Quem senta no divã de hoje é a Karina Trambacos. 

Karina com as crianças em um dos projetos sociais que visitou na África

“V enho aprendendo que boas experiências devem ser compartilhadas, mas não só com fotos no Instagram. O conhecimento tem que passado adiante para incentivar e servir como um empurrão para muitas mulheres tomarem coragem de cair no mundo. Por isso quis contar aqui uma parte da minha história. Gostaria muito de dizer que sou mochileira por profissão e publicitária por opção, mas é o contrário.

E há um mês voltei da viagem mais incrível que já fiz: passei dois meses viajando por Quênia, Etiópia e Moçambique, sozinha, num verdadeiro mergulho em causas sociais. Sozinha. Isso, no entanto, parecia ser quase uma ofensa a muitas pessoas, na maioria homens.

Foram incontáveis as vezes em que tive que me explicar: afinal, como estava viajando desacompanhada, sem namorado? “Você não tem medo?”, perguntavam. Tenho, claro que tenho. Medo, ansiedade, nervosismo, como qualquer  pessoa – homem ou mulher – em uma situação fora do comum. Mas não dá para aceitar que digam que eu não deveria viajar desacompanhada porque sou mulher.

Um “tabu” que ficou evidente numa reportagem que li recentemente: “Os 10 melhores destinos para mulheres viajarem sozinhas”. Os 10 melhores incluíam apenas Estados Unidos, países da Europa e Austrália. Ou seja, não eram os “10 melhores”. Eram os “10 países mais seguros para mulheres viajarem sozinhas”.
Viajo sozinha desde antes dos meus 15 anos. Hoje tenho 22, e eu gosto de ter meu tempo! OK, há perrengues sim. Uma viagem não é feita apenas de cartões postais, mas a gente se desdobra e resolve! Amo meus momentos, minhas descobertas.
E o que vivi nesta viagem valeu qualquer esforço, me marcou para sempre. Dos diversos projetos de que participei, dois foram especialmente tocantes. O primeiro, no Quênia, em uma escola na periferia de Nairóbi. Pesquisando sobre as lutas femininas na África, descobri que as garotas que residem nas favelas africanas perdem em média 4 dias de aula por mês quando estão menstruadas, não só pela falta de dinheiro pra comprar absorventes, mas por não saberem lidar com seu corpo.

A mochileira com meninas atendidas em orfanato

Foi lá que conheci a Ruby Cup, ONG responsável pelo coletor menstrual na África Oriental e que, além de doar o “Cup”, reutilizável  por 10 anos, ensina as meninas a se cuidarem. Ou seja, um produto sustentável e que empodera essas meninas que vivem numa realidade de gravidez precoce, prostituição e AIDS.

Já na Etiópia fui incumbida de criar atividades num orfanato para meninas abandonadas ou retiradas da família. Meninas que sofreram maus-tratos e não conseguiam falar, outras que tinham crise de raiva ou de choro. Algumas não me largavam por nada. Por mais que aquela situação cortasse meu coração e fosse difícil não chorar nos primeiros dias, tentei transformar esse sentimento em algo que as transportasse daquela realidade.

E, como o universo não falha, em uma tarde, elas me pediram para ensiná-las a dançar balé. Por sorte, havia tido aulas quando era mais nova. Então, entre piruetas e pliés, os sorrisos que surgiam ali transbordavam amor e gratidão. Não só delas, mas de minha parte também.

Na viagem aprendi a dar um passo de cada vez e ficou claro para mim que, se eu escolher viajar com um parceiro, será por prazer, nunca por necessidade ou medo.

Então o que eu posso dizer é: meninas, permitam-se e sintam-se no poder e no comando de escolher onde querem ir, saiam do comum, desse “seguro” ilusório! Não deixem o medo atrapalhar sua vontade de perambular por esse mundão. Arrasem, porque é tudo nosso!

 

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.


Também tem um desabafo para fazer ou uma história para contar? Então senta que o divã é seu! Envie seu relato para liane.thedim@azmina.com.br 

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