Toda sexta-feira a Revista AzMina publica um capítulo do romance de folhetim “Nascem Flores no Asfalto”, de Mariana Lozzi. Leia os próximos capítulos aqui.

Arte: Eti Pellizzari

Chamei os senhores porque preciso falar sobre um assunto urgente. Tenho na ponta da língua uma denúncia com potencialidade de escândalo. Ela é capaz de destruir empresas, pulverizar empregos, fazer trincar retratos de famílias e acusar falhas na matemática que Deus emprestou aos homens. O assunto, escabroso como adiantei, pode exigir dos senhores noites em claro, assim como é capaz de fazê-los ainda mais afortunados que aqueles a quem acuso, ou tão miseráveis quanto os que limpam suas bundas. Estão prontos? Pois bem, fui roubada. Não, não é a esse tipo de roubo que me refiro, minha bolsa ainda está comigo, a carteira também, o carro está na garagem e, o dinheiro, liquefeito no banco, muito obrigada. Esse é um crime de natureza mais sinistra. Roubaram-me um pensamento. Acredito que um furto dessa dimensão ainda não conhece pena, ou quem não a conhece sou eu. De qualquer forma, sei que acuso um ato gravíssimo, talvez sem precedentes, porque o que levaram estava guardado no interior das minhas orelhas, protegido contra dedos intrusos, no miolo da minha concha-consciência, coisa tão minha que até eu tinha acesso limitado a ela, não podia vê-la por inteiro, existia em sobrevida de sonho, girassol incendiado atrás de cortina de fumaça, peixe-girino envolvido por luva de espuma, um segredo. Roubaram-me um segredo e eu não dei por falta dele até que o encontrei fora de mim, dependurado no corpo da cidade, exposto e vulnerável, fútil, também, de uma palidez anêmica – mas seguramente meu. Não é só isso. Desde o ato hediondo sinto que todas as minhas ideias estão perigadas de sequestro. Quero protegê-las, mas não sei a que cofre confiá-las, já que a minha caixa-forte foi quebrantada por dedos invisíveis e eu não percebi até que o crime estivesse consumado. A segunda invasão pode acontecer a qualquer instante, talvez esteja em curso agora mesmo, enquanto falamos. Preciso descobrir como barrar a entrada dos invasores antes que me saqueiem inteira e queimem as evidências, antes que minha casa-cabeça vire pó. Por isso os chamei aqui.  Roubam-me pensamentos.

Enquanto eu disparava a falar, os homens sentados do outro lado da mesa de mogno trocavam olhares ou levavam as mãos enrugadas até as têmporas. Não me interromperam, porém. Deixaram meu verbo descarrilar no tapete da língua, divertiam-se com minhas denúncias, entregavam-se a uma zombaria educada, como se eu estivesse tão aquém da razão que não percebesse que me tinham como piada, a mim e a tudo que havia sucedido comigo nos últimos dias.

Começou com uma imagem. Sempre começa com uma imagem – a vida, o sofrimento mais caudaloso, os contentamentos que vazam do peito, o desamparo, a morte. Todos esses são nascedouros de imagens. A figura que me assombrou na manhã do dia anterior, porém, não era feita de sonho, mas de concreto. Gravada em uma parede de mais de cinco metros de altura, eu reconheci seu azul macio, as duas linhas que cortavam o primeiro A, o círculo ampliado do O, o sibilar serpentinado do S, o amarelo mostarda. Eu havia criado aquelas duas palavras. São minhas, murmurei, enquanto pedestres cuidavam de desviar do carrinho de bebê.

De volta ao apartamento, tratei de pendurar Leozinho nos braços enquanto sacava o telefone e dizia à babá que pagaria o que fosse preciso para ela tocar a campainha dentro de alguns instantes e tirar o menino do meu colo. Preciso sair, disse, e desliguei. Temia olhar através da janela e encontrar a minha palavra cravada nas laterais de outros prédios, descobrir que mais paredes tinham o meu traço tatuado nas costas ásperas. Quando a campainha tocou, eu estava inteiramente vestida de preto e prostrada diante da porta. Leozinho se divertia com mechas do meu cabelo, que havia crescido em aspereza de grama desde a última vez que tratei de apará-lo no banheiro, em uma das raras ocasiões em que assomava em mim a coragem de ficava frente a frente com o meu reflexo no espelho. Vai a um velório? A garota perguntou, com o cenho franzido. Talvez.

A senhora não foi clara. Não entendemos o que nos quer comunicar. Sinto muito.

Quero comunicar que conheço aquelas palavras. Que escolhi aquele azul, o amarelo também. Que desenhei suas letras vezes seguidas em recibos até que elas tomassem forma, que tenho quase certeza que guardei os esboços nas gavetas da minha mesa no escritório.

Não compreendo. A senhora quer nos dizer que gostou da nova campanha publicitária da agência?

