Toda sexta-feira a Revista AzMina publica um capítulo do romance de folhetim “Nascem Flores no Asfalto”, de Mariana Lozzi. Leia os outros capítulos aqui.

Eu tinha medo das minhas mãos caírem.

Quê?

Gostava de enfiar os punhos na massa pálida, de esticar e esmagá-la nos pulsos quentes, de sentir a queimação dos ombros e os espasmos dos tendões retesados. Quando sovava pão, imaginava-me uma das mulheres primeiras do mundo, antiguíssima, guerreira de pele vermelha, com o corpo rotundo trabalhado no barro, salpicado de suor com cheiro de hera, terra virgem de tempestade. Trabalhava tanto a massa que as pontas dos dedos se cobriam de calos e vovó dizia que se continuasse assim eu teria as mãos mais fortes do mundo, que quebrar pescoço de galinha seria gesto fácil como um estalo, e que se algum homem levantasse a mão para mim eu devolveria a ofensa num tabefe surdo direto nos culhões, e assim o faria menor que a menor das mulheres, tão pequeno que haveria de procurar a própria mãe e se esconder entre as pernas dela, implorar para galgar seus meios e volver ao útero. Dentro desses muros eu não sovo a massa do pão, não sou primitiva, não sou forte. Quero mais é chorar dia adentro, até todo sal varar do corpo e do corpo varar o mar. Meu intento máximo aqui é expulsar da pele os perfumes e sucos até deixar de ser mulher, quiçá gente, quedar objeta, abjeta, do jeito devido que nos ensinaram – palco vazio, por detrás, um cenário colorido, pintado a esmalte de unha, pincéis mínimos a lamber concreto, paisagem com ar embotado, vento só nas cercanias, flores de plástico enfiadas na terra, terra asfaltada. Não te dá vontade de chorar?

Nem sei mais desse negócio de chorar, acho que o mar vazou dos olhos ainda na meninice. Agora estou toda terra por dentro, só farelos e rachaduras, tem água aqui não, menina. Mas não digo que às vezes não me dá faniquito, isso não posso, porque, na marcha para o pátio, quando o concreto cede lugar ao céu, umas troçuras sobem pela minha garganta, acho que o estômago teima em deglutir o que restou do tecido dos sonhos, transformá-lo em ácido mal-cheiroso. Assim queima a fogueira de dentro. Nessas horas me acometem uns arrotos d’alma, mesmo, então fico concentrada em tentar chorar, e até choraria, juro, mesmo perigada de apanhar, mas a coisa é que não consigo lembrar da lágrima, do molhado e da mornidão.

Uma vez ouvi a história de um homem que não sabia chorar, que fez passagem pela terra esvaziado de lágrimas. Esse homem, além de não saber chorar, só dava conta de respirar em suspiros, coisa mais custosa, num gemido mouco, de dor de barriga profunda. Quando suspirava, dizia assim: “Mundo velho”, de um jeito todo longo, macio de conhecimento, como se fizesse contabilidade da idade da terra em suspiros. Aquele lamento era uma judiação muito grande para com o pobre homem, então as pessoas tinham mais dó dele do que de quem liquefazia malquerença nos olhos. Ele ficava constipado de tristeza. As gentes da vila em que o homem morava diziam que ele era o maior entendido da idade de Deus, e que se pôs triste-definitivo porque o criador nosso ficou gagá numa hora assim escura, justo quando o bicho-homem resolveu amontoar a humanidade em vagões descarrilados, que se lançam em direção a um cu celestial, o grande devorador de esferas. No entendimento dos filósofos que visitavam o homem a fim de examinar a falência múltipla dos órgãos do chorar, ele havia ficado constipado de lágrimas porque era inteligentíssimo e, na cegueira de um palpite, adivinhara que os problemas do bicho-homem se agravaram quando ele se descobriu órfão de Pai. Essa orfandade era coisa das mais tristes, porque o bicho-homem estava necessitado mesmo de uns safanões corretivos. Atravessava infância custosa e dava mostras de crueldade para com os animais outros, esticava as pernas num sinistro resfolegar e girava de braços abertos, numa solidão-sentença que só o tornava cada vez mais capacitado para a ruindade.

