Toda sexta-feira a Revista AzMina publica um capítulo do romance de folhetim “Nascem Flores no Asfalto”, de Mariana Lozzi. Leia os próximos capítulos aqui.

R afael tinha pés de pato. Alto, robusto, mandíbula asteca, diviníssima, mas, dentro dos sapatos, pés de pato. Dizia: Chica, tu fica meio tonta quando me olha assim, parece que tem titica de galinha na cabeça, sabia disso? Eu me ria, as bochechas esquentavam, ficava toda-toda, feliz por ele pensar em mim e na minha cabeça de titica. Vez ou outra tentava uma carícia nas costas dele, dizia: Vem cá, benzinho, e ele me repelia com o cotovelo, armava carranca pra cima de mim, ficava doido da vida. Rafael não gostava quando eu me aproximava com demanda de amor, quando me erguia na ponta dos pés, nivelava nossos corpos e mendigava carinho. Dizia que eu tinha gana de mandar, que me punha cheia de vontades, de caprichos, e se continuasse assim era capaz de crescerem culhões entre as pernas. Tu é estranha, Chica, repetia e, por mais que a minha estranheza me fosse normal, ficava troncha quando era o Rafael que acusava bizarrice em mim. Chorava baixinho, transparente, um sopro azul.

Com o dedo erguido diante do meu nariz, Rafael professava que só ficava comigo porque era caridoso, que nenhum homem gosta de petulância e, se continuasse assim, ia me sozinhar. Era bem verdade isso de eu ser petulante. Vez ou outra uns brilhosos coloridos se avolumavam dentro de mim e eu tinha vontade de percorrer as ruas como um borrão, no galope alucinado das pernas compridas, em um arroubo de vida que me faria mais veloz que todos os vira-latas velozes. Na cabeça cresciam ideias frondosas como palmeiras e jequitibás.

Punha-me feliz de imaginar como seria a vida uma vez que eu fizesse amigos bonitos e engraçados, que se aproximariam de mim quando reconhecessem que a Chica também curtia de beleza e graceza. Quando me acometia a febre das imagens, dos pensamentos tortos, eu perambulava pelas ruas de braços soltos e olhava os homens direto nas faces, distraída dos perigos que eles guardavam no olhar. Esquecia qual era o meu lugar devido, transitava onde não era chamada, pronta para ganhar safanão corretivo, como dizia a dona Eulália.

O único jeito de ter com Rafael era acuada, infantil, como quem nada conhece e gosta de tudo. Traçava círculos mínimos de cabeça baixa, pura candura, menina inocente, prestes a desabrochar. Quando me punha desse jeito, envergonhada da própria presença, ele vinha com prosa para cima de mim e, antes que percebesse, mordiscava meus lábios e soprava hálito quente na minha nuca. Aprendi que somente quando suas mãos dedilhavam meu quadril em frenesi exploratório era permitido enlaçar seu pescoço e dizer que o amava mais que a tudo e a todos, que era amor descompensado, sentimento maior do mundo, como nos filmes. Ele não respondia, concentrado em desvelar meu corpo, as mãos quadradas desnudavam a pele escura, amassavam os peitos graúdos, espalhavam lastro de vermelhidão. A marca dos dedos eu levava comigo.

Quando Rafael estava decidido a me namorar com força – e só então – era permitido declarar Amor maiúsculo. O silêncio dele era, para mim, paixão custosa finalmente correspondida, prova de um gostar avolumado, de um fremir de corpo inteiro. Ele arquejava com o tronco prensado entre as minhas coxas, revirava meus fundos e me espetava até provocar ardência de corte, mas eu me ria assim mesmo, a dor vazava do corpo e eu gargalhava feroz. Era amada.

