“Do tempo/espaço aprendi desde criança a colher palavras. A nossa casa vazia de móveis, de coisas e muitas vezes de alimento e agasalhos, era habitada por palavras. Mamãe contava, minha tia contava, meu tio velhinho contava, os vizinhos amigos contavam. Eu, menina repetia, inventava. Cresci possuída pela oralidade, pela palavra. As bonecas de pano e de capim que minha mãe criava para as filhas nasciam com nome e história. Tudo era narrado, tudo era motivo de prosa-poesia.”

Conceição Evaristo no I Seminário Internacional Mulher e Literatura/ UFPB – 2003. Leia a íntegra aqui.

Não há melhor maneira de apresentar Conceição Evaristo senão por suas próprias palavras. Afinal, o objetivo de sua literatura é simplesmente dizer. Conquistar o direito de expressar-se e ser ouvida. Expressar exatamente o que se é, como se é, de onde vem e enxerga o mundo. Colocar o lugar de fala dos oprimidos no centro da literatura para dar visibilidade a suas opressões e transcendê-las, como ela mesma diz, por meio da arte da “escrevivência”.

Se a palavra é natural para a autora, sua publicação é conquista. Nascida em Belo Horizonte, teve uma infância pobre na favela do Pendura Saia. Ali mesmo, foi apresentada à absurda desigualdade à sua volta, já que as vielas da comunidade desembocavam em um bairro nobre da capital mineira. Conheceu a escrita na escola e logo começou a se destacar, mas seu caminho nas letras não foi tão fluido quanto sua prosa. Teve que interromper os estudos várias vezes para trabalhar e ajudar em casa.

Terminou a escola já aos 25 anos e queria seguir carreira como professora. Mas, na BH dos anos 1970, era preciso ter “quem indicasse”. E não era nada fácil conseguir uma indicação para uma mulher negra da favela, apesar de as mulheres da sua família terem trabalhado para famílias de escritores importantes, como Henriqueta Lisboa, Luzia Machado Brandão e Otto Lara Rezende. Por isso, decidiu ir atrás do seu sonho no Rio de Janeiro, onde já havia concurso para o magistério. Passou na prova, lecionou no ensino fundamental carioca e, ao mesmo tempo, cursou Letras na UFRJ.

“A nossa escrevivência não pode ser lida como ‘histórias para ninar os da casa grande’ e sim para incomodá-los em seus sonos injustos”

Conceição Evaristo na apresentação do seu blog, Nossa EscreVivência.

Sua estreia nas publicações veio apenas na década de 1990, nas antologias Cadernos Negros, organizadas pelo coletivo Quilombhoje. Na mesma época, concluiu mestrado em Literatura Brasileira na PUC-RJ. Seu primeiro livro completo, o romance Ponciá Vicêncio, foi publicado em 2003 pela Mazza Edições, editora comprometida com a publicação de autoras e autores negros e a valorização da cultura afro-brasileira.

A obra narra a trajetória de uma menina negra e pobre que nasce em uma propriedade rural pós-abolição da escravatura onde, na prática, os negros ainda vivem como escravos. Assim como a autora do livro, a protagonista imigra em busca de melhores condições de vida e de realizar seus sonhos, também ligados às letras. Forte e poética, a narrativa é centrada na construção da identidade de Ponciá, que se mistura intimamente à história de sua família e seus antepassados africanos. Honrando sua ancestralidade, Conceição busca dar-lhe a importância que não encontra nos livros de história oficiais.

“Descobria também que não bastava saber ler e assinar o nome. Da leitura era preciso tirar outra sabedoria. Era preciso autorizar o texto da própria vida, assim como era preciso ajudar a construir a história dos seus. E que era preciso continuar decifrando nos vestígios do tempo os sentidos de tudo que ficara para trás. E perceber que, por baixo da assinatura do próprio punho, outras letras e marcas havia.”

Conceição Evaristo em Ponciá Vicêncