Toda sexta-feira a Revista AzMina publica um capítulo do romance de folhetim “Nascem Flores no Asfalto”, de Mariana Lozzi. Leia os outros capítulos aqui.

Vê esse casaco? O forro, os pontos de costura, a minúcia do bordado, a forma que ele toma em contato com a pele, a sensação que acomete uma mulher quando o joga sobre os ombros? Percebe como, de improviso, ela passa a ter acesso àquilo que de mais galhardo os dias guardam como possibilidade, e é percorrida por comichões tão carnaval dos sentidos, tão presença de abelhas em corolas de flores que nem sei explicar com palavras inventadas pelos homens como se sente a mulher que veste esse casaco? Mas, como já fui uma delas – uma das mulheres com essa magnífica peça de couture sobre os ombros –, faço-me de testemunha e digo com perícia matemática que se trata de um sei lá o quê… De um sei lá o quê coruscante! Pois insisto: a mulher que colocar esse casaco sobre os ombros em um fim de tarde corre risco de ser acometida por essa imagem: um corpo nu, perolado, de barriga macia-travesseiresca, feita toda fendas e dobraduras, mapa da opulência, a flutuar em um rio espelhado – um rio persa! Olhe que absurdo lindo, meu senhor, chega me arrepiei.

Moça, é só um casaco.

Nem venha me olhar com essa cara de maracujá mofado, meu senhor, não repara na finesse? Não achei que precisaria segredar isso, pensei que tivesse tino para os negócios, mas digo que, uma vez, ofereceram-me dígitos obscenos por esse casaco. Eu estava na rua, caminhava em desaviso pleno, a cidade era tomada por um frio violáceo, um pouco exagerado, se me perguntar, desses que fazem a gente querer comprar edredons e chaleiras. De súbito, uma senhora interpelou meus passos e estendeu as mãos assim, bem juntas, como em uma oração. Ao invés de medalhinhas de santos, porém, ela tinha entre os dedos um chumaço de notas azuis. E não é que a dona invocou que queria porque queria o meu casaco? Disse que ele era uma dessas peças de arte transvestidas de cotidiano, e propagandeou que tinha olho clínico para a coisa. Nem preciso dizer que a velha ficou doida da vida quando eu, muito finamente, é claro, recusei a oferta, faltou rumar com o andador nos meus meios. Percebe, meu senhor, a asnice que é recusar esse casaco?

Moça, muito bonito esse seu gostar do casaco, ele não é dos piores, concordo, mas fico besta de encontrar gente jovem como a senhora com a cabecinha aérea desse tanto, parece que come vento e arrota nuvem, credo. O país está quebrado, pode ligar a televisão em qualquer canal e as vozes todas te confirmam isso que digo. Noticiam que é a pior crise de que já se ouviu falar, tão amargosa que até os velhacos – confusos como só eles – farejam potencialidade de desastre e buscam refúgio dentro das próprias cabecinhas, ou se entregam à danação do medo e, panicados, antecipam encontro com a cara cava da morte. A gente, a quem falta pedigree – mas têm sina de sobrevivente, porque é velho conhecido do agudo de uma garganta seca –, agarra o que pode do dinheiro, sabe, tenta poupar até as moedas que escorregam pelo vão dos dedos, penúria. A senhora minha mãe – você gostaria dela, também era desbocada e preferia usar os cabelos curtos, talvez para esbravejar melhor com os vendedores, pegar emprestada a rijeza dos homens – bem dizia que a miséria é como um fungo dos mais contagiosos, plantado no corpo das gentes – ele pode existir em segredo, mas, quando se amostra, fica cada vez mais glutão e se põe cheio das vontades, como se soubesse que sempre pode ampliar os domínios.

