Música garage, festivais de música… Um ambiente sem preconceitos e igualitário, certo? Errado. Por mais incrível que possa parecer, as meninas da banda argentina “Las Fantásticas Pupés”, que faz um som eletrizante misto de psycho/garage/yéyé (estilo de música pop que surgiu na Europa nos anos 60), costumam enfrentar muito preconceito na cena musical de nossos hermanos vizinhos.

“Nós tocamos em uma cena vintage, surf, garage, onde somos as únicas meninas. Então, no começo, tínhamos que provar que sabíamos música, declara Sol.

Mesmo com oito anos de estrada, Lucy diz que, não raro, elas chegam em shows em que a organização quer colocá-las para tocar primeiro, sendo que algumas bandas têm bem menos estrada do que as chicas. Ou, para tristeza delas, ouvem perguntas como “você precisa que eu ligue os cabos?’’ .

“Las Fantásticas Pupés’’, de Buenos Aires, vieram ao Brasil para participar do Girls Rock Camp 2017, e aproveitamos para conversar com elas num dos shows que fizeram em São Paulo. Nesse dia, se apresentaram com a formação de “Puperelles’’ — já já vamos contar o porquê desse nome.

A banda começou entre amigas da mesma faculdade em 2009 e conta com Sol (baixo e voz), Vero (teclado e voz), Lulú (guitarra e voz) e Lucy (bateria). Em 2013 elas vieram fazer shows no Brasil e conheceram a banda paulista “Parallèles’’, ambas do mesmo selo Rastrillo Records .

“No nosso estilo de música tem poucas bandas de meninas, então, quando escutamos as Parallèles, encontramos as irmãs perdidas, brinca Sol.

Após esse match das bandas e o término da banda “Parallèles, que toca pontualmente em alguns eventos, Andréia Crispim, baixista, da banda paulista, começou a tocar com as “Las Fantásticas Puppes’’ — é quando acontece essa conexão de países que elas se apresentam como “Puperelles.

Maternidade no rock’n roll

Com um neném de 1 ano e 2 meses, Lulu já consegue enfrentar as estradas e agendas de shows, pois tem um marido que divide com ela as tarefas. Mas Lulu e Andréia (que também têm filhos) fazem coro ao afirmar que se sentem julgadas por terem uma criança e saírem para tocar.

“Se você é mulher todo mundo pergunta onde e com quem sua filha ficou. Mas, se é homem, essa pergunta nunca existe. Tem que ser muito forte para encarar os julgamentos, pois muitas pessoas criticam que você vai saia à noite para tocar e deixar os filhos, desabafa Andréia.

Fica a dica

“Las Fantásticas Pupés’’ deixa o recado para que as meninas não deixem que a sociedade nos torne competitivas.

“Já ouvi algumas vezes homens falando que ouviram outra banda de meninas e dizendo que a nossa é melhor. Esse não é o caminho, não temos que competir, não podemos deixar que os homens façam isso com a gente, argumenta Sol.

Lucy deixa a dica para as meninas que querem tocar, que não precisam  ser um “Jimmi Hendrix para tocar. “ Você pode errar, não precisa ficar tímida, o importante é se divertir com as amigas , estimula Lucy.

100% espanhol

Nas letras das músicas, as meninas optaram desde o começo por usar a língua materna, tendo no começo algumas em francês, mas logo assumindo 100% o espanhol em todas – com a exceção de uma em português, que elas gravaram cover das “Paralleles.

Elas contam que é trabalhoso conciliar a rotina pessoal e a música, mas o resultado vale a pena. “Moramos em diferentes lugares de Buenos Aires, trabalhamos muitas horas, pegamos ônibus, trem, táxis, mas nada como tocar como outras meninas, daí tudo faz sentido, afirma Lucy.

 

Las Fantásticas Pupés em show no Girls Rock Camp Brasil

GIRLS ROCK CAMP – BR 2017

No segundo ano participando do Girls Rock Camp Brasil, as meninas dizem que foi muito revelador  terem conhecido esse projeto há dois anos, quando vieram pela primeira vez e ficaram com a ideia fixa de fazer algo na Argentina.

“Após a experiência do camping ano passado, começamos com o projeto Chicas Amplificadas: um projeto de um dia em escolas públicas da periferia, onde as meninas que nunca tocaram aprendem musicas do Bikini Kill, Joan Jett…  Além disso, as meninas têm oficinas sobre defesa pessoal, stencil, entre outras”, conta Lucy.

E não para por aí: nas férias de 2018, elas pretendem lançar a 1ª edição do Girls Rock Camp – Buenos Aires. “A ideia do camping é maravilhosa. Enquanto mulheres na música, tivemos que aguardar muitos anos para nos sentirmos seguras ao tocar. Já as meninas que frequentam têm 7 ou 8 anos e já estão tocando sem preconceitos e mais livres, afirma Lucy.

Sol emenda que, depois do primeiro camping, se sentiu mais livre e segura para subir aos palcos e percebeu que, com essa troca de experiências, sensações que achava ser só dela, na verdade, são sensações de diversas meninas.

“Trabalhar com outras mulheres, faz nos sentir mais fortes, complementa Lucy.

 Pra dançar onde estiver!

Escute o som das chicas:

Novia Serial – Maio 2016
Toma 1​.​.​. 2​.​.​. 3​.​.​.​! – Dec 2016

 

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