Tu tem um jeito dificultoso de dizer as coisas, mas eu gosto da história do homem constipado de tristeza, nem sei se é porque é uma boa história ou se porque aqui dentro qualquer coisa que a gente fala sobre o lá fora fica adornada de beleza. São poucas as mulheres que querem falar da lágrima – elas sabem que ficar chorosa é sina de encontro com a Providência. Agora que te arranharam os braços e escureceram a boca tu também se considere avisada, viu, menina, saiba que, se chorar na frente das mulheres de muita estrada, a malquerença delas para com você fica justificada, quiçá capricham na sova com apoio geral. Também fique certa que da próxima vez que tu inventar peleja eu não me meto, não senhora, porque se a moça é branca, arrota prata, inventa de reclamar as dores noite adentro, estraga o horário menos dificultoso do dia com um berreiro dos infernos e ainda por cima pechincha piedade a gente entende que ela escolheu para si a carta pior do baralho e deixa o jogo seguir. A partir daí tu firma compromisso com a judiação, e em casa do Arrenegado ninguém toca campainha.

Por que não deixam a gente chorar aqui?

As mulheres de muita estrada ficam danadas da vida de ouvir estardalhaço das novatas, elas estão aqui há tanto tempo que correm risco de endoidar de raiva. Mas eu penso mesmo que as gentes todas da penitenciária são constipadas de choro, então a rolha que contém o mar em nós periga escapulir a qualquer momento. Coisa pouca: um PLOC bolhoso e pronto, a ordem das coisas escorre pelo ralo, todas desembestam a reclamar dores e ninguém se encarrega das sovas e correções. Daí só resta dizer: Foi-se o tempo em que dava para olhar o céu e farçar felicidade. Aqui a gente é usuária de faz de conta, e pouco importa se tecemos teias acetinadas e nos deitamos nelas feito insetas bobinhas, à espera de bicho maior que nos tome para refeição. Para a sobrevivência geral – escute isso que te segredo – necessário mesmo é empurrar as fantasias goela abaixo e travar a mandíbula. Todos os dias faço de um tudo para não cair na bestagem de aporrinhar outras mulheres com os sonhos-memória que me invadem as pálpebras, esperto é quem emudece riso e aborta lamento. Então, menina, coloca na cabecinha sua que a chance de afogamento geral em lágrima aumenta se ouvirmos os gritos umas das outras, porque dor de mulher desponta num agudo parecido. A tristeza sua carrega um pouco da minha, percebe?

Qual é o seu nome?

É Chica mesmo.

Disseram que você é a moça que trabalhava naquela escola de miúdos e endoideceu no noticiário, deu com o cabo de vassoura nas janelas e fez chover vidro. E foi?

E foi.

Como é isso de provocar azia nos homens que decidem a vida nossa, os gigantes modernosos, senhores de gado humano?

Quando cutucaram as minhas costelas com os bicos de armas compridas e me empurraram portão adentro não demorou até que as gajas daqui me reconhecessem do fuzuê da televisão. Ficaram muitíssimo impressionadas, porque elas todas tiveram os crimes e sentenças silenciados pela mídia, estavam acostumadas a desconhecer os rostos que falam conosco nas telas negras. A maioria foi enquadrada porque expulsou os filhos da barriga, descuidou deles durante a infância, sapecou a pele dos miúdos em surras e safanões ou até os entregou à sorte bichada do abandono e seguiu caminho desimpedida – ofensa máxima que quem nasce com uma racha entre as pernas pode cometer. Tudo isso é condenável aos olhos da lei, mas eu cometi ofensa agudésima, a gravidade da minha piração foi tanta que te adianto uma coisa: por mais destrambelhadas que sejam as gentes daqui, poucas atravessaram os portões do presídio dentro de camisas de força. Fui a primeira a curtir delírio durante uma faxina e a sapecar a pele dos patrões de cortes, ninguém fez a sanha das gentes ao redor do país como eu, porque conheço a curiosidade para o mal falado, e sei que famílias inteiras espreitaram o meu endoidecer com os olhos presos no brilhoso da televisão na hora da janta. Eu fui o aperitivo oficial. Aceita um caviar de ovas de Chica, madama?

E por que te acometeu o delírio quebrador de vidros?

Dessas coisas a gente desconhece causa certa, motivo de piração é como uma lebre rajada que dá saltos altíssimos e se embrenha no mato seco da memória tão cedo pressentimos o seu assanhar na terra – predador nenhum dá conta de erguê-la pelas orelhas, examinar-lhe os pelos, os olhinhos sanguinolentos. Não se ache esperta por querer saber da minha piração, porque os enxeridos todos repetiram a tua pergunta, disseram que eu tinha birra com os miúdos e com os professores, pediam que eu falasse da minha malvadeza, da vontade de sapecar as gentes com cortes profundos. Quando eu disse que não foi por malvadeza que explodi as janelas da escola faltaram devolver o cabo da vassoura na minha fuça, evocaram os nomes piores de todos, rogaram pragas mais velhas que o mundo, foram criativos mesmo para me miserar. Agora que o susto de me descobrir demônia no juízo das gentes já amansou, penso que quebrantar a primeira vidraça foi algo na ordem de puxar o ar para dentro das narinas, artimanha para não sufocar, dessas coisas que a gente faz sem entendimento, porque delas é o corpo que sabe melhor, causa de si.

