Eurídice Gusmão tinha uma mente acima da média. Aos 14 anos, foi convidada por Heitor Villa-Lobos para tocar em seu conservatório. Seus pais, é claro, não permitiram. Aquilo não era lugar para uma moça de família. Depois de casada, descobriu-se um ás na cozinha. Criou um livro de receitas inédito digno dos mais renomados chefs internacionais. Seu marido riu da empreitada e o livro foi parar na lixeira. Aprendeu sozinha a costurar e, em menos de um ano, tornou-se a melhor modista da cidade. O marido, é claro, tratou de pôr fim àquela pouca vergonha o mais rápido possível.

Eurídice era uma mulher à frente do seu tempo. Mas seu tempo era uma rede de grades e correntes prontas para enclausurar qualquer um que ameaçasse colocar-se à frente dele – principalmente, se esse alguém fosse do sexo feminino. Ser mulher no Rio de Janeiro dos anos 1940 era um exercício de resistência, nem sempre silenciosa, mas quase sempre silenciada.

“Nas semanas seguintes a coisa acalmou, e Antenor achou que não precisava devolver a mulher. Ela sabia desaparecer com os pedaços de cebola, lavava e passava muito bem, falava pouco e tinha um traseiro bonito. Além do mais, o incidente da noite de núpcias serviu para deixá-lo mais alto, fazendo com que precisasse baixar a cabeça ao se dirigir à esposa. Lá de baixo Eurídice aceitava. Ela sempre achou que não valia muito. Ninguém vale muito quando diz ao moço do censo que no campo de profissão ele deve escrever as palavras ‘Do lar’.” (A vida invisível de Eurídice Gusmão, p. 11)

Enquanto Eurídice travava sua luta invisível em meio à classe média ascendente, sua irmã Guida conhecia as agruras de uma realidade ainda mais cruel nas periferias. A ex-prostituta Filomena tentava não ser engolida pelos estigmas sociais e a empregada doméstica negra Maria das Dores sofria de um duplo silenciamento, ao ponto de sua história não ser tão desenvolvida quanto as das personagens brancas para evidenciar sua exclusão social: “Mas esta não é a história de Maria das Dores. Maria das Dores inclusive só aparece por aqui de vez em quando, na hora de lavar uma louça ou fazer uma cama” (p. 38).

Se a temática é pesada e complexa, o mesmo não acontece com a leitura. A prosa de Martha Batalha é leve e fácil de acompanhar sem se tornar fraca. A ironia latente de cada parágrafo traz um humor delicioso à obra. Afinal, é preciso ter se emancipado do silenciamento para poder enxergá-lo e explicá-lo de maneira quase didática, com distanciamento suficiente para rir dessa realidade absurda e contraditória. É por isso que, tanto a obra, quanto a autora, não poderiam deixar de ser consideradas feministas, como disse a própria Martha nesta outra entrevista à revista, por ocasião do lançamento do livro.

Apesar de se passar nos anos 1940, a narrativa de A vida invisível de Eurídice Gusmão é atual não apenas por usar uma linguagem contemporânea de escrita, mas por reconstruir as histórias de muitas de nossas avós, cujas opressões ainda reverberam, de diversas maneiras, em nossas mães, em nós mesmas e até em nossas filhas.

Essas mesmas opressões também acabaram por moldar as vidas de nossos avôs e continuam passando de pai para filho até hoje, ainda que muitas vezes seja difícil apontá-las de forma objetiva. Este livro pode ser um gatilho para nós, mulheres, elaborarmos sobre as opressões que sofremos, tanto quanto pode facilitar aos homens visualizar as opressões que praticam no seu dia-a-dia mais singelo. 

“Antenor não prestava atenção nas coisas da casa. Para ele havia uma linha quase tangível entre os seus domínios e os domínios de Eurídice. Na casa que dividiam Antenor transitava somente pelos espaços que lhe eram reservados, nunca indo além do percurso quarto-banheiro, banheiro-quarto, sofá-mesa de jantar, mesa de jantar-quarto, quarto-banheiro-mesa da copa-hall. O que havia além dos seus limites não interessava. A intimidade de Antenor com a casa era quase inexistente. Não sabia o que tinha na geladeira, nos gabinetes da cozinha e muito menos na pia. (…)

(…) Ele estava ali para botar dinheiro em casa e para sujar os pratos e desfazer a cama, e não saber como as roupas tinham sido lavadas e como a comida tinha sido feita.” (pp.51-52)

