinho vai querer saber do que se trata, mas para ele eu não conto não, aquele embuste.

Que doutor é esse?

Ué, Dorinha, chegou um doutor aqui, viu não? Todo grisalho e responsudo, com bigodes lustrosos e sobrancelhas em chumaços de algodão, tão feiosinho que parece até que veio d’outra época, como se o tivessem tirado de dentro de livros de história, onde ele vivia com muita pompa e assinava tratados chatérrimos que atazanavam o povo todo, tanto que ficou famoso para além da vida. Daí uma trolhada de anos se passaram e, hoje em dia, crianças do mundo inteiro são obrigadas a sentar de pés juntos e costas eretas em cadeiras dentro das escolas para encarar a fuça desse senhor e de outros senhores igualmente javalescos até que decorem seus nomes e se fartem dos seus bigodes.

E foi?

Não, né, bestinha, eu tô farçando invenção. Mas ele parece menos homem que javali, se me perguntar. Já Fernandinho é da opinião que o doutor é todo leão-marinho, mesmo que criança nenhuma nessa cidade tenha visto um, porque é sabido que eles só gostam das gentes no além-mar. O bronco do Fernandinho acredita em tudo que vê nos desenhos animados, chega dá desânimo, uma parvoíce dessas. Sabe, Dorinha, eu até gostava dessas bestagens que passam na televisão quando era miúda que nem você, mas hoje acho de um mau gosto pavoroso isso de os adultos serem cismados de inventar histórias de faz de conta e desenhar os bichos em parecença com os homens quando, na verdade, são os homens que curtem parecença com os bichos. Então disse ao Fernandinho que ele era profundamente besta.

E ele?

Deu com o berreiro e ficou todo vermelhusco nas fuças, do jeito pimentoso que ele se põe quando dona Fafinha dá mando nele. Gostou em nada de ser avisado da própria bestagem, desfez minha trança e puxou os cabelos até judiar o couro, vê só?

O que é profundamente, Lena?

É um negócio que vem lá do fundo, tão fundo que chega para a gente todo emperiquitado de escuros.

Então profundamente besta é quando a bestagem da pessoa vem lá do fundo dela?

Isso.

E pessoa tem fundo, Lena?

Capaz.

Fundo é igual a bunda?

Ai, Dorinha, eu sei lá, cê cisma com umas coisas que cruz credo. Dona Fafinha me segredou mais cedo que o doutor veio a pedido de papai e que quer ter com mamãe a sós, por isso fecharam a porta do escritório. Até agora consegui entender coisa nenhuma dessa conversa dos dois, ele faz perguntas com a voz engrolada, parece até um boi a reclamar dores.

Ele não era javali?

Sei lá, o fato é que dá pra entender bulhufas da conversação dos dois. Mamãe também não facilita a minha espia, porque a voz dela é que nem o canto do vento em contas de cristal, coisa mais linda. Mas as frases que ela monta são de um embaçamento total dos sentidos, até o doutor se põe a mugir mais alto quando ela inventa palavreado. Nunca vi tanta vontade de fazer troça com as fuças das gentes, eu hein.

O que mamãe diz?

Ah, cê sabe, ela responde as perguntas do doutor com esses absurdos próprios dela, uma asnice atrás da outra. Capaz de o doutor acreditar que o juízo dela debandou de vez e dar ordem de rebocá-la de dentro da casa nossa. Quem me segredou isso foi a moça encurvada, sabe, aquela que leva consigo baldes com águas cheirosas e que curte mágoa de dona Fafinha por lhe espezinhar os humores?

Lena, o doutor quer levar mamãe para o hospital que nem no dia em que teve confusão na escola e ela cortou os pés no vidro?

Esse aí não é médico de dedos, Dorinha, é um tipo outro de doutor. Ele é estudado nas coisas que vivem dentro da cabeça nossa e só visita a casa da gente quando encontra pensamento torto, carecido de conserto.

É nada, cê tá de troça comigo.

Deixa de ser besta e escuta. É como se existissem dedos dentro da cabeça nossa, só que não podemos enxergá-los. Quando estão bem de saúde, os dedos nossos sapeiam por entre um punhado de ideias de todas as sortes, mas só escolhem as corretas. Eles deixam as ideias tortas de lado, porque elas andam de bando, basta escolher uma para as outras despontarem, certas que nem trovoada em céu escuro. Assim, os dedos invisíveis cuidam para que só falemos coisas corretas. Mas, se eles estiverem quebrados, começam a vir com parvoíce para cima da mente nossa e escolhem as ideias piores de todas, então ficamos capazes de dizer as coisas piores do mundo. Viramos uns esquisitos.

Mamãe está doente dos pensamentos? Por isso precisa de médico, para operar-lhe as ideias?

Sei não, mas papai disse que ela está estranha como nunca se viu. Faz troça com a cara dele e sai de casa com os cabelos em embaraço de ninho de pássaro. Uma vez, dona Fafinha a encontrou no quintal, de braços abertos enquanto caía uma chuva tenebrosa, dessas de desossar até peixe, tempestade das escuras.

