Toda sexta-feira a Revista AzMina publica um capítulo do romance de folhetim “Nascem Flores no Asfalto”, de Mariana Lozzi. Leia os próximos capítulos aqui.

Ilustração de Larissa Ribeiro

A primeira chuva escorreu morna e caudalosa pelas entranhas do calor. Vovó me dizia que fazia mal ir ter com ela, com a chuva, porque suas águas eram empesteadas pelos venenos invisíveis que trafegam pelo céu da cidade. Antecipava meu corpo coberto por brotoejas e pústulas azuis, como se, ao ensaiar contato breve com a tempestade primeira, eu mesma me transmutasse em ferida aberta. A regra era simples: caso ficasse tempo demais sob a marquise dos céus, coisas estranhíssimas sucederiam com meus dedos, orelhas, cotovelos e umbigo. Estava certa que, quando as nuvens choravam chumbo, era para castigar a nós, os pequenos curiosos.

Por mais que o tempo tivesse me ensinado a desacreditar nos exageros de dona Cléia, não voltei a me banhar na chuva tão cedo. Quando a ideia despontava com timidez e anseio, tratava de me convencer do contrário, repetia que a chuva me faria doente para além de resfriados, que eu sairia dela fraca e emporcalhada, que sempre tive impulsos que me tornavam patetinha e o certo era dar um basta à megalomania das vontades. Logo eu, que sempre fui dada a banhos longos, à pressão, ao escorrer tépido da água, ao frio e ao susto de submergir, conservei a pele e os cabelos secos. Para domar os maus intentos, dizia a mim mesma que a alegriazinha de molhar o corpo na primeira chuva não valia o aborrecimento de empestear o piso e os móveis de água, de ficar com os cabelos grudados na nuca, de pisar em poças de lama e pescar bitucas de cigarro e tampinhas de garrafas nas meias.

Ao contrário das chuvas da minha infância, que não senti, mas eram mais reais que os dias secos, atravessei aquela tempestade em transe de sonho. O inverno fechava a mandíbula sobre o corpo da cidade em hora prematura, os carros se afogavam com fragilidades de besouros, sombrinhas eram empunhadas como espadas, todos se resguardavam da catástrofe dos céus. Eu traçava caminho em ritmo próprio, sozinha, com debilidade de ovo de galinha, casca estúpida, abrigo para alguns sopros, somente. Enquanto os velhinhos se acotovelavam debaixo de toldos e marquises com as mãos metidas dentro dos bolsos ou com os dedos enroscados nas alças de sacolas, eu percorria as ruas com langor e entrega. No meu delírio, havia me transmutado em oferenda para um deus-pássaro cruel, com asas de minérios, que me envolveria nas garras e me içaria para a mais cruel das alturas, onde me bicaria com nojo, empoleirado em uma gaiola de ouro.

Ao meu redor, trovões tomavam os céus em rouquidão interminável, os raios faziam estralar a terra. Motoristas abandonavam os carros em frenesi salvatório, corriam para debaixo dos prédios, abraçavam o próprio corpo, órfãos de si. A água envolvia nossos tornozelos e rumava para as canelas, o meu caminhar se tornou pesado. Gotas se desprendiam do céu em giro mortal e me feriam o topo da cabeça e os ombros, a pele ardia de tanta pancada do vento, aquele mesmo que tratou de desfiar as flores dos canteiros e de varrer os frutos para longe das árvores. Guarda-chuvas quebrados sobrevoavam os céus.

Quando Ana abriu a porta, três árvores já haviam caído diante dos meus olhos, os troncos separados das raízes, as raízes ainda enterradas, cravadas fiéis no solo. Em perplexidade muda, ela me puxou pelo braço e arrancou o casaco e os tênis enlameados do meu corpo, me conduziu até o chuveiro. A água quente lavou dos cabelos as folhas e sujeiras miúdas; também me senti sujeira miúda. Escorríamos ralo adentro.

Lis?

Tá escuro.

A energia acabou, fique aqui que eu vou buscar uma lanterna.

Ana? Ana, o escuro não me maltrata, juro, mas volta, volta porque ficar sozinha submersa em água é mil vezes escuridão, mil vezes mordida, mil vezes pranto, ficar sozinha aqui me dói mais que tudo, Ana.

