Quem senta no divã de hoje é a Andréa Romão.

“S empre me considerei uma moça independente, que não tinha necessidade de viver em função de homem nenhum e achava que, por mais que eu quisesse o pacotão casar+filhos+férias na praia, minha vida não girava em torno disso. Por esses motivos achava que coisas como relacionamentos abusivos e sexo por obrigação jamais fariam parte da minha história. Mas o que eu não sabia é que o relacionamento abusivo não é só um homem que desce um tapa na sua cara e o sexo por obrigação não é apenas quando alguém arranca sua roupa e força o caminho pra dentro de você (isso aliás, se chama estupro).

Essas coisas às vezes vêm disfarçadas, embaralhadas com outras que confundem a gente. Quando elas chegam misturadas com beijos, abraços e apelidos carinhosos, a gente vai deixando passar, incapaz de conseguir enxergar o que realmente está acontecendo.

Quando sexo deixou de ser teoria e se tornou prática pra mim, eu simplesmente não fazia ideia do que fazer. Então achei natural deixar que o outro conduzisse esse barco que eu ainda não tinha preparação para remar. Ainda no meu mundo das ideias, eu achava que sexo tinha que ser algo que fosse bom para os dois lados e que, se eu não estivesse me sentindo à vontade com qualquer coisa, era meu direito interromper o que estivesse acontecendo. Coisas tão fáceis de pensar e tão difíceis de fazer.

Em primeiro lugar era muito complicado pra mim saber se eu estava gostando ou não. Era como se alguém tivesse me oferecido um tipo de comida que eu nunca provei na vida, mas todo mundo já tinha provado e dizia que era incrível. Ainda por cima quem me dava essa comida — em garfadas direto na minha boca  — era alguém por quem eu tinha algo próximo da adoração. O gosto da comida era muito estranho, às vezes muito salgado, muito picante ou muito doce, mas, como todas as pessoas do mundo diziam que era maravilhoso, achei que era meu paladar que tinha que se adaptar e continuei recebendo as garfadas calada.

Eu olhava para casos e histórias de moças que se deixavam ser conduzidas até um quarto e, então, quando queriam voltar atrás não lhes era permitido. Pra mim, uma cena dessas devia ser algo violento e dramático. Eu não via a relação entre aquilo e o que eu vivia, porque o meu “não” era silencioso e vivia só na minha cabeça. Eu achava que “não estar muito afim” não era motivo pra dizer não.

Tentei conversar com minhas amigas, afinal de contas tínhamos muita intimidade. Mas todas nós havíamos iniciado a vida sexual há muito pouco tempo, então podíamos trocar nossas experiências, mas elas eram muitos parecidas  — e confusas.

Só anos depois que consegui entender como o início da minha vida sexual havia sido cheio de momentos de maus-tratos. Minha vergonha e falta de experiência me levaram a me entregar ao outro sem questionar.

O que não percebia naquela época é que aquele barco que eu achei que deslizava em água calma na verdade vivia atravessando tempestades. E meu companheiro de barco tinha muito pouca paciência com uma marinheira de primeira viagem.

Eu não olhava para meu próprio prazer  —  e na verdade eu nem sabia como fazer isso. Quando tentava procurar alguma coisa a respeito na internet, me deparava com artigos do tipo “como enlouquecer seu homem na cama”. Entendi que o prazer da mulher consistia em ver o homem tendo prazer. E fim. É claro que eu tinha que passar por um período de amadurecimento sexual sozinha e me descobrir sem depender de livros, artigos ou opiniões de terceiros, mas teria sido bom encontrar outras vozes que dissessem que eu podia ser mais do que um objeto sexual.

A coisa mais valiosa que aprendi com toda essa história é que eu também importo e eu também tenho o direito de não querer. E que “sexo por obrigação” também pode ser uma cena silenciosa protagonizada por alguém que você ama e em quem confia. Esse tipo de sexo por obrigação, coação ou insistência muitas vezes vem disfarçado de “saudade” ou de “é que você me deixa louco”. Mas esse tipo de coisa não cola mais comigo.

Sinto pena das meninas que vão iniciar a vida sexual agora e vão cair nas mesmas armadilhas que eu. Mas acredito que, quanto mais falarmos desse assunto, menos meninas irão repetir os nossos erros.

E foi tentando ajudar essas meninas  — e meninos também  — que criei um canal para falar de sexo e sexualidade, o Kama Sussa.

Aprendi a não entregar o remo na mão da outra pessoa e ficar calada vendo o barco deslizar. Agora tenho voz e remo junto.

Andréa Romão


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