Mamãe dizia: Chica, quem é aquele com quem se mete, o rapaz branco com pinta de rico? Eu desconversava porque, se soubesse de Rafael, dona Eulália me diria que era patetinha de acreditar que homem de barba feita e tênis de couro iria querer coisa séria comigo. Riria da minha pasmaceira e se poria a recontar histórias de sua meninice, percorrida sob mil sóis, curtida pela fome, sem brisa para trazer acalento. Sozinha.

Ele te usa pra desafogar macheza, ô Chica, e quando está com os dele fala da menina tontinha que abriu as pernas e tornou a abri-las. Eles então se fartam de rir da sua bobice, ofendem nossos santos, nossos mortos. Não é assim que a vida da gente obra, minha filha, o mundo é um macaco velho que repete truques, está demente e não vai aprender a fazer acrobacia nova na corda do tempo só porque nos divertem seus giros, seus pinotes. Desiste desse que te curra e mete a cara nos livros, os gajos assim só entrelaçam mãos com as moças educadas, de finos vestidos, de compridas palavras, de rostos modestos. Perto delas tu sobra, Chica, vaza das beiradas. Tu mete é medo nos engomados.

Acorda, espalha semente de juízo nessa cabecinha aerada, nunca vi tão tonta. A mãe tem idade e já se fartou de olhar a cara cava da morte, conheço bem a tristeza, ela é minha lente melhor, mais certeira. Hora dessa eles judiam de você, os ricos tem sanha de miserar os pobres, curtem malvadeza, te perigam de solitude e te fazem desgostosa vida afora, costuram praga cara na pele sua. Escuta a mãe, Chica, escuta a mãe.

Dona Eulália soprava fumo sentada no sofá de espuma, tinha voz de trovoada macia, alongada de tão bonita, de tão ronronar da terra. Os pés inchados ela suspendia na banqueta à frente, gemia e xingava na hora de tirá-los. Os tornozelos só faziam engordar em movimento oposto ao do corpo, que mirrava, como se a gravidade a fizesse escorrer dentro de si, elefântica. Doida de fome, eu devorava uma pratada de arroz com feijão, mandioca e toucinho, fingia que não ouvia as repreendas e avisos de mamãe, comia com gana de me enfastiar, porque Rafael dizia que meu corpo tinha muito ângulo e pouca curva, que custava a achar beirada para agarrar.

Com a cabeça pesada, enamorada do sono, terminei de arrumar a cozinha, esfreguei as panelas até que curtissem brilho e fechei a porta do quarto atrás de mim. Adormeci enquanto a máquina de costura da dona Eulália remendava os pensamentos poucos que atravessavam minha mente, fragmentos em frangalhos. Nos meus sonhos, podia vê-la a remendar roupas em um transe sorumbático, magra a escura, com os fios de fumaça do cigarro a se enroscar no ar, serpentinas azuis.

Nos dias de paixão aguda acordava atrasada para a escola, confundia os livros e levava repreenda dos professores. Eles queriam me fazer de exemplo, a boba exemplar. Eu espumava de raiva para reter o choro dentro da represa dos olhos. De volta em casa, de frente para o espelho, amarrava os cabelos rente ao crânio para domar os cachos, ensiná-los melhor etiqueta, porque bonito era ser discreta, como as garotas que Rafael beijava no banco de motorista do carro do pai, todas de risinhos fáceis e pernas cruzadas. Elas tinham cabelos lisos que ele não puxava para trás como aos meus, só os alisava em carícias curtas. Quando escorria os dedos pelas mechas das garotas brancas, ele os tirava de lá sem embaraço, como se, ao tocá-las, enxaguasse dos fios a memória. Convenci-me que só não fazia o mesmo comigo porque o meu cabelo se enroscava nos pentes e em tudo mais que os visitava. Talvez por isso Rafael me maltratasse o couro e a elas não.

Quando a nuca ardia em contato com o travesseiro depois que ele visitava meu corpo, lembrava da mão grande que havia se fechado sobre meu cabelo como o bico de um pássaro mecânico. Os cachos não cediam, porém, não caiam, não murchavam. Provocativos, cresciam mais fortes, erguiam-se acima de mim como coroas negras esculpidas em açúcar. Dona Eulália dizia que o cabelo era o que de mais bonito havia em mim porque me fazia rainha, soberana.

Difícil entender como amor tão forte, tão raio, despontou por ele, que roubou minha meninice e rasgou o véu sonhador dos olhos. Da primeira vez em que cruzou a rua em minha direção na porta da escola as meninas se puseram mudas, como se uma alma penada se aproximasse, coisa d’outro mundo. Ele tinha nos olhos algo de duro, de rochoso, como pedra de amolar faca para profundos cortes, mas sorria largo e falava diferente de nós, quase outro idioma.

Quando o ouvia dizer coisas assim exóticas me sentia no estrangeiro, e tudo que mais quis foi conhecer o além mar, como nos filmes. Minhas amigas fizeram algazarra com as gargantas assim que ele se afastou. Disseram que era educado e usava camisas bonitas, mui finas, e era diferentíssimo dos garotos da escola, que só queriam saber de correr uns atrás dos outros em juras de morte e tentar seduzir as meninas de pele clara. Rafael voltou dali três dias e me levou para passear, fomos tomar sorvete. Passei a esperá-lo e ele vinha certeiro como chuva em céu de chumbo, com uma camisa e um tênis diferente toda vez, o mesmo sorriso, os mesmos olhos de cascalho.

Longe dos portões da escola, beijava-me o pescoço, a boca e os olhos. Assim foi até o dia em que me levou para passear de carro e estacionou na frente de um prédio abandonado. Eu sabia que algo aconteceria. Achava que seria como um susto, um beliscão, uma pisada de pé, algo na ordem dos pequenos sobressaltos. Não sabia o quê, porém, nem como a coisa se daria, mas as meninas na escola falavam que era como um sopro no ouvido seguido de uma dança lenta, brincadeira boa, das mais divertidas. No banco de trás as lágrimas escorriam polpudas enquanto eu fixava o olhar na costura do teto. Não podia me mexer, achava que morreria se o susto aumentasse. A brincadeira magoava – e muito.

Uma vez, deitado ao meu lado em uma cama de pensão, ele me disse que eu era bonita quando guardava os dentes, ou quando sorria pela metade, sem mostrar as gengivas. Passei a sorrir cada vez menos, para que me visse sempre bonita, para que esquecesse que algum dia eu lhe pareci outra coisa que não bonita.

Escrevia que o amava nas portas dos banheiros da escola e da rodoviária, rabiscava ‘Rafael’ em todos os recibos de supermercado e no chão dos jardins nos meses mais frios. Afastava as folhas secas para desenhar letras bojudas com gravetos, depois as cobria para segredá-las. Perfumava o corpo e os cabelos para quando viesse me buscar na venda do seu Tonico. No primeiro sinal da sua aproximação eu refreava a alegria dos dentes, guardava-os para tê-lo por perto mais tempo, para agradá-lo até que sorrisse e me beijasse o pescoço, como fazia quando estava aprazido de minha presença e prumo.

Queria que os pedestres vissem a nós e à nossa juventude a refletir as cores do dia como uma insígnia, uma medalha. Uma vez Rafael repousou as mãos nas minhas costas quando paramos para comprar cigarros e dentro de mim um pássaro abriu as asas de tão alegre, de tão incendiado de pios, de melodias impossíveis. Eu era pura aleluia.

