**Errata do vídeo: Onde se vê “Carlito Azevedo”, o correto é “Evandro Affonso Ferreira” e vice-versa. Em breve, publicaremos o vídeo corrigido.


 

 

Em um dos maiores prêmios da cultura nacional, organizado pela revista Bravo!, os indicados na categoria “Literatura” são três homens brancos, escolhidos pelos outros três homens brancos do júri. Coincidência? Fica difícil acreditar em tamanha casualidade, dado que, nas oito edições anteriores da premiação, todos os ganhadores da categoria também foram homens brancos.

Não se trata de questionar a qualidade literária dos premiados, nem a capacidade crítica dos jurados, mas de apontar essa estrondosa falta de representatividade de gênero e raça em um espaço tão importante para a literatura nacional — que já não conta com tantas iniciativas para sua valorização. Afinal, será mesmo possível que não houvesse uma mulher negra ou branca ou um homem negro sequer que merecesse ter seu trabalho reconhecido pelo Prêmio Bravo! de Cultura ao longo de tantas edições?

Já falamos sobre os efeitos perversos da desigualdade de representação e ocupação dos espaços culturais no texto de inauguração desta coluna. Quem perde não são apenas as escritoras e os escritores que deixam de ser valorizados, mas nossa sociedade como um todo, que acaba lendo sempre os mesmos autores e sendo influenciada pelas mesmas ideias ano após ano.

As manas das letras já estavam de olho nos rumos do Prêmio Bravo! há tempos e esperavam alguma mudança para a edição de 2017. Quando saiu a lista de indicados, a poeta Ana Rüsche publicou um texto em uma rede social apontando a ausência feminina. A publicação acabou reunindo diversas escritoras e chegou até um dos três indicados, o poeta Carlito Azevedo. Diante disso, o autor declarou que, por mais que admire as pessoas envolvidas na premiação — tanto os jurados, quanto os outros dois indicados –, não pretendia participar dela nem aceitar o prêmio, caso fosse o vencedor, como forma de protesto.

A entrega foi feita nesta quarta-feira (29/3) e Evandro Affonso Ferreira foi o ganhador de Melhor Livro. Curiosamente, Literatura é a única categoria na contramão da premiação. O evento foi apresentado pela cantora negra Liniker, que fez questão de lembrar que é transsexual em vários momentos, e pela cantora e poeta Karina Buhr. Houve mulheres premiadas nas categorias Audiovisual, Dança, Música Erudita e até Instituições Culturais. Muitas falas de agradecimento e das apresentadoras levantaram a importância de valorizar o trabalho de mulheres, negras, negros e transexuais, e Elza Soares foi escolhida como Personalidade do ano. Por que o meio literário parece permanecer estático na misoginia patriarcal?

Enquanto isso, a escritora Maria Valéria Rezende articula um encontro nacional de literatura feita por mulheres ainda este ano em João Pessoa — o grupo do Facebook criado para organizar o evento já reúne mais de 2 mil escritoras. Já a poeta pernambucana Micheliny Verunschk propõe a criação do Prêmio Bravíssima!, para valorizar a produção feminina.

Nesse mesmo anseio por voz, as poetas Luiza Romão e Maria Giulia Pinheiro me convidaram para realizar o vídeo-protesto que postamos aqui hoje. A luta é longa, mas juntas a caminhada fica mais leve! Seguimos.
 
 


Se você é uma escritora ou tem alguma sugestão de autora para apresentarmos, envie e-mail para bruna.escaleira@azmina.com.br e nos conte tudo 😉

***Você sabia que pode reproduzir tudo que AzMina faz gratuitamente no seu site, desde que dê os créditos? Saiba mais aqui.