Quem senta no divã de hoje é a Jéssica Nóbrega. 

Acervo pessoal

“A conteceu há 12 anos, mas lembro como se fosse hoje. Eu tinha 15 anos e fui à matinê de carnaval com uma prima e duas amigas no clube mais famoso da minha cidade, Mococa, no interior de São Paulo. Elas eram um ou dois anos mais velhas que eu, e já estavam mais acostumadas a sair. Para mim era tudo novo e divertido, então eu estava animada e só queria aproveitar cada minuto.

A festa era no ginásio do clube, e a maioria era de adolescentes, mais ou menos da nossa idade.  Em uma volta pelo salão, formou-se uma rodinha de garotos à nossa volta. Eu nunca havia ido sozinha em um carnaval, mas eu senti na hora que aquilo ali não estava certo. Consegui sair da rodinha e vi que minha prima e uma das amigas também haviam saído. Então nos demos conta que a nossa outra amiga tinha ficado lá.

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Voltamos e encontramos nossa amiga aos prantos no meio da rodinha. Depois de algumas cotoveladas, conseguimos tirá-la de lá, todas nós assustadas. Levamos nossa amiga pro lado de fora e ela nos contou, chorando, que os meninos a cercaram e passaram a mão no corpo dela.

Eu não tenho a lembrança exata de quantos garotos estavam ali e fizeram isso, mas eu lembro muito bem dessa minha amiga: ela media uns 1,60m e devia pesar pouco mais de 40 quilos. Era muita covardia.

O medo da reação dos nossos pais nos levou a um acordo tácito de silêncio. Se eu tivesse contado o que aconteceu, eu não poderia mais ir a outras festas. Meus pais não iam querer que eu me tornasse a presa novamente. Mas na prática seria uma punição — ficaria sem o direito de me divertir. E não falo isso em tom de julgamento. Eles, assim como eu, naquela época não entendiam a dimensão social e cultural do machismo, a cultura do estupro, do assédio. Agiriam como quaisquer outros pais de uma cidadezinha com uma filha adolescente.

Agora, o que os pais dos garotos assediadores fariam se soubessem o que os filhos faziam nas festas? Ainda hoje, penso que eu deveria ter feito um barraco, chamado um adulto e feito justiça.

Além do medo, a culpa nos calou, nos impediu de agir no momento em que aconteceu aquela violência. Somos ensinadas a nos “comportar bem”, a nos vestir de forma “adequada”, a nos “dar ao respeito”. Quando algo dessa gravidade acontece a uma pessoa, ela automaticamente começa a refletir sobre si mesma, e a se questionar qual regra ela própria quebrou que permitisse aquele tipo de situação.

A gente cresce ouvindo que o homem tem instinto e vontades. Você, mulher, tem a carne, é a presa que precisa se resguardar. Ora, então, se o predador chegou até mim, seria por eu não ter me resguardado? Afinal, quem estava passando na frente dos meninos eramos nós. Na época, eu nem sabia o que era machismo, o que era sororidade.

Hoje em dia eu sei muito bem quem eram os vilões e quem era a vítima.

Essa experiência interferiu muito na minha vida, principalmente na fase adulta. Cada vez que eu tinha contato com algum tipo de violência ou assédio eu, imediatamente era transportada para aquele carnaval de 2004.

É triste que a minha experiência seja comum a muitas mulheres. Cada violência que nós sofremos é uma cicatriz que somos obrigadas a carregar pra vida inteira, num mix de sentimentos que transitam entra o ódio e a revolta, e que hoje, graças ao feminismo, não inclui culpa. #UmaMinaAjudaAOutra

 

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.


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