Imaginava-nos mais velhos, a percorrer as ruas de terra batida da minha infância, bonitos e discretos como são os felizes. A mão dele sobre o meu ombro, as nossas silhuetas alongadas na descida da ladeira, um sol agigantado a derramar vermelhidão sobre nossas costas. Seríamos nobres e solenes. Ele só me dirigiria olhares devotos, eu fingiria que não percebia, mas saberia que era para mim que ele direcionava o canudo dos olhos, e comentaria uma bobice qualquer, assim: Veja, Rafael, um mico loiro despontou das árvores no paredão verde, ali! Um garoto quis fazer graça para os amigos e quase caiu da bicicleta! As laranjas da venda do seu Tonico despencaram do toldo e causam um reboliço doido, algumas foram atropeladas e a rua se cobre de carcaças de fruta, os vira-latas se puseram lascados de alegria. Já viu cachorro chupar laranja? Ele então riria, empanzinado de amores por mim.

O toque ameno sobre as costas eu não voltaria a sentir tão cedo, porque Rafael cada vez menos queria ter comigo. Semanas inteiras transcorriam até que os sapatos de couro voltassem a traçar caminho em direção à porta da escola, mas sempre voltava. Tinha saudade. Diante dele, as lágrimas brotavam e eu dizia que por mim bom mesmo seria se ele caísse morto, se cães de rua o devorassem os ossos e depois o cagassem cidade afora, se ele ficasse tão sozinho mas tão sozinho que sentiria minha falta, só para então voltar para mim e ouvir esta mesma lista de malvadezas, que eu despejaria como vômito sempre que ele me dissesse coisas bonitas para depois me pisar. Ele gritava que eu era doida desregulada, que curtia histeria só para lhe torrar os pacovás, que tinha sorte de ele gostar de mim, de sentir saudades, de pensar no meu sorriso grande, no meu cabelo duro.

Eu só fazia encolher dentro das roupas. Temperava a janta com o choro, o desalento vinha em ondas, com gosto próprio de mar, caudaloso, engolidor de gentes. A maré subia. Dona Eulália acendia velas, sacava as medalhinhas do pescoço e as segurava com força, orava para que eu criasse juízo, pedia aos santos todos que quebrassem meu pacto com a dor, nem que isso significasse que pra pagar a promessa ela nunca mais poderia comer doce de caju ou curtir carteado, tomar um trago de cachaça nos dias mais quentes ou enrolar fumo no quartinho de costura, onde fazia bainhas, pregava botões e ajustava vestidos. Musicado pelas batidas da máquina de costura, o tecido dos anos se rompia diante de mamãe, fio a fio.

O medo maior só despontou quando os amigos de Rafael empreenderam marcha com os tênis coloridos em direção à nossa casa. Tocaram a campainha perfumados e sorrisudos, perguntaram à mamãe se eu estava. Disseram que eram meus amigos e vieram me fazer surpresa, pediram que os deixasse entrar. Ela despejou um arroio de palavrões sobre suas cabeças e bateu a porta. Dona Eulália então me caçou pelos fundos da casa, danada da vida, vitimada por medo violento, e eu desviava dos sapatos que ela apanhava nos armários e lançava na minha direção. Nesse dia mamãe se pôs tão desgostosa que achei que era capaz de desregular de vez das engrenagens e me matar nos safanões. Dona Eulália então se encolheu no sofá com fragilidades de bebê, os tornozelos gordos se puseram roxos de tanto me perseguir. Chorava pranto ardido, rogava aos santos que tivessem pena de nós.

Eles falam, Chica, falam tanto. Na vizinhança todos já sabem que você mete com o rapaz alto, que o fulano passa na porta da escola de carro modernoso só para ter com você. Não pense que é boa coisa. Ele quer tirar proveito da sua meninice, curtir brinquedo novo até quebrar e comprar outro, um mais caro, mais sofisticado. Daqui a pouco mete um filho na sua barriga e desaparece, finge que não é com ele, nega que algum dia tenha tido com a moça pretinha da vizinhança de moças pretinhas. Diz a todos que está caduca e nunca mais te olha.

As palavras de dona Eulália me acompanharam até que se profetizassem. Com os olhos quase cegos, ela transviu o que nem os santos foram capazes de adiantar. Mas não viu tudo.