No especial “Vozes da Ocupação”, damos espaço para as secundaristas do ensino público contarem o que as inspirou a lutar por uma educação melhor.

Rovena Rosa/Agência Brasil

Quando comecei a me revoltar, a TV passou a ficar dias sem ser ligada. “Um bando de vagabundo maconheiro”, era o que eles falavam.

Essa minha revoltada vem de muitos anos, desde pequena eu nunca entendia o motivo das pessoas não fazerem nada, meu senso de justiça sempre foi muito forte. Mas foi só no começo de 2016 que eu realmente entrei para a militância. Dois amigos muito queridos me apresentaram ainda mais esse mundo.

Ocupamos nossa escola em uma quarta-feira. Chegamos às 5 horas da manhã, ainda era noite e o guarda vigiava a escola. Meus amigos, os secundaristas, dois, cinco, doze e de repente, mais de quinze secundaristas na madrugada que iríamos começar a revolução!

Entrei na frente e logo colados meus companheiros vieram, aproveitamos a abertura do estacionamento dos professores. Expliquei a situação para o guarda, que de cara ficou assustado, mas conforme as horas foram passando ele começou a entender a verdadeira razão de estarmos lá.

Nos organizamos, arrumamos os cartazes, colocamos cadeados e logo em seguida os professores e os alunos começaram a chegar. Fiquei bastante nervosa, era algo grande, sabia eu.

A revolta de certos professores foi de quebrar o coração dos secundas. Quando todos se reuniram, logo explicamos nossos motivos, o que era a PEC, MP e suas consequências.

Convidamos todos a entrarem para começarmos a dizer o que rolaria dali pra frente. Ninguém foi proibido de entrar na instituição.

Nosso primeiro dia foi difícil, não fiquei um segundo sequer parada. Na primeira noite, não dormi, fiquei em claro pensando o tamanho do orgulho que fiquei de mim por fazer parte de algo grande e de ser líder de movimento.

Já era tarde e não havíamos jantado, um dos funcionários da escola pegou o gás da cozinha dos funcionários, colocou dentro do carro e levou embora, alegando que ele que pagou pelo gás. Ligamos para o diretor e nada foi resolvido, conseguimos suco e sanduíches e aí então jantamos. Depois, para relaxar, fizemos uma roda de conversa e muita música para aquecer nossos corações.

Muitos levaram barracas e sacos de dormir e conforme o cansaço foi batendo os secundas foram indo dormir, já na primeira noite organizamos o horário em que os aulões começariam, não consegui fechar o olho a noite inteira.

Após dias de ocupação, PMs invadiram a escola e o mesmo funcionário que pegou o gás da cozinha dos funcionários ameaçou um dos nossos.

Tivemos inúmeros aulões, muita música e muita poesia, dividíamos as tarefas e vivemos em plena harmonia, lavamos os banheiros todos os dias, tivemos o apoio da comunidade e dos pais. A mídia golpista sempre deixava claro que estávamos “invadindo a escola”.

Viramos uma família, no dia em que desocupamos chorei sem parar.

A PM nos deixou sem opções, não deixaram mais nossos amigos entrarem, saímos calados em forma de protesto.

A maioria das linhas de frente das ocupações foram de minas, isso é algo muito forte, como a raiz de uma árvore. Como resultado de tantas minas fortes, aconteceu muitas rodas sobre o feminismo, machismo e outras diversas coisas que sofremos diariamente.

Nós, minas, fizemos isso para termos mais espaço na política, para verem que as minas também têm direito de voz. Acho que nossa luta está ganhando uma nova forma, nós minas periféricas indo para as ruas e dizendo que não, que o Estado não tem esse direito em cima dos nossos corpos!

Acredito que estamos tendo forças graças ao espaço que estamos recebendo, quem acompanhou as manifestações viu a nossa força, como fomos linha de frente.

Diariamente, a ausência do machismo foi mantida, nos respeitávamos muito, todos iguais. Até quando íamos dormir tudo ficava tranquilo, quando um precisava de ajuda todos corriam e faziam sua parte.

Viramos irmãos de luta, todas as noites era algo novo: oficina, abraço grupal, mil sentimentos que já não consigo descrever em mim.

Foram noites com sede, passando muito frio e sendo ameaçados por uma semana.

Os secundaristas são o futuro, acredito muito nisso e sei que não foi em vão tudo que fizemos. Foi algo incrível para nossas vidas.

Só tenho que agradecer por cada instante, cresci como cidadã, como pessoa e como mina. Gratidão e viva a revolta dos estudantes!

 

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