Foto de acervo pessoal

Quem senta no Divã de hoje é a Débora Galvão.

“Sou de Araraquara, interior de São Paulo, tenho 35 anos, sou solteira, ensino superior completo, funcionária pública estadual. Moro sozinha, adoro viajar, dançar, correr, amo minha liberdade.

Não sei dizer desde quando eu não quero ter filhos. Acho que nunca me imaginei como mãe, não veio esse instinto para mim.

Tenho três irmãos, minha mãe adorava crianças, dizia que queria até adotar mais. Não odeio crianças nem quem quer ter filhos, apenas não quero para mim.  Tive quatro namorados e acredito que todos eles souberam desse não desejo de ser mãe. Com o último, esse foi até um fator de discordância desde o início. Tomo anticoncepcional desde os 19 anos. Um dos meus maiores problemas é a TPM, sempre forte. Então nos últimos anos a opção era pílula de uso contínuo, para não menstruar. Mas sempre ocorria escape.

Em 2016 tive que fazer tratamento para depressão, tomando medicamento de uso controlado, e a psiquiatra disse que iria interferir na eficácia da pílula e vice-versa: a pílula pode ser um agravante do quadro depressivo. Temos visto que o uso de hormônios não é bom para a saúde da mulher. Tanto que tentaram fazer um anticoncepcional masculino que não foi autorizado por ter efeitos colaterais (que nós mulheres já sofremos há tempos!).

A primeira opção sem hormônio que teria é o DIU de cobre, método reversível. Quando questionei minha ginecologista, no entanto, ela disse que não colocaria em mulher sem filhos. Há mito sobre ser abortivo ou atrapalhar a fertilidade da mulher. Mas, no meu caso, eu nem queria mesmo ter filhos.

Assim, por indicação de uma amiga, procurei um outro médico e aproveitei para perguntar sobre a laqueadura. Era agosto de 2016. Esse médico viu meus exames e foi muito atencioso comigo, tirou minhas dúvidas e não questionou minhas vontades. Disse que, se eu decidisse sobre o DIU ou laqueadura, que ele faria. Eu saí da consulta e fiquei de pensar nas opções.

Menos de dois meses depois eu já tinha me decidido pela laqueadura. Voltei ao médico, que fez meu pedido para o plano de saúde. Foi então que começou uma jornada burocrática.

Na Unimed, me encaminharam para conversar com a assistente social. Ela me passou um documento para ler e assinar “Declaração de conhecimento de restrições para realização de esterilização voluntária e isenção de responsabilidade da operadora de plano de saúde”. Foram três vias e, se houvesse cônjuge/convivente, ele deveria assinar também.

Também duas testemunhas assinaram — pedi para meus irmãos. E o próprio médico, autor do pedido, teve que assinar. Tive que informar ainda se tenho filhos, quantos, nome e idade deles. Como sou solteira e sem filhos, essa parte foi simples. Mas tive que fazer uma declaração afirmando que não convivo maritalmente com ninguém e que não tenho filhos. E, para completar, precisei de um laudo de psicóloga ou psiquiatra afirmando que tinho plena consciência do que estava fazendo.

Os 60 dias começaram a valer em 28/10/2016. Demorei quase um mês para retornar com a documentação completa. Exatos dois meses depois,  o plano me ligou avisando que meu pedido tinha sido aprovado.

Leia mais: Médicos e conselhos técnicos questionam exigência de autorização do marido para mulher fazer laqueadura, e norma pode e pode cair em breve

Em 23 de janeiro deste ano finalmente fiz a cirurgia. Estou com um corte no umbigo e mais três abaixo da barriga, pequenos. Não senti dor, mas um desconforto, principalmente no primeiro dia em casa. Meio inchada, pesada. Em geral, foi tudo muito tranquilo.

Eu posso me arrepender? Claro! Mas isso não vai interferir na vida de ninguém. Vou continuar sendo eu mesma, com laqueadura ou não. Quero me relacionar, namorar, quem sabe até casar, mas meu companheiro saberá desta minha decisão e terá que concordar. Se, por acaso, lá na frente, mudar de ideia, posso adotar uma criança também. Então, só peço que respeitem a decisão de suas amigas, filhas, esposas. Simplesmente não quero ter filhos. Me deixem fazer a laqueadura em paz. Continuamos a ser mulheres. E não monstros.”

 


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