Quem senta no divã de hoje é a Juliana Luna, autora da nossa seção Beleza Pura. 

Luna (à direita) e sua corajosa amiga Maryam: juntas contra o racismo dos foliões. Foto: Arquivo Pessoal

“C arnaval.

Rio de Janeiro.

Bloco rolando na rua… Todo mundo mega feliz e animado. Era um bloco no Aterro do Flamengo, cartão postal do Rio de Janeiro. Todos nós seguindo aquele cortejo musical cantando e sorrindo. Eu estava acompanhada de uma amiga francesa, negra de cabelo “black power”, uma que fala francês fluente e mais algumas meninas.

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Eis que passa um grupo de franceses foliões e um deles usava uma peruca “black power” bem chinfrim. Um dos amigos dele, gritou em francês repetidas vezes (musica alta, carnaval etc…) e apontou pra mim, achando que eu não ia entender:

– Olha fulano, é você! – disse ele, às gargalhadas.

Na hora eu fiquei muito irada. Pô, não bastasse esse cara vir pro meu país, colocar uma peruca bizarra pra “imitar” e ridicularizar meu cabelo, ainda se acha no direito de rir de mim?!

Eu chamei minha amiga, que achou um absurdo o que tinha acontecido. E fomos as duas de cabelo black tentar dialogar com este ser humano.

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Ela já chegou quebrando o cara no francês.

– O que você acha de rir do meu cabelo agora, aqui, na minha cara? Você sabe que o que você está fazendo é racismo?

O cara desconcertado, foi ficando roxo…verde…laranja…não sabia onde se enfiar de vergonha.

Minha outra amiga, que também fala francês, veio ao nosso encontro pra questionar a atitude bizarra dele e dos amigos dele.

– Você acha legal ridicularizar as mulheres negras que usam cabelo natural? O que te dá o direito de, além de usar uma peruca de péssima qualidade como fantasia de carnaval, rir delas?

O francês ficou tão sem graça que veio se desculpar e dizer que não sabia que estava ofendendo a gente. E que, se soubesse que isso era um ato racista, não o teria cometido. Saiu de perto pedindo mil desculpas e se sentindo um idiota.

Saímos de lá as três nos sentindo vitoriosas. Como se nossa união tivesse mesmo fortalecido uma causa muito maior. O combate ao racismo é real, afinal.

Muitas vezes nos calamos diante de opressões como essa e relevamos, porque, afinal, né, é carnaval… Alegria, Alegria!

Só que, se alguém nos ofender, ou nos abusar de alguma forma, nossa alegria acaba. Nos sentimos vulneráveis. Violentadas.

Mas, nesse dia, com a ajuda das minhas amigas, pude festejar e me sentir amparada. E ainda demos ‘surra’ de francês nos caras que tentaram nos ridicularizar em pleno carnaval!

Racistas não passarão. Mesmo na folia!”

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