“Mulher minha não sai sozinha e ainda mais com essa roupa de vagabunda”. A frase espantosa, tão comumente vomitada por muitos homens por aí às suas parceiras, chegou como uma surpresa para Gabriela*. Quem dizia não era um homem, mas sua ex-namorada, que censurava o vestido novo decotado que ela havia escolhido para ir a uma festa com uma amiga.

“Nesse dia tive o ‘clique’ que estava me faltando. As vezes em que ela não queria me deixar dirigir, aquele meu batom escuro que tanto a incomodava, as infinitas crises de ciúme e até a insistência para eu largar a faculdade. De repente tudo fez sentido.”

Pois é! Mesmo dentro de relacionamentos entre mulheres, pode existir reprodução do machismo que nos impede de sermos donas de nossos corpos, de nossas atitudes, de nossas escolhas e, principalmente, da nossa sexualidade.

“Até o sexo quase se resumia a satisfazer as vontades dela. Não foram poucas as vezes em que resolvi aceitar transar naquela noite para não passar o resto da semana ouvindo que ela ia procurar fora o que estava faltando dentro de casa”, desabafa Cinthia Duarte*, sobre sua relação com a ex-companheira, com quem foi casada por 5 anos.

De acordo com a doutora em História Cultural e pesquisadora da Unicamp Carô Murgel, uma mulher pode reproduzir comportamentos machistas de mais de mil maneiras. “O patriarcado é uma longa escola. Entre as mulheres, é comum os argumentos machistas estarem centrados em sua sexualidade. A inimizade das mulheres umas com as outras tem a ver com isso. Interessa ao patriarcado.”

Segundo Murgel, vale considerar que há sempre espaço para violências em qualquer relação amorosa. No caso de relações entre mulheres, não é porque uma lésbica faz parte duplamente de grupos oprimidos (mulher e lésbica) que seria óbvio para ela a não reprodução dos machismos diários que nos rondam. Uma mulher pode reproduzir o machismo replicando os padrões das relações abusivas que se dão entre heterossexuais, por exemplo.

“Relacionamentos lésbicos que reproduzem a sociedade patriarcal estarão sujeitos ao machismo. O ciúme é o maior sintoma, sempre. Quando temos ciúmes, estamos objetificando o outro como “coisa” nossa. O amor devia ser um presente, não uma moeda de barganha”, opina Murgel.

Lésbicas e relacionamento abusivo

Quase sempre, para mulheres que sofrem violências causadas por comportamentos machistas de suas companheiras, não é claro que aquilo que estão vivendo tem nome e sobrenome: relacionamento abusivo!

Bárbara Oliveira*, cabeleireira de 24 anos, passou por uma série de abusos com uma ex-namorada e levou mais de um ano para se dar conta de que estava numa fria. “Eu sempre era diminuída, humilhada, proibida de ter certas amizades. Ela tinha que ter minhas senhas mas eu não podia ter as dela, censurava minhas roupas, corte e cor do cabelo, maquiagem e até fotos que eu podia ou não postar!”, lembra. “Fazia de tudo pra me afastar da minha mãe, até local de trabalho quem escolhia era ela! Hoje eu tento entender como deixei chegar nesse ponto.”

Uma das maiores dificuldades de mulheres que vivem relacionamentos assim, é tomar coragem de dar um “beijo-não-me-liga” para a mina por quem um dia a gente se apaixonou. Se dar conta e reconhecer os abusos na relação como injustificáveis já é uma tarefa árdua. Tomar a decisão de sair dessa e mudar de vida pode ser ainda mais.

“Quando decidi sair da relação, quando cheguei no meu limite, foi a pior fase. Ela tentou me matar. Não me estrangulou porque eu arranjei forças não sei de onde pra me defender! Depois rolaram ameaças, me seguia… Um verdadeiro inferno!”, desabafa Bárbara.

A administradora Patrícia Muniz aprendeu essa lição a duras penas após sua ex-companheira ter dado fim ao relacionamento que já durava 8 anos. “Eu não aceitava que ela fosse a festas sem mim ou que saísse com as amigas e nem que usasse roupas muito curtas. Eu queria que ela vivesse só pra mim”. E para as manas que ainda estão dentro desse armário do ciúme, ela deixa um conselho:

“Confie mais em si mesma e saiba que amar é fazer a pessoa amada se sentir livre e depois curtir os momentos juntas com confiança e paz”.

