Vyacheslav Polonski Oxford Internet Institute

Tradução livre: Elisa Torelly

Foto do livro “Gênero e trabalho no Brasil e na França”

O progresso humano é curioso. Foram necessários menos de 40 anos para colocar o homem na lua, mas faltam 170 anos para colocar uma mulher na cúpula de diversos locais do nosso planeta. De acordo com o mais recente Relatório Global de Desigualdade de Gênero do Forum Econômico Mundial, esse é o número de anos que levaremos para pôr fim à distância que separa homens e mulheres quanto ao aspecto econômico. Colocar fim à desigualdade de gênero em termos políticos levará ainda mais tempo.

É inquestionável que o estágio da paridade de gênero no mundo do trabalho atual seja alarmante. O progresso parece estar a caminho em algumas questões que envolvem a igualdade, como a discriminação e o assédio, mas aspectos como o desenvolvimento na carreira apresentam pouca ou nenhuma melhoria. Por exemplo, apenas 3% das 500 maiores empresas do mundo, listadas pela revista Fortune, têm uma mulher como presidente. A parcela de mulheres nas diretorias das principais empresas com ações na Bolsa de Valores de Londres, por exemplo, permanece estagnada nos 12%. E um quarto de tais companhias possuem cúpulas exclusivamente masculinas. Não importa onde você esteja, há incontáveis adversidades que as mulheres enfrentam ao redor do mundo, em se tratando de avanço na carreira.

As empresas permanecem atadas a grupos de liderança que insistem em relacionar as ostensivas desigualdades de gênero a questões de escolha e não de seleção. Propagam a ideia de que a falta de talento feminino em equipes de chefia deriva das “diferentes escolhas” que as mulheres tendem a fazer durante as suas carreiras. Mas é realmente uma questão de diferentes ambições e escolhas profissionais? Ou estamos enfrentando um problema muito mais sistêmico que permeia o conjunto da sociedade?

Um recente estudo da Revista da Escola de Negócios da Universidade de Harvard, em parceria com o serviço de consultoria Bain & Company, encontra significativas explicações para o dramático estado da desigualdade de gênero no mundo do trabalho atual. Um olhar mais atento aos dados indica que, apesar de as mulheres terem igual grau de competência e adequação para posições de liderança, existem sérios fatores estruturais que dificultam o seu acesso aos altos escalões na hierarquia das corporações.

De um lado, existem percepções rígidas que tornam mais difíceis as discussões sobre a paridade no mercado de trabalho. Enquanto mais de dois terços dos homens ouvidos pensam que as mulheres possuem as mesmas que eles oportunidades no trabalho, menos de um terço das mulheres que submeteram à pesquisa possuem essa impressão. Indo além, 80% das mulheres concordaram que a paridade de gênero precisa ser um imperativo estratégico dentro das organizações. Em contrapartida, apenas 48% dos homens estão de acordo com tal afirmação. Esse contraste radical indica uma preocupante lacuna na percepção que cada grupo tem acerca do estágio já atingido em termos de paridade de gênero, permitindo que alguns homens e mulheres vivam em seu próprio universo factual. Tendo em vista as diferentes leituras do problema, não causa surpresa que empresas lideradas por homens se mostrem tão lentas em se adaptar à nova realidade.

De outro lado, há fatores culturais que impedem o processo voltado a diminuir a desigualdade. Em muitas sociedades, há estereótipos arraigados acerca do papel das mulheres como cuidadoras e dos homens como provedores. A referida pesquisa revela que, para 80% das mulheres, esses estereótipos não são mais plausíveis. Pelo contrário, elas afirmam que homens e mulheres são igualmente bons na tarefa de cuidado. Enquanto isso, 77% dos homens acreditam que sua parceira deva ser a pessoa a fazer sacrifícios na carreira em prol da família. No entanto, apenas 53% dos homens dizem estar prontos para fazer seus próprios sacrifícios em favor do cuidado da família. Preconceitos subconscientes como esses persistem, sendo evidente que estereótipos de obrigações atribuídos a cada um dos gêneros não deveriam ser usados como pretextos para impedir o desenvolvimento das mulheres na carreira.

Assim, parece não haver razão convincente para argumentar que a paridade de gênero seja uma questão menor, ou que não deva demandar significativa atenção das equipes gestoras. Pelo contrário, com o fim de efetivamente enfrentar tais desafios, os responsáveis pela administração das organizações precisam agir decisivamente e considerar implementar os cinco passos a seguir listados, voltados a aumentar a igualdade de gênero no trabalho:

Sistematicamente reunir dados para estabelecer parâmetros para a discussão sobre a desigualdade de gênero nos locais de trabalho. Métricas de paridade de gênero podem, de fato, contribuir para um diálogo mais aberto e baseado em fatos, ao invés de em meras especulações.

Mudar a cultura da organização para eliminar estereótipos de gênero associados com programas de incentivo ao equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Isso implica promover trajetórias de carreira flexíveis e neutras em termos de gênero e encorajar ativamente todos os profissionais a aproveitar essas oportunidades.

Modificar o procedimento de avaliação para prevenir desvantagens estruturais para pessoas beneficiárias de programas de equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Ao mesmo tempo, recordar aos líderes das equipes a importância de não penalizar os profissionais que necessitarem de maior flexibilidade.

Seguir procurando candidatos potenciais até a paridade de gênero ser alcançada. Ao invés de implementar cotas rígidas, persistir na busca de ótimos candidatos até que haja um número igual de homens e mulheres no banco de talentos.

Finalmente e o mais importante, estabelecer a igualdade de gênero como um norte estratégico para a organização. Listar compromissos voltados a atingir tal objetivo é imprescindível, porque contribui para implementar uma cultura progressiva na instituição, baseada em transparência e igualdade.

170 anos para acabar com a desigualdade econômica entre homens e mulheres é um prazo que não precisamos aceitar. Somos capazes de melhorar. Martin Luther King Jr. uma vez disse que “o progresso humano não é automático nem inevitável; requer os esforços incansáveis e a preocupação apaixonada de indivíduos dedicados”. Eis a razão para sermos otimistas. Promovendo ativamente a paridade de gênero, facilitando um crescimento flexível na carreira e empoderando mais lideranças femininas, nós seremos capazes de realmente atingir esse objetivo enquanto vivermos.

Fonte: Forum Econômico Mundial