Conspiração Libertina cria tatuagens removíveis feministas, engraçadas e de baixo custo pra protestar na folia. Da esquerda pra direita Luciana Lobato e Erica Gurgel, que protestam juntas neste pré-Carnaval. Foto: Divulgação

Um símbolo de solidariedade para mulheres no Carnaval.  Foi com isso em mente que um grupo de mulheres teve a ideia de sair para os blocos com uma faixa vermelha no braço, sinalizando que você está à disposição para ajudar qualquer mulher que esteja se sentindo assediada ou ameaçada.

“A nossa proposta é criar um ambiente de maior apoio para e por nós mulheres durante o Carnaval. A faixa vermelha será como um sinal de que a mulher ao seu lado está ali disposta a ser seu porto seguro”, afirma Luiza Navarro de Azevedo, cocriadora das Minas de Vermelho.

O plano começou pequenininho: Anahi Cubas, Ana Luísa Souto, Ana Luiza Geraldini, Marina Spieth e Luiza pensaram em fazer a coisa rolar em sua cidade, Barão Geraldo (Campinas, SP). Mas logo a ideia pegou e ouviram dizer que mulheres de vários cantos do Brasil iriam aderir. “Ficamos muito felizes com toda a força que está se unindo, e o nosso desejo é que existam o máximo de #MinasDeVermelho possível”, celebra Luiza.

Da esquerda para a direita As Minas de Vermelho Nina Spieth, Luiza Navaro e Ana Luiza. Foto: Divulgação

O sucesso da iniciativa é sintoma um movimento que está tomando o país: uma corrente de mulheres trabalhando para combater o assédio na festa mais popular do ano. É o espírito de #UmaMinaAJudaAOutra tomando conta da folia.

Foi com esse mesmo espírito que as designers Luciana Lobato e Gabriela Alves resolveram ajudar mulheres a transformar seu corpo em protesto. A ambição das duas ia além: queriam que isso fosse feito a baixo custo e com humor. Dois carnavais mais tarde, elas colhem os frutos ao ver a mulherada desfilando as tatuagens feministas removíveis da Conspiração Libertina nos blocos de Brasília.

“Acham que protestar no Carnaval é chato? Chato mesmo é enfrentar assédio e machismo quando a gente só quer se divertir!”, afirma, convicta, Gabriela. “Porque Carnaval é um período festivo, mas pode também ser um período chato pra caralho para as mulheres.”

“Viver é um ato político, se divertir também pode ser”, complementa Luciana. “A ideia é que qualquer superfície possa servir ao seu ativismo: até mesmo sua pele”.

Pra isso, cada tatuagem custa pouco, é distribuída por correio e usa pequenos produtores locais. E as criadoras afirmam que elas servem mesmo o propósito de combater o assédio. Não é à toa que a mais vendida deste Carnaval é uma que diz “Sai hétero”, popular não só entre lésbicas que querem evitar a insistência de um público que não as interessa, quanto mulheres hétero que não querem nem conversa com homens homofóbicos.

Há também quem está trabalhando dentro do governo pela causa. A vereadora paulista Sâmia Bomfim (PSOL), que se elegeu com uma plataforma feminista, está distribuindo material anti-assédio nos blocos de São Paulo. O lema de sua campanha é Carnaval Sem Machismo.

Não podemos esquecer dos bloquinhos feministas de Carnaval pipocando, como diz o velho ditado, do Oiapoque ao Chuí.

Tem o Vaca Profana em Olinda, o Bloco Pagu em São Paulo, o Bloco Mulheres Rodadas  e Bloco das Trepadeiras no Rio, Não Mexe Comigo que Eu Não Ando Só em Porto Alegre, Damas Cortejam em Fortaleza, o Mais Tetas menos Tretas em Aracaju, o Respeite as Minas em Salvador, Block das Perseguidas em Brasília e tantos mais que não cabia nesta reportagem.

Entre eles, um tem a proposta especial de combater o preconceito contra lésbicas, ou lesbofobia, o Siga Bem Caminhoneira, de São Paulo. Como é Carnaval, o nome é brincadeira com os estereótipos bobos que se criam por aí sobre elas, mas o objetivo é bem sério.

“Queremos resistir a esse fetiche masculino de lésbicas super femininas dos filmes pornôs e ser quem somos sem medo”, conta Leka Peres, organizadora da marcha.

O grupo também pretende se articular com o Centro de Cidadania LGBT Arouche e trazer uma Unidade Móvel de distribuição de preservativos (femininos e masculinos) e gel lubrificante – o que também acaba com o mito horroroso de que sexo lésbico não exige camisinha e faz com que cerca 60% das lésbicas tenham DSTs. Quem quiser ajudar essas minas a arrecadarem fundos para um carro de som do bloco pode participar da festa de arrecadação que ocorre no dia 25 de fevereiro. Mais detalhes aqui.

“Qualquer bloco que coloque a mulher como protagonista é importante, seja cantando, tocando, produzindo… Estamos num processo de tentar acabar com a objetificação das mulheres e no Carnaval”, arrebata Leka. “E um bloco que se assume sapatão e feminista tem uma enorme importância pra mostrar quão diversas as mulheres são e quão tolerantes podemos ser dentro e fora do Carnaval.”

* Você sabia que pode reproduzir tudo que AzMina faz gratuitamente no seu site, desde que dê os créditos? Saiba mais aqui.