Pronto, não precisa disso, o apartamento é minúsculo, a gente não se perderia nem se quisesse. Aguenta aí que as pilhas estão fracas, melhor mesmo é sair do chuveiro, sorte que o Leozinho está ferrado no sono, ele sempre dorme tempestade adentro e acorda furioso ao primeiro sinal de calmaria, não dá pra entender o complexo de Posseidon desse menino. Vem, Lis, pronto, pega minha mão, aqui a toalha, enxuga os cabelos, isso. Quando chegou você estava mais fria que defunto, sei nem como o vento não te carregou para outras bandas, impossível dizer como as árvores caíram e você não.

Ana, a minha avó.

Sossega que a dona Cléia é mais esperta que a gente tudo, deve ter surrupiado água ardente do armário e fez que nem o Leozinho, não quis se apoquentar com tão pouco, virou a dose e submergiu em um sono esperto. Agora deve estar com os namorados do passado, todos rejuvenescidos e externados dos túmulos, imagina a esbórnia, a maravilhança, é nada besta, a sua avó.

Ô Lis… Você fez?

Minhas mãos desceram até o ventre, onde se fixaram à procura da resposta para a pergunta de Ana. A pergunta de Ana ara um anzol, cravado lá, no meu mais fundo.

Lembrei de um espaço amplo de luzes muito fortes, muito brancas. Um vai e vem interminável de mulheres tomava conta das vistas. Elas andavam vagarosas, o trânsito de corpos as punha de cotovelos rentes aos corpos, cabeças levantadas, a fim de respirar algo que não umas às outras, de respirar algo que não ao próprio medo multiplicado, à própria fadiga, ao próprio choro. Os perfumes se misturavam ferinos, vazavam em obscenidade de corte, grades de vidro dividiam as baias do consultório-curral, curral elegante, com paredes pintadas em tons claros, para apaziguar os humores do gado. O guichê me cuspiu uma senha assim que eu atravessei a porta giratória, fui me acotovelar meio a outras mulheres que, como eu, aguardavam com o queixo levantado, olhos fixos em telas.

Até aquele momento eu não acreditava que uma multidão poderia ser silenciosa, que tantas gentes postas assim, rentes umas às outras, não teriam nada a dizer, dores a reclamar, que não haveria assunto capaz de fazer brotar as vozes, sapecar os desassossegos. Mas lá estávamos, em uma ciranda muda, multívoca, num girar cândido. Esperei.

O silêncio era providencial dentro do consultório número 17, para onde me enviaram depois que fiquei frente a frente com uma parede de vidro, através da qual só podia ver o meu reflexo. Pequenos buracos faziam ecoar uma voz masculina, que me exigia documentos, indagava a respeito do meu peso, altura e cujo dono – eu senti – me olhava como se a minha carne também fosse vidraça. Cravei minha assinatura em papéis mais vezes do que a memória alcança, voltei a sentar. Esperei. O sol já não estava mais a pico quando chamaram meu nome e me pediram que tirasse a roupa. Vesti um avental fino e, mais uma vez, esperei.

Tem 30 anos e nunca pariu? Quer ser presa? Teve sorte de o tribunal ter aceitado o pedido, e pode torcer para continuar a ter sorte, essa é sua chance de limpar o nome. Foram generosos, menina, agradeça de pés juntos e largue de picuinha com a ordem natural das coisas, se tivesse obedecido quando devia não tinha se emporcalhado desse tanto. Espere aqui, pernas abertas, não se mova, já volto para começar o procedimento.

Do outro lado da porta, três vozes se alternavam.

Foi aliciada aos vinte e dois e esperou até os trinta para emprenhar?

É doida?

Porca sórdida.

Não merece.

Deviam tê-la mandado para longe como as outras.

Tenho uma prima que foi tirada de casa no meio da noite quando havia se passado somente um mês dos 30 anos. Viram nos registros que ela nunca tinha tomado providência para emprenhar, que nunca recorreu ao auxílio do governo, que não reportou dificuldade às ouvidorias. Ficou em casa, de braços bem cruzados, à espera da hora de sujar o nome em definitivo. E assim foi.