Acho que eu entendo isso de a razão ser retardatária do corpo em assuntos d’alma, mas só entendo porque antes senti. Fui vítima de um endoidecer violento como o seu, mas o meu cabo de vassoura foi um cano de metal. Ele foi a maneira que eu encontrei de desarrolhar sufocamento, de me livrar da morte em vida. Mas o meu respirar foi burro, fiz estardalhaço com os pulmões e não pensei me castigariam pela recusa em obedecer. O meu respirar me trouxe até aqui.

O que tu fez? Rumou com o cano de metal na vitrine de uma loja grã-fina? No duro do concreto? No pára-choque de um carro? Na cabeça de um homem que te miserou? Que te cantou amor e desceu o cacete nos seus meios tão cedo tu baixou a guarda, tão logo tu desembestou a querê-lo mais que tudo, mais que a si?

Eu rumei com ele na boceta.

Pra fazer gemido?

Não, pra desfazer barriga.

Ai menina, credo. Diz essas coisas não. Sou conhecida da dor de uma racha miserada, isso sou, mas essa sua história é de um mal-estar do corpo inteiro, porque faz a gente estender as pequenas alegrias num varal compartilhado – branquinhas e perfumadas, alinhadas diante do beijo do sol, as nossas alegrias – só para fazer chover bosta sobre elas.

Nem sei como me acometeu o faniquito de rumar com o cano no mais fundo de mim, mas te adianto que a vontade foi coisa do Imperioso. Por isso acho que, na hora da sanha, lembrar a mim mesma da capacidade do cano de fazer estrago de morte teria sido de uma inutilidade completa. Foi uma espécie de sonho-tremedeira, sabe, Chica, desses que trazem alívio para dentro da gente quando faz manhã no céu. Mas o cano era de verdade, e as minhas mãos estavam justificadas na quentura, como se durante todas as madrugadas elas não tivessem feito outra coisa além de sovar a massa do pão, agentes lunares. O sangue desceu pedaçudo, eu tentei limpar as melecas, para não manchar em definitivo o tapete preferido de vovó, o mesmo sobre o qual ela cantou morte. Fui testemunha de um ziguezaguear violento de paredes e móveis. Antes que tivesse a chance de me levantar para apanhar os panos úmidos, provei do molhado do chão com a face.

Teve medo?

Nem tanto, tive foi pena da Ana, que me encontrou com os interiores para fora, o vestido embolado acima da cintura, um trânsito terrível a vazar por entre as pernas. No hospital eles me costuraram por dentro, disseram que eu tive fôlego para levar duas vidas ao encontro da bocarra dentada do cano – a minha e a do girino que me habitava o ventre. Mas só consegui consumar uma morte, e a sombra dela incidiria sobre o meu viver – adiantaram –, para que eu tivesse em mim lembrete constante do crime, e se a memória não me encontrasse no escuro definitivo da madrugada se faria visível quando do céu vazasse luz e eu abrisse os olhos, enfim. Você já emprenhou?

Já.

Aliciamento?

Amor.

Amor de chamar os pássaros a mergulhar profundo, de perdoar as feiúras ardidas das ruas, de intuir os temperos de uma quiche só de olhá-la, de devolver ao cinza das passarelas as cores primeiras, de farejar os transeuntes com curiosidade canina, de pressentir farelos de pólen nos canteiros da cidade e espirrar de alegria antecipada, de transver aleluia nos agudos claustrofóbicos das filas, no andar degringolado das pombas, nos sorrisos enegrecidos das gentes, nos braços-gravetos picados de agulhas, erguidos num clamor sem fim, numa prece muda, escura, recortada contra um dia branco? Esse amor?

Não. Amor de quebrar janelas.

Hein?

Eu o vi.

A quem?

Ele deixava o filho na escola. Um menino com olhos escuros, de cascalho. Também tinha a mandíbula asteca, diviníssima. Pés de pato.

Por isso explodiu as vidraças?