Sim. Pois quem a criou fui eu.

Claramente ela está confusa.

Decerto se pôs cansada, eu li que as novas mães são reféns de doses cavalares de hormônios, às vezes mal se aguentam de pé, ficam fragilizadas de corpo e alma, dadas a faniquitos.

Ana, apenas responda a pergunta: Como você teria criado a campanha se faz mais de seis meses que não vem ao trabalho?

Não venho ao trabalho porque as máquinas se esqueceram de mim, rejeitam meu polegar, as portas giratórias emperram e não liberam minha passagem. Os broncos da recepção ficam com os braços a abanar, já nem querem ter mais comigo, tiram os telefones do gancho assim que me aproximo e simulam conversas demoradas para me verem longe. Os outros funcionários também me ignoram, decerto receberam ordem de não se aproximarem de mim. Sabem que estou de licença para parir, mas não percebem que a parição acabou faz tempos e estou pronta para voltar ao trabalho, que minha cabeça fervilha com novas possibilidades, que até ferrada no sono eu desembesto a procurar soluções para os problemas dos clientes e que, no girar das miúdas engrenagens, alcancei resultados nojentos de tão lindos, de tão meus.

Senhora, por favor, o conselho diretor concordou em atendê-la porque havia dito que o assunto curtia urgência e porque, como bem sabe, essa é uma empresa compreensiva, principalmente com as mulheres. Damos todo o apoio necessário para aquelas que se ausentam para parir, tomamos providências para que não tenham que ficar longe de casa e em descuido das crianças, visto como são preciosas ao país nesse momento de crise. Mas, se não tem nada a acrescentar, é meu dever pedir que se retire e nos deixe seguir com a ordem do dia. Vá para casa cuidar do seu filho, Ana.

Como a empresa seria compreensiva com as mulheres se não as compreende o seu mais simples beabá?

Tanto compreendemos que a presenteamos com oito meses de licença para parir estendidos para um ano. Insistimos que ficasse em casa, onde é devido, e não no saguão, e assustar os funcionários com palavras de uma feiúra ardida, a disparar injúrias. Vá para casa, Ana.

Eu sei que o anúncio é meu. Devem ter apostado que eu me esqueceria de rabiscos tão bestas, confiados a recibos durante os instantes que antecedem a abertura do sinal de trânsito ou a chegada da conta do restaurante. Aposto que, prestes a cair com tudo na bocarra do fim do prazo e rebentar o esqueleto de granito da empresa, pensaram que poderiam usar o meu desenho, apresentá-lo ao cliente só para mantê-lo por perto enquanto finalizavam a arte original. Não sei se desconfiaram que a minha ideia de campanha surtiria efeito, que eu havia resolvido o problema em poucos movimentos do pulso, mas o fato é que conseguiram o contrato. Como podem imaginar, vesti-me inteira de preto e vim até aqui ter com os senhores porque hoje dei de cara com o anúncio que criei e, mesmo perturbada pela parição interminável de que a empresa me acusa, lembrei que eu era aquela imagem, e que ela me era.

De olhos fechados, rememorava o movimento da mão direita sobre os cadernos, a caneta prensada entre o indicador e o anelar, o traço grosso demais, firme demais, fundo demais. Comecei a rabiscar antes de me entender por gente. Recorria a imagens quando estava com raiva e os olhos ameaçavam marejar. Com a ponta do dedo, simulava linhas e curvas no chão, contornava caracóis e triângulos imaginários até que o ardido das lágrimas escasseasse. Assim, eu me esquecia das tragédias da infância que, através da minha lente de aumentos caduca, pareciam as maiores do mundo, terríveis e aquém do perdão.

Não chorar foi a primeira rebeldia. Uma revolta tímida e besta, pequena, como eu, mas, ainda assim, era a maneira que eu encontrei de me fazer notada, de confundir os adultos, de espezinhá-los com o meu silêncio, pô-los frustrados por uma vida inteira – ou assim imaginava. Empunhar o lápis se fazia necessidade violenta quando eu tinha diante de mim um engodo, quando me sentia injustiçada ou tinha os caprichos negados. Era a única forma que eu conhecia de não pactuar, de fechar as portas da mente e, com os olhos fixos no papel, não permitir que adentrassem a minha concha-consciência. Durante as aulas riscava cadernos até o pulso latejar, coloria as margens das folhas, redesenhava as linhas, nenhuma página saia impune do desvario da minha mão. O resultado era naturalmente desimportante, eu ainda não conhecia o agudo dos contrastes e o grave profundo das sombras. Urgente mesmo era desviar dos olhos do professor, dilatar a distância entre nós, fundir sua voz às outras vozes que me chamavam de longe e podiam muito bem ser as vozes dos meus pais, das outras crianças, dos meus personagens preferidos ou o burburinho mais macio do mundo, mais ronronar do vento.