A conversa do senhor é de uma bestagem sem fim, compre logo o casaco, vá, leve essas botas também, as madamas vão ter faniquitos quando as virem, capaz até de descompensarem, uma obra de arte dessas exposta sem pudores na vitrine, que escândalo. Pronto, leve as luvas também, não vou usá-las tão cedo. Muito bem, percebe como o casaco é precioso?

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A porta do apartamento se abriu em um sopro – ou foi assim que me pareceu porque, em dias de grande trânsito de ideias, o duro das paredes virava matéria molosa, e os acontecimentos ensaiados na periferia das vistas passavam por mim despercebidos, em transe de sonho. Entrar em casa para encontrar uma sala vazia ainda era motivo de estranhamento. As janelas choravam luz, sem as cortinas para se interpor entre a nudez das paredes e a claridade obscena do dia. A luz, por sua vez, expunha uma sala albina, irreferenciada, com duas cadeiras e uma almofada, diminuídas pelo espaço vazio. Na cozinha, armários inabitados, bancadas lisas e uma geladeira, a fabricar os barulhos antes orquestrados por uma máquina de lavar e televisão, agora guardadas em caixas e empilhadas no único canto da sala que a luz não alcançava.

Desde que rebocaram Lis do hospital eu era pura eficiência. Em menos de duas semanas havia vendido o conjunto de sofás, a coleção de discos de papai, o tapete felpudo sobre o qual Leozinho gostava de se deitar de bruços e deixar lascas de sol lamberem-lhe a bunda branca, as cortinas e tudo mais de que inferi algum valor. Os dias de mascate me presentearam com uma faixa de pele morena no pescoço, manchas de suor nos braços das camisas e mais fome do que eu conseguia mitigar com o inventário decadente de enlatados na dispensa.

No primeiro dia de peregrinação pela cidade – no qual eu entrava em lojas de fachadas ostensivas e abria um estojo de veludo com colares a ametistas que acumulei desde os 14 anos – percebi que não poderia levar Leozinho comigo. Com os olhos presos no bebê, os vendedores se recusavam a negociar um pingente que fosse. Olhavam uns para os outros num silêncio sepulcral e, quando me dirigiam palavra, aconselhavam-me a ir para casa numa mimese de gestos que despertava um mal-estar de corte, fisgada das mais duras. Em dias de grandes calores, diziam que o sol estava muito forte para sair com o menino na rua e, em dias amenos, advertiam-me que ele perigava pegar friagem.

Minha senhora, espalham palavra que os miúdos de hoje devem ser cuidados com mimos e poréns estranhos às gentes da nossa época, tantas que são as leis aprovadas nas horas mais estapafúrdias. Assim, as mães ficam obrigadas a fazer vigília constante, asseguram que é o único jeito de garantir aos filhos melhores modos, maiores apetites, fazer-lhes mais fortes e capazes do que a própria geração, ocupadas que nossas mães estavam com viagens e empregos, esses restolhos dos tempos em que as mulheres se recusaram a emprenhar. Na emissora maior de todas – sabe de qual falo, aquela das novelas sobre gente bonita e esguia que arranja picuinha com gente bonita e esguia – dizem dum jeito todo certeza-do-mundo que nunca precisamos tanto dos miúdos, porque eles nos tirarão dessa crise engolidora de gentes, arrolhada no sofrimento nosso. A mulher das receitas explicou hoje mesmo que eles são a chance do país de sair da crise, porque vão crescer para trabalhar dobrado e, assim, fortes e responsudos, aquecerão a economia dum tanto que ficaremos eternamente agradecidos às mães que os criaram, importantíssimas para a salvação da pátria.

Pois saiba, Fulaninho, que essa crise súbita, esse alvoroço agudo das gentes em torno de trocos mirrados é exclusivo dos homens, porque para as mulheres nunca faltaram crises. Estamos acostumadas a mastigar migalhas e agradecer com a boca seca, racionar carinho, absolver ofensas, festejar cada dissabor que nos for poupado, traçar passos com os olhos baixos, na sombra projetada por corpos alongados, corpos de homens. Sustaram meu pagamento no trabalho e estou precisada de dinheiro como nunca, então me diga, você que é um rapazote assim modernoso e informado, se meu filho, forte e responsudo como é aos oito meses de idade, vai cagar boletos pagos ou, em um dia de grandes cólicas, despejar nas fraldas o dinheiro que os advogados pedem para inocentar Lis.