Já fui conhecida de uma casa de vidro. As janelas ocupavam o espaço quase todo das paredes. Elas eram altíssimas, impecáveis, ostentavam marca nenhuma de dedo, mancha de terra ou lastro de chuva. As empregadas da casa estavam sempre empertigadas dentro dos uniformes, a esfregar panos umedecidos contra as janelas, galgavam escadas dobráveis até o último degrau e esticavam a coluna num tremor de corpo inteiro. Já testemunhei algumas despencarem como frutas maduras e darem direto com as ancas no chão encerado. Nessas horas começava um fuzuê doido, algumas choravam de mágoa, abraçavam braços e tornozelos, espalmavam as mãos sobre os narizes, para não manchar o tapete violáceo da sala, mas fazer o quê, se as janelas precisavam ser limpas e elas empunhavam os panos com pertencimento? A sanha dos moradores da casa de serem vistos pelo lado de lá era tanta que não criaram costume de olhar para fora – estavam certos que uma cerca altíssima percorrida por veios de eletricidade seria suficiente para desencorajar visitas inesperadas, vindas de partes remotas da cidade, lugares nos quais casas de vidro existiam somente dentro dos televisores, e onde os habitantes das casas-vitrine também seriam observados sem a intenção de observar. Às vezes era possível ver Rafael entre cômodos, a beliscar frutas sem casca, fatiadas, com um garfo minúsculo ou a mergulhar na piscina olímpica.

Quem?

Rafael, aquele que me meteu a jeba até espirrar filho em mim.

Por que você não entrava na casa para ter direto com ele?

Ele sabia que eu estava de barriga e não queria ter comigo, já havia dito aos pais que eu tinha farçado o envolvimento nosso, espalhou certeza que eu tinha sanha de estirar o corpo escuro nos tapetes de camurça e me lançar no mais fino viver, esquecida que o meu simples andar naquelas bandas era motivo de conversa cochichada, e que os vizinhos todos teriam faniquito caso me vissem através dos janelões da casa, a cutucar lichias sem casca com garfos minúsculos enquanto mulheres de pele mais clara que a minha despencavam de escadas dobráveis. O amor por Rafael – sentimento maior do mundo, engolidor de gentes – misturou-se a uma raiva de fazer brotar lágrima, como se ele me beliscasse a pele a todo minuto, do jeito próprio que costumava fazer quando queria me judiar no quarto.

Você rumou com um pedaço de pau nas paredes da casa dele, do mesmo modo que fez na escola de miúdos?

Eu não queria tirar de Rafael o teto, menina, queria só que ele reparasse em mim, no meu sorriso grande e no meu cabelo duro, que me olhasse com olhos de cascalho e viesse ter comigo, e então reparasse que o nosso filho já fazia caminho visível sobre a minha pele, que era possível fantasiar com as batidas aceleradas de um coração miúdo, de pássaro. Mas ele teimava em desviar os olhos de mim, não importava o quão próxima da cerca elétrica a minha vigia se desse. Então decidi que, se Rafael não queria ter comigo, ele não teria. Ao chegar em casa, fiz estardalhaço com dona Eulália até que ela se afastasse do baú de tecidos e eu pudesse me debruçar sobre a riqueza maior dos dias que a miseravam à míngua de recompensa, contabilizados pelas batidas da máquina de costura, coração oxidado. Com recortes de papelão, gesso, botões coloridos e estamparia das mais obscenas, eu inventei anatomias outras, rostos para equilibrar sobre o meu. No dia seguinte à invenção das máscaras, desci a rua de Rafael com a cara eclipsada por uma fuça babilônica, esmaltada por um azul absurdo e festejada por talheres de prata, besouros mortos e cascas de tangerinas. Para garantir que ele visse a mim e ao nosso filho, assim que estacionei a carranca carnavalesca diante do portão, arranquei do corpo a roupa e, com as vergonhas a balançar diante das gentes da vizinhança, chamei por ele.

Endoideceu, foi?

E foi. Saiba que esse endoidecer purpurinado me deu o nome de ‘preta maluca’ nas bocas gerais, mas foi ele o responsável por me livrar de um julgamento como o das mulheres ditas sãs, que são enjauladas sem mas, e encontram tanta ruindade dentro de lugares agrestes como esse que custam a sair de cana sem perturbações maiores que a falta de pudores. Pois bem, as crianças que zanzavam na rua foram todas postas para dentro de casa pelas empregadas, a mãe de Rafael mijou as calças quando se atentou para a minha presença e trotou ligeiro para longe das vidraças, os cachorros deram de latir alucinados, sensíveis aos humores da vizinhança. Alguns miúdos, contrários aos terrores propagandeados pelos pais, divertiam-se com o colorido da minha máscara e davam de rir descompensados, pediam aos adultos para ir ter comigo, ao que eles passavam as chaves nas portas e travavam as janelas, certos que deixá-los correr ao meu encontro seria sentença de se mudar para longe de uma rua assim florida, com gentes de sorrisos fáceis e casas modernosas. Aqueles que não se ocupavam de chamar a carrocinha humana endossavam a vaia geral, da qual Rafael se ausentou, porque preferiu espiar a bandalheira por detrás das cortinas fechadas do quarto. Quando me seguraram por trás e jogaram uma toalha sobre as minhas vergonhas fez – finalmente – silêncio na rua. Então eu ri.