Lena, sai de perto da porta!

Antes que pudéssemos ouvir o rangido da maçaneta e fosse possível ver mamãe de pé diante da escrivaninha de ébano, Lena já havia se afastado da porta com pés felinos e estava do meu lado, no final do corredor, com a respiração ofegante e a mão suarenta agarrada no meu pulso. O tal doutor de quem ela havia falado ainda repousava a bunda sobre uma das cadeiras. Tinha os bigodes mais murchos do que eu havia fantasiado e as sobrancelhas opulentas frisadas, a sombrear os olhos graúdos, que fitavam mamãe com incredulidade.

Senhora Olívia, apesar de os testemunhos de juízes, médicos e jornalistas que estiveram contigo desde o dia em que andou sobre o vidro me adiantarem do seu alheamento para com as coisas do real, eu insisti em prestar visita e ter com a senhora pessoalmente, em respeito à relação que mantive com a família do seu marido, em especial com a senhora sua sogra. Vejo agora que minha delicadeza foi de uma inutilidade completa, porque não só está caquética das ideias, como se pôs abusada das vontades. Fez da língua esteira de maleducâncias, solta palavreado compatível com os feitiços que as gentes sem dentes e cobertas de bichezas conjuram no grosso das ruas, quando pedem o dinheiro nosso em cima de cobertores apodrecidos ou abraçadas a cães com quem compartilham as sarnas.

Eu já disse que o senhor me lembra em muito o meu marido, doutor? Pois veja como é curiosa a vida: Ele também é ofensor-ofendido! Como é que a gente chama mesmo, doutor, uma coisa que na verdade é duas?

Mentiroso!

Saia daí, Dorinha, passa ligeiro para dentro do quarto você mais a Lena, avexe!

Dona Fafinha invadiu a sala com as faces em polvorosa. Tinha o coque desfeito e torcia a saia do vestido entre as mãos em um gesto esgotado. Olhava para mamãe com grande piedade, como se ela fosse o próprio Cristo espetado em uma estaca de madeira e posto para esmorecer os sucos diante das gentes todas. Nessa hora senti um amor muito doído por dona Fafinha, por ser piedosa do sofrimento de mamãe, que – agora que eu firmava entendimento – parecia mesmo especial além da unicidade das mães.

Eu alimentava secreta fé que, quando caminhou sobre o vidro, mamãe se deparou com um segredo impronunciável, com um entendimento faraônico que não se dá a todas as gentes. Na minha cabeça funcionava assim: Uma vez que os véus são afastados e o rubro da face do Inominável encontra olhos de cristalina carne, a pessoa é de súbito alumiada por palpites estranhos sobre esse negócio de existir. Assim, mamãe teve o corpo perfurado por pensamento-estaca, pois caminhou sobre uma passarela de caspas caídas diretamente da cabeça de Deus. Ela o fez com pertencimento gêmeo àquele com que o sol se derrama sobre o corpo das flores quando faz manhã no céu.

O Inominável que foi de encontro aos olhos de mamãe naquele dia, porém, emudeceu dentro dela tão logo esteve consigo. Ela ficou constipada de alumiações, mas incapaz de dividi-las com as gentes, por isso cismava em inventar palavras. Nutria secreta fé que uma delas haveria de conter em si a lembrança do começo.

Nessa sanha de compartilhar o segredo maior do mundo com as gentes, mamãe se alheava das conversas rotineiramente bonitas e percorria caminhos tortuosos, repletos de espinhos feitos para furar-lhe os pés e, onde um dia houve cortes, refundar cicatrizes. As ideias nasciam dentro dela em uma geometria insana de galhos e raízes, floresciam carnudas, sem pudores do colorido dos frutos e do melado da seiva. Em uma dança sorumbática, ela pescava palavras e as separava dos corpos das conversas, às vezes as inventava, fruía dos sons com a ponta da língua, como se fosse de uma azeitona que ela experimentasse o desvario das curvas, os sucos salgados.  Mamãe curtia esperança de – entre uma risada e outra, no desaviso de um soluço – pronunciar o nome de Deus.

Mas disso tudo eu ainda não sabia, porque só tinha cinco anos de idade no dia em que dona Fafinha ficou especialmente nervosa porque a mulher de cabelos curtos invadiu a nossa casa.

Dona Olívia, peço as desculpas maiores do mundo, a senhora nem sabe da minha vergonha. Acontece que, assim que o doutor atravessou o portão, a moça que quer porque quer ter com a senhora se aproveitou da velheira dele e saracoteou ligeiro para dentro de casa com o menino dependurado no colo. Nem Moço, que é jovem e rápido – mas sonso como só ele – deu conta de surrupiá-la para o lado devido da cerca.

Você é a Olívia?

Olívia é uma azeitona. Ela fica guardada dentro dum jarro, discreta-redondinha. Ainda não teve a carne desfiada pelos molares do Grande Devorador de Olívias. Sabia que o meu nome tem berço de poesia?

Não.

O seu nome tem berço de poesia?

Acho que não.

Como se chama?

Ana. Só Ana.