O médico e as duas enfermeiras voltaram à sala, estavam metidos em aventais, luvas e toucas. Só os olhos se faziam visíveis, clarabóias muito abertas, imóveis, com se tomadas por cegueira definitiva. Eu os evitei a todo custo. O ar condicionado tinha a bocarra de plástico virada para mim, soprava vento na minha direção, fazia frio, mas frio pior era o do estômago, que doía dor de ofensa. Cutucaram-me algumas vezes no mais fundo, senti uma aflição que também era mágoa, achei que faziam aquilo com gana de me judiar, mas mantive os olhos secos, nenhum pio, nada, a face era uma pradaria desabitada. Virou noite em mim. A televisão estava ligada, muda como tudo mais naquela sala. Uma luz fria emanava da tela, ancorei-me às imagens e as persegui até o fim, até que se afastassem do meu corpo, dos meus vãos e das minhas quinas, do poço seco da garganta. O médico me espetava, mas eu não vi seus olhos.

As imagens do noticiário me trespassavam, fixei toda atenção na TV. Eu também era uma antena, precisava deixar de ser-me, quedar bestializada, abjeta, objeta, corpo de plástico, ferramenta, miúda engrenagem, peça mínima – descartável. A luz que emanava da televisão também era fria, existia somente o susto e a luz fria. Vi uma mulher segurar uma vassoura e fazer explodir janelas. Chovia vidro, ela ria, ela sangrava. Homens fardados a agarraram e apertaram-na contra o chão, o chão cortava. Contorci-me inteira, tamanho o horror, tamanho o oco no meu peito, cavidade ampliada. Pulsava muito. As duas enfermeiras me seguraram pelos ombros, tive medo de respirar lâmina. De súbito, a mesma mulher em um lugar diferente. Um banco de delegacia, a cabeça baixa, dependurada, como se dormisse, flashes de câmeras lambiam suas feridas, as feridas abertas, como os olhos do médico, clarabóias mudas. A mulher também está objeta, abjeta, estamos as duas – distantes. Novo cenário, novos personagens. Um hospital, uma moça com um microfone, ela imita pássaros com as mãos. Mãos bonitas, bonitas mesmo, mas os olhos estão atormentados. Mais câmeras, mais mulheres com microfones e semblantes preocupados, procuro pássaros, não os encontro. A foto de uma moça bonita, uma porta fechada, as máquinas. Pouco antes de se afastarem de mim, lembro de ter pensado: va­­i chover.

A luz voltou ao apartamento de Ana. Com a claridade, veio o choro de Leozinho, que bramia angústia no berço.

Lis, espere aqui que já volto, vou acudir o Leozinho. Tome, vista essas roupas, o que falta em beleza elas compensam em conforto, juro. Depois corra para a sala, coloquei uma pizza no forno, tem vinho também, você vai dormir sono de múmia, a minha homeopatia se chama tanino, três taças toda noite.

Ana, como foi quando te inseminaram com o Leozinho?

Ah, foi coisa besta demais, muito simples, senti quase nada, precisava nem de anestesia, mas me deram mesmo assim. Naquele dia descobri que a minha vida só estará completa quando tiver acesso ilimitado à morfina, para misturar com café, ô perfeição. Como foi a sua? Ah, de novo não, repetem a mesma notícia há horas, isso não faz grandes coisas pela sanidade de quem fica em casa o dia todo, estou te dizendo. Sabe a escola grã fina em que fui para matricular Leozinho e os putos nem me deixaram passar do portão de entrada? Pois bem, mais tarde naquele mesmo dia uma das faxineiras endoideceu de vez e começou a quebrar as janelas às vassouradas, foi um pega pra capar sem fim, coisa horrível. Para piorar a situação da mulher que curtiu curto circuito na cabeça, a esposa de um senador (aquela toda bonitinha com muitos filhos, sabe de quem estou falando?) entrou na escola em pleno reboliço e cortou os pés nos cacos de vidro. Parece coisa pouca, mas acontece que agora a moça está internada no hospital, falam de infecção, e o senador não larga os microfones, dá entrevista até quando dorme, já me fartei de ver a cara daquele homem, benza Deus.

Enquanto a noite espalhava tentáculos janela afora, deixamos que o vinho irrigasse nossas gargantas. Adormeci com o corpo aquecido no sofá de Ana, o mesmo em que tantas vezes a encontrei ferrada em exaustão, com os sapatos ainda nos pés, esgotada. Na semana seguinte, voltaria a encarar o meu reflexo no guichê reluzente do curral-consultório. O transito lento de corpos e o retumbar de sapatos no chão de granito não me impediriam de entender o que o homem atrás da parede de vidro me queria comunicar. Estava grávida.