Nana Queiroz, diretora de redação da revista AzMina, inaugura hoje a coluna “Observatório da imprensa feminina”, em que ela vai criticar, elogiar e questionar o jeito de fazer jornalismo para mulheres no Brasil.

A Revista Vogue deste mês estampa, em letras garrafais, uma recomendação a suas leitoras: “Boca Fechada”. A gente podia retrucar a mesma frase pra publicação, mas em oooutro sentido.

Querida Vogue, em um país em que oito em cada 100 mulheres (15, se considerarmos também os casos não-crônicos) terá bulimia ou anorexia ao longo da vida, ou você faz bom jornalismo ou segue o lema “em boca fechada não entra mosca”, isso sim.

Vale lembrar que a anorexia nervosa tem taxa de mortalidade entre 5 a 15% dos casos – e, babes, não é homem quem mais tem isso não, é uma massa de 90% de meninas e mulheres.

O que mais incomoda no artigo é a falsa embalagem de “ciência” para distorcer pesquisas respeitáveis de prêmios Nobel como sugestão para “entrar em forma”. Não seria mais interessante a gente ser honesta e dizer que a Vogue, na verdade, gostaria que todo mundo entrasse mesmo é na “fôrma” (essas de bolo mesmo) das modelos de corpos iguaizinhos e magros que eles publicam em suas páginas, limando a diversidade de nossas belezas sob um falso pretexto de saúde?

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Primeiro, ser gorda não é ser feia. Depois, ser gorda não é ser necessariamente obesa. A obesidade é uma doença reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), mas, mesmo entre as pessoas obesas de verdade, cerca de 30% são extremamente saudáveis, como lembra a nutricionista Sophie Deram, doutora em nutrição pela USP. Ela defende uma relação muito positiva com a comida no seu programa alimentar, desenvolvido para gente que tem problemas reais com peso, colesterol e coisas similares.

“A nossa sociedade confunde peso e saúde. Além disso, associa beleza com magreza e, neste pensamento, o foco está somente no peso e em ‘fechar a boca'”, critica Sophie.

“Comer é um prazer da vida. E tirar o prazer de comer é justamente o que faz engordar!”

Bingo! Bruno Gualano, professor da Escola de Educação Física e Esporte da USP que está longe de ser um radical contra jejuns, explica que o que a matéria da Vogue faz é uma má interpretação de estudos muito sérios.

“É preciso muita cautela, porque a ciência anda devagar, e a moda não. Esse é um erro muito comum na área da saúde, porque as pessoas não têm paciência de esperar os experimentos evoluírem, então, extrapolam estudos feitos em ratos dizendo que eles se aplicam a seres humanos”, alerta ele.

No caso do estudo citado pela Vogue, que rendeu a Yoshinori Ohsumi um merecido Nobel de Medicina, ele simula modelos em células de levedura. Não sei vocês, pessoal, mas eu tenho certeza de que meus hábitos alimentares são bem mais complexos que o das leveduras…

Claro que um dia tudo isso pode se converter em coisas incríveis pela busca de longevidade – o Nobel é o reconhecimento disso – mas ainda não. Deixa o homem estudar mais, gente. Se ele realmente quisesse seres humanos fazendo isso, será que não teria escrito um livro de dieta e virado milionário?

“Não é que a biologia dos estudos não esteja correta ou que esses pesquisadores mintam, mas os benefícios de médio e longo prazo em seres humanos não existem, porque não estamos considerando a sociologia e a cultura da alimentação, o fator comportamental”, afirma Bruno. “Por isso, essa visão é muito reducionista e maléfica.”

Tá bom, Nana, mas eu me sinto melhor magra

Perfeito, gata: seu corpo, suas regras. Longe de mim ser a feminista que quer te dizer pra se livrar dos padrões de beleza só pra eu te impor uns novos padrões da minha caixola. Se você quer emagrecer, não há nada de errado com isso. Mas o jejum não fará isso por você.

Pra começar, se jejum deixasse todo mundo com o corpo da Gabriela Pugliesi (beijo pra Gabi, que ela viva o estilo de vida que lhe faz feliz e se sinta bonita como achar que deve, mas que todo mundo saiba que não precisa ser como ela), teríamos um time de modelos Vogue completo no Oriente Médio na época do Ramadã, mês em que muçulmanos praticam o jejum ritualístico. Estava acabada qualquer obesidade entre islâmicos!

Leia mais: De que maneiras você, mulher magra, já me oprimiu

Vou deixar o Bruno te explicar por que isso não acontece:

“Claro, assim que você acabar um jejum de 16 horas, terá emagrecido, porque terá perdido gordura e desidratado. Mas nada justifica o jejum como método de perda de peso do ponto de vista clínico, porque, em seguida, virá uma compulsão alimentar enorme. Não é você: é uma questão adaptativa. Nossos ancestrais faziam essa dieta quando não havia comida suficiente disponível, mas isso levava a seções de alimentação bem robusta quando encontravam comida.”

Entendi. Então eu devo voltar a comer de 3 em 3 horas? Também não. Essa receitinha está sendo questionada pela ciência. Segundo Bruno, a melhor maneira de manter um corpo saudável é diferenciar fome de compulsão alimentar e comer quando tem fome e ponto.

“Respeite seus sinais biológicos. Confie no seu corpo. Isso foi passado a nós durante a evolução, como pode não ser um sinal bom e eficiente?”, questiona ele.

Então jejum é vilão do mundo?

Também não, Absorvêntica (Marilac me colocou este apelido e eu AMEI! hahahaha). O jejum tem sido recomendado para alguns atletas. É assim ó: no dia que ele acordar e for treinar sem comer, o corpo dele vai começar a queimar reservas. Naquele dia, o desempenho dele será menor, mas seu corpo terá encontrado algumas estratégias novas pra lidar com a escassez e será um corpo mais esperto. Isso ocorre porque as mitocôndrias, essas pequenas máquinas de energia que há dentro de cada uma das nossas células, aumentam de tamanho e começam a se “alimentar” de substâncias diferentes do carboidrato.

“Não podemos demonizar o jejum em absoluto e ele tem sido usado na nutrição esportiva. Não para emagrecer, mas para variar o tipo de substrato que seu corpo queima em cada sessão de treino”, complementa Bruno.

A ressalva do professor é: mesmo as evidências que indicam essa operação também são contraditórias e não são inquestionáveis.

E se você não estiver acostumada a isso, vai  se sentir mal: terá enjôo, tontura e até pode desmaiar. Principalmente se for adolescente, criança, idoso ou gestante.

O resumo da ópera? Jejum só se for convicção espiritual ou em casos de atletas de alta performance, sempre em plenas condições de saúde e com aval de um especialista. Nunca porque a Vogue te mandou fazer.

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