E o pai da criança, minha senhora, por que não pede ajuda a ele? É de se admirar do que é capaz a natureza, sabe? Todos os dias ouvimos maravilhanças, coisas do domínio da impossibilidade, porque a espécie nossa é tudo, menos exata. Existem casos de pais que levam os filhos à escola, preparam a comida dos miúdos com todo esmero, quiçá trocam fraldas – existem homens responsudos, sim senhora! Um dia ouvi falar de um – veja que maravilhança – que criou dois filhos sozinhos depois que a esposa dançou tanto forró que saracoteou das vontades e fugiu para bandas outras, foi tentar carreira de atriz no mais úmido do Norte – decerto perdeu o tino para a realidade, existem dessas, mas é coisa rara, para sorte das gentes, que precisam das mães em prumo, pertencidas ao próprio destino. É de se admirar um negócio desses, um pai cuidar dos filhos sem ajuda de mão feminina, ainda por cima todo sorrisudo, como se não tivesse mais coisas com que se ocupar. Fizeram até reportagem sobre o caso depois da novela, foi ao ar no programa daquele moço aloirado, gente finíssima, sabe de quem falo, aquele que dá casas para os pobres e abraça as pessoas todas que sobem no palco.

O pai de Leozinho eu só vi uma vez, mas não causou boa impressão: estava meloso, duma palidez esbranquiçada, ralo demais para o meu gosto e guardado em um tubo de ensaio.

É o quê, senhora?

Fulaninho, ó Fulaninho, basta de falação, opinião é artesanato das gentes, falta é fio para tanta miçanga. Mas essas jóias – repare na preciosidade, na robustez – só quem tem sou eu. Aqui, veja esse anel, que brilhantudo, que alegria dos ourives. Conhece essa pedra, a maior? Coisa fina, Fulaninho, ganhei do meu pai na época em que ele se fartou de bater ponto na firma e resolveu que gostava mesmo é de trabalhar pedras graúdas, de cores nobres, até que elas tomassem forma de gota cristalizada no mais tenro do mel, ou se desdobrassem na arquitetura insana dos olhos das mosca. Tinha umas mãozinhas de fada, o meu pai, nunca errou uma lapidação.

Minha senhora, mas e o menino? Eu farço que ele não está longe de casa, exposto ao ar virulento da cidade? Não posso. Imagina só: o seu miúdo cresce para se tornar um empresário todo-todo, que decide os giros do mundo nas quinas das unhas quadradas, e, um dia, faz mais filhos iguais a ele, em uma sanha de devolver ao país dias de menos penúria.  Fomos instruídos pelos patrões nossos – que, por sua vez, receberam comando direto dos patrões deles – a prestar queixa à Ouvidoria de Desvios da Maternidade caso encontrássemos mães com conduta perigosa, descabidas da tarefa de educar. Então, quando a vemos assim, sem tino no modo de se vestir, com o menino apoiado no quadril a abrir caixas de jóias em troca de famigerado pagamento, a gente fica meio como que chamado a prestar queixa, até porque se o patrão nosso te vir a andar despertencida por essas bandas, longe de casa em horário de jornada de trabalhador, ele mesmo toma providência e nos cobrimos os dois de desgraça.