E como fica a Lei Maria da Penha?

Assim como Bárbara, muitas mulheres em relações abusivas com outras mulheres não sabem que a lei também pode ampará-las no caso de violência doméstica.

Em casos de violência contra a mulher, a Lei Maria da Penha é aplicada a qualquer sujeito que cometa crimes domésticos, seja ele homem ou mulher. 

Uma pesquisa sobre a Lei Maria da Penha em casos de Lesbofobia, realizada pela Associação Lésbica Feminista de Brasília Coturno de Vênus, mostrou que mais da metade das pessoas entrevistadas – cerca de 60% – não sabia que essa lei protege todas as mulheres, “independente de orientação sexual”!

Para Marina Ganzarolli, advogada, doutoranda em Sociologia Jurídica (USP) e cofundadora da DeFEMde-Rede Feminista de Juristas, é muito importante que TODAS as mulheres – inclusive as que se relacionam com outras mulheres – conheçam a Lei Maria da Penha e recorram a ela, pois é um dos melhores mecanismos do mundo de proteção contra a violência doméstica e familiar.  “Apesar de ser muito baixa a porcentagem de casos em que o agressor não é do gênero masculino, eles acontecem sim, e não podem ser ignorados”, opina.

“A população LGBTI não está isenta do machismo e da homofobia. Também estamos inseridos nesta sociedade racista, machista, heteronormativa e patriarcal.”

É importante lembrar que, para que uma agressão caracterize violência doméstica, ela não precisa ser necessariamente física. Também são considerados violência doméstica:

  • ameaças.
  • constrangimento, humilhação, vigilância, perseguição, chantagem ou qualquer outro tipo de atitude que cause dano emocional e diminuição de autoestima ou que vise controlar suas ações.
  • todo tipo de conduta que obrigue a mulher a presenciar, manter ou participar de relação sexual sem sua vontade, que impeça de usar método contraceptivo, que force a gravidez ou ao aborto ou à prostituição contra sua vontade.
  • reter, pegar ou destruir qualquer bem ou dinheiro da mulher,
  • calúnia, difamação ou injúria.

Leia mais em: O que a delegacia da mulher pode – e deve – fazer por você (e também o que não deve)

Cheiro de machismo no ar

Mas então como eu identifico se minha parceira (ou até eu mesma) reproduz esses tais de comportamentos machistas? Carô Murgel dá a letra. Qualquer tentativa de padronizar a outra a um “modelo de mulher” já pode ser vista como machismo – modos de vestir, falar, andar, se comportar. As primeiras agressões são sempre verbais. Portanto, se o que você está ouvindo de sua companheira te fere, preste atenção, é um sinal – e preste atenção também nas suas próprias palavras, porque esse machismo pode ser de duas vias.

Outro fator que chama a atenção é a fixação dos defeitos como imutáveis. Tudo o que é “ah, eu sou assim!” está estanque, portanto, morto. A vida seria mais leve se entendêssemos que “estamos”, não “somos” nada. Então, se sua companheira diz “ah, eu sou assim, não consigo mudar isso”, preste atenção. E, se num relacionamento, alguém afirmar que não pode mudar as atitudes machistas, certamente isso não é um relacionamento saudável.

Um passo importante para superar as desigualdades e estarmos atentas a realidades como a de Gabriela*, Bárbara*, Cinthia* e também a de Patrícia, é reconhecer que também fazemos parte deste mundo e, como tal, reproduzimos machismos o tempo todo.

Como disse Ganzarolli, “também fomos educadas de forma sexista para reproduzir estereótipos daquilo que a sociedade entende como papéis de gênero adequados. Não estamos fora dessa realidade, acima ou imunes a ela. E também porque, como mulheres lésbicas, nós temos que combater o machismo e a lesbofobia em todos os espaços, inclusive dentro da nossa própria casa e dentro de nós mesmas”.

*Nomes fictícios

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