O romance de estreia de Martha carrega a maturidade de uma escrita formada ao longo dos anos e da familiaridade com o mercado editorial. Nascida em 1973 em Recife e criada no Rio, trabalhou como jornalista nos principais jornais cariocas e criou a editora Desiderata, hoje parte da Ediouro. Em 2008, mudou-se para Nova York para fazer um mestrado em edição e passou a atuar no mercado editorial dos Estados Unidos. Deixou o emprego de editora para se tornar autora e já vendeu os direitos de sua obra para o cinema e diversas editoras estrangeiras. Na conversa abaixo, ela nos conta mais sobre sua trajetória:

Foto: Arquivo pessoal

AzMina: Você tem uma longa carreira no meio literário, mas só agora se lançou como autora. O que te levou a essa mudança?

Martha: Comecei a escrever depois de entender que o nosso tempo na Terra é finito. Essa maturidade chegou quando fui mãe pela primeira vez. Olhei minha filha e me dei conta que em breve seria ela a realizar os próprios sonhos, e que se eu não cuidasse dos meus passaria pela Terra sem me sentir realizada. Ser escritora era algo que eu queria fazer desde os 7 anos, então, por que não? Porque tinha medo de fracassar, de não conseguir pagar as contas. Mas aos trinta e poucos anos, depois de ter feito mestrado no Brasil e no exterior, trabalhado como repórter, fundado uma editora e produzido exposições, eu me chamei para uma conversa. Disse Olha, Martha, para de enrolar. Vai doer muito, e para o resto da vida, se você não tentar. Pedi demissão da editora em que trabalhava em Nova York e usei minhas economias para bancar os anos de escrita que vieram.

A: Quanto tempo levou para A vida invisível de Eurídice Gusmão ficar pronto?

M: Entre livros mal escritos para chegar onde eu queria, revisão e edições, quatro anos.

A: Há algo da Martha editora no livro? Que experiências “do outro lado do balcão” foram úteis na hora de escrever e lançar a obra?

M: Todo escritor tem que ser seu próprio editor. Tem que saber olhar o texto como um bloco, encontrar problemas, entender que escrita é reescrita e edição. Ficar longe do texto por uns tempos, voltar a ler e pensar – tá uma droga, vamos fazer de novo. O maior presente que um escritor pode ter é a capacidade de ver seus defeitos, e o trabalho do editor é exatamente esse – ver e consertar os defeitos de um texto. Os anos de jornalismo também me ensinaram a contar uma história com clareza – o repórter tem que dizer em poucas linhas o que aconteceu, onde, com quem, porque, quando e como. Essa clareza de escrita e pensamento é preciosa, valeu ter passado tantos anos fazendo as doze horas diárias nas redações e os plantões de fim de semana e feriados.

A: Em tempos de fortalecimento da direita no Brasil e no mundo, ao lado da disseminação das lutas feministas, seu livro cai como uma luva nas pautas nacional e internacional. Você pensou nisso na hora de escrever? Como vê a recepção da sua obra nesse contexto?

M: Não acredito em escolha de tema de acordo com o que está ou não em voga no mundo. Mas acredito que o escritor é influenciado, consciente e inconscientemente, pelo entorno. Nós, mulheres, fomos criadas para querer menos, ter menos ambições, e isso sempre me incomodou, a ponto de eu precisar escrever um romance a respeito. O mundo seria muito melhor, se todos nós pudéssemos desenvolver nosso potencial, independentemente de gênero, cor, religião, país e condição social.

“A vida invisível” é um romance sobre não realizações, são vários os personagens que passam por esta questão. Eurídice e sua irmã Guida, a vizinha Zélia, o solteirão Antônio, o noivo de Guida, Marcos. São personagens ordinários, de uma vizinhança ordinária. No começo do processo de escrita, quando imaginei uma protagonista dona de casa, eu pensei, quem é que vai querer ler um livro sobre um dona de casa, e ainda por cima da Tijuca, um dos bairros menos sensuais do Rio? É insignificante, essa história. Então eu entendi que era exatamente por ser insignificante que precisava ser contada.

Em relação à recepção, fico feliz de receber muitos e-mails e mensagens no Facebook de leitores e leitoras comuns (que não estão ligados a algum suplemento literário, não são críticos ou editores), dizendo que se apaixonaram pelo livro, adoraram o estilo, e viram ali a própria história, ou a história das suas mães e avós. O trabalho de construção de um romance é imenso, passa por técnica, estilo, estrutura narrativa, mas nada disso funciona, para mim, se o autor não levar em conta o prazer da leitura. O leitor é meu cliente, é ele que paga a conta, então eu tenho a responsabilidade de fazer com que a experiência da leitura seja prazerosa, e verdadeira.

A: Por que você optou por não detalhar mais a história da Maria das Dores no livro? Você acha importante contar a história de uma personagem como ela ou pensa em fazê-lo em outra ocasião?

M: Eu vou responder com nova pergunta: o que o pouco destaque a Maria das Dores diz sobre este personagem? Sua vida é tão invisível quanto a de Eurídice, e não falar mais sobre ela faz o leitor pensar no que não foi dito. E não é que o narrador não tenha entrado em detalhes, é que estes detalhes, de acordo com o narrador, são irrelevantes. Maria das Dores é uma mulher que perdeu a virgindade com um estupro aos 13 anos, tem um marido malandro, precisou acorrentar os filhos em casa para poder trabalhar e se submeteu aos desejos do filho dos patrões. Tudo isso é dito de forma quase leviana, corriqueira, e, se você for pensar, aconteceu tantas vezes, ainda acontece, e permanece impune.

Quero muito escrever outras histórias que demonstrem este relacionamento tão interessante, entre empregadas e patroas. É um relacionamento tão comum, presente em praticamente todas as casas de classe média e alta no Brasil, e tão pouco explorado. Envolve submissão, mas também simbiose e cumplicidade (no livro Maria das Dores é a única que acompanha as angústias de Eurídice). Voltei ao tema no meu segundo romance “Areia Branca”, que tem lançamento previsto para o fim deste ano.

A: Aqui na revista, tentamos dar visibilidade à literatura independente. Você vê diferenças nesse tipo de publicação em relação às editoras tradicionais? Acredita que as duas disputam o mesmo espaço?

M: Que bom que fazem esse trabalho! É muito difícil para um autor iniciante emplacar um livro em uma grande editora. A grande editora tem que girar uma máquina imensa, precisa do lucro. Desde que a internet tomou o mundo a pergunta que a grande editora faz, quando avalia um autor novo, é – esse autor já tem uma audiência? Quantos fãs e seguidores tem no Twitter, YouTube, Facebook? Isso diminui o risco do livro. É lógico que isso varia de acordo com o gênero. Por exemplo, um escritor ou escritora preocupado em desenvolver um estilo polido e único não tem que se preocupar com audiência. Tem que fechar a porta do quarto, desligar a internet, consultar o Aurélio, escrever feito uma louca. É esse trabalho solitário que levará à publicação, que pode acontecer numa editora menor. Uma editora menor pode cuidar melhor da obra de um autor, e pode ser o primeiro passo para um contrato com uma casa maior.

Em relação à competição, penso que, no Brasil a grande disputa não é entre editoras. Foi durante muito tempo, e ainda é, contra a Rede Globo, e agora é contra a TV e o Facebook. Nosso audiovisual sempre foi excelente, então, pra que ler? Ler dá trabalho, e as pessoas não entendem que é exatamente por isso que precisam ler, porque dá trabalho, deixa a gente menos burro.

A: Na literatura mais comercial, é comum a figura do agente literário. Qual a função dele? Você a considera essencial ou acredita que é uma profissão que tende a desaparecer no futuro com a ascensão de outras formas de publicação?

M: O agente literário lê o manuscrito, dá conselhos, pede para mudar aqui ou ali. O livro chega praticamente pronto na editora, muitas vezes, por causa do trabalho de um bom agente. É sim uma profissão importante e fundamental, porque protege o autor. Discute contratos, pensa no mercado nacional e internacional, e nas vendas para cinema ou TV.

Tenho a sorte de trabalhar com uma das melhores agentes do mercado, Luciana Villas-Boas e seu super time. Ela não é apenas excelente profissional, mas uma apaixonada pela Literatura Brasileira. Luciana sabe que a construção de um país passa pela identidade nacional, e a identidade nacional passa pela literatura. É tarefa do autor brasileiro construir um imaginário coletivo, nenhum prêmio Nobel ou best seller internacional é capaz de fazê-lo. E ela está ali, batalhando por cada autor brasileiro que tem. A gente só precisava de umas mil Lucianas, nas editoras, nos cadernos literários, livrarias e nas agências literárias, para o autor nacional ser mais valorizado, e esse cantinho do país melhorar.

Em relação a outras formas de publicação, não acho que sejam uma ameaça para o agente literário. A única ameaça para o agente literário, e para o autor, editor, todo mundo que trabalha na área, é a diminuição do número de leitores.

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