Eu agitava os braços num afogamento completo de modos, queria mesmo pedir que não me reportassem, que não prestassem queixa, explicar que eu tinha colares bonitos e uma dívida, e que pensei que aprazeria a outras mulheres ter colares bonitos do mesmo modo como me aprazeria não ter uma dívida. A garganta se apertou em dor de ofensa e eu soube que não poderia falar que haviam se fartado de mim na agência desde que acusei os donos-da-porra-toda do roubo das minhas ideias, nem da falta agreste que fazia a Lis, que, depois que foi presa, eu descobri existir pra mim na condição de irmã, filha e mãe – coisa das mais primitivas, brilho conciso no fundo de águas baças, um cristal trincado, lasca de coral, concha esmaltada, um peixe cintilante – talvez.

Ela abria a porta com pertencimento e, sem dizer palavra, tirava Leozinho do meu colo, esquentava leite e o segurava de barriga para baixo até que ele se rendesse aos tentáculos do sono. Dizíamos que ele tinha mania de astronauta, quiçá pensava que observar as sujeiras mínimas do tapete equivalia a auscultar galáxias, imaginava-se confidente de Deus e se sentia todo-todo, do jeito próprio dos bebês, que ainda não sabem comunicar maravilhança, mas tentam por tudo fazer barulho de universo. A Lis tinha isso de dizer frases bestas e luminosas quando eu contava dos meus sonhos de elevador, aqueles em que eu me deparava com a minha mesa antiga no escritório e panicava de alegria ao responder e-mails, as pontas dos dedos chega formigavam, café preto vazava das tetas. Eu era pura eficiência.

Ana?

Lis, já te asseguro que as coisas vão voltar para os nichos devidos, então sossegue, vendi a tranqueira toda lá de casa, não rendeu tanto quanto era devido porque as gentes se puseram especialmente avarentas com esse burburinho de crise, parecem galinhas histéricas amontoadas em um galinheiro que divide cerca com um canil, credo, mas vai dar para pagar os advogados, isso eu sei.

Ana, desde que cheguei aqui fui alumiada por coisas que a gente não vê no lá fora, talvez porque estejam farçadas de naturais, ou porque os farçados somos nós. De qualquer forma, adianto que é inútil pagar os advogados e vender o fundo das calças para me afiançar – eles não gostam da ideia de soltar as mulheres daqui, são da crença que elas voltam para a realidade revestidas de matéria dura, cada vez mais difíceis de modelar entre os dedos, e assim ficam perigados de serem expostos na falcatrua.

Lis, e esse escuro na boca? Os braços estão arranhados, parece até que perdeu as bochechas, está com ar de escaravelho, como se habitasse um livro de histórias fantasiosas, como as que costumávamos contar. Lembra do opaco nos olhos da sua mãe?

Faz uma coisa pra mim, faz, Ana, e eu prometo que tudo se resolve e a gente se salva, então vamos para um lugar assim diferente, eu você e o Leozinho, desses que a gente vê nos filmes gringos, em que as praias são escuras e repletas de corais, com ventos que desafiam até os pássaros de voos mais macios, mais tenazes.

Me dá um medo, sabe? Eu existo em sobrevida, como se cada dia fosse tempo vivido além da medida, negociado a muito custo com o Grande Detentor dos Ponteiros. Quando deito a cabeça no travesseiro começa uma sonhação doida, transito de um cenário para o outro, ectoplásmica, casas fecham paredes ao meu redor como cubos de papel que se remontam numa danação sem fim. O descnforto só se afunila mesmo quando lembro de Leozinho, daí desembesto a procurá-lo e não o encontro, mas ele chora, chora alto, tão alto que sei que está perigado de morte. Aqui eles te escurecem a boca, Lis, e, ao fazê-lo, escurecem a minha também.

Ana, lá vem o vigia, vão te tirar daqui aos safanões, então se aprume porque preciso que faça uma coisa, somente uma, e tudo se resolve, prometo, e tudo se ajeita para nunca mais desmoronar, porque eu entendi tudo, transvi o fim na lembrança do começo. Preciso que encontre uma pessoa.

Quem?

O nome dela é Olívia.