Mais do que as formas inventadas, de traços frouxos, sempre me encantaram os círculos, triângulos e todo emaranhado de linhas que culminava em pontas e quinas. Achava de uma lindeza sofrida como, na geometria desvairada da vida, todos tinham potencialidades de ser um aos outros, bastava encontrar a relação que os fez de súbito diferentes, retroceder ao triângulo original ou espreitar o futuro e encontrar diante de si mausoléus multifacetados. A matemática era um olho de mosca, ela refletia a mim e aos meus muitos olhos.

Meus pais se acreditaram afortunados para toda a vida quando me encontraram a encadear números no langor de uma tarde de férias. Concluíram que existia em mim obsessão o bastante para me tornar uma engenheira das mais refinadas, e que meu futuro se faria nas costas das máquinas e empilhadeiras. Existia em mim obsessão, sim, uma busca descontrolada pelo belo. Uma vontade doida de, de tanto testar cores, encontrar aquela que silenciaria todas as anteriores ao mesmo tempo em que as conteria em si, de tão correta e definitiva, de tão alegria da luz.

Vou ser designer. Com tantos aí afora? Sim, papai, sim, mamãe, mesmo que já tenham inventado tudo que vale a pena ver. Mesmo com tão pouco espaço no concreto para carimbar? Sim, papai, sim, mamãe, mesmo que as letras coloridas já tenham esgotado as vistas das gentes todas, mesmo que já estejamos cansados de comprar coisas, de folhear revistas, de sapear os canais da televisão à procura de divertimentos indolores, de entoar preces silenciosas a cada propaganda e rogar para que um dia possamos ser tão bonitos e felizes quanto os homens e mulheres que sorriem nos outdoors e nos convidam para o melhor viver. Por que, minha filha? Porque é o que eu consigo.

Sorte que eu tinha a Lis. Para ela, a busca pela forma mais pura, mais simples, pelas cores corretas, não passava de um divertimento como outro qualquer. Ficava amuada se eu dizia que os seus desenhos tinham traços demais, que o pulso dela era vacilante e que com poucas linhas era possível criar um cachorro que contivesse em si todos os cachorros e, quando ele latisse, seria um latido universal, desses que se comunicam diretamente com Deus. E Deus lá fala cachorrês, Ana? Ela perguntava, e eu desembestava a pegar uma folha em branco e ensiná-la a desenhar o cão que eu havia inventado e cujas orelhas ensaiei até a hora de dormir e novamente cedo na manhã só para mostrá-lo a Lis, só para que ela sorrisse um sorriso banguela e me dissesse que eu sabia coisas demais, e que perigava caducar se teimasse em aprender tudo tão rápido.

Lis. Fazia tempo que ela não telefonava – eu percebi, e tateei o interior da bolsa a procura do celular enquanto os homens engravatados do outro lado da mesa de mogno repetiam uns aos outros.

Senhora, ficamos felizes que tenha nos chamado, mas não sei se entende a gravidade da acusação ou se ao menos podemos ajudá-la.

Existe algum registro que foi você quem criou a campanha? Não podemos começar as investigações guiados unicamente pelo seu testemunho, precisamos de provas.

Queixas foram prestadas contra a senhora durante as últimas semanas. A empresa para a qual trabalha alega que desde que pariu foi dada a ‘descontroles emocionais’, que se desentendeu com diversos funcionários e faz tudo para chamar a atenção da firma, ao passo em que eles insistem em respeitar as diretrizes nacionais de incentivo à natalidade.

Tem certeza que não está cansada e imaginou a situação toda?

Senhora?

O ar estava pesado e melento, um bafo embatumado que compartilhávamos dentro dos ônibus e embaixo de viadutos. O caminho para casa se fez especialmente demorado porque, sem perceber, meus pés traçaram rota até o prédio que havia interpelado minha visão no dia anterior. Nando Morais, eu li, diante do anúncio de quase cinco metros de altura. Em cima das letras bojudas, a foto de um homem sorridente. Era bonito, jovem, seu queixo projetado se erguia sobre as cabeças de todas as gentes.

Cheguei em casa pouco antes das primeiras gotas de chuva caírem. O ar pesado se liquefez e a redoma de nuvens alaranjadas escureceu de súbito, como se Deus tivesse recebido notícia de muito pesar e virado a carranca para os homens. Segurei Leozinho de encontro ao peito até ele adormecer no pico da tempestade, quando as árvores começaram cair e do contorno da cidade só era possível transver uma maçaroca escurecida. Eu estava na cozinha, prestes a abrir uma garrafa de vinho, quando a campainha tocou.

Lis?

O celular vibrava. Acordei com a cabeça pesada e a boca amarga, da minha cama era possível ver o respirar lento da silhueta de Lis no sofá da sala. Não chovia mais.

Alô?

Lis, acorda. É a dona Cléia.

Ela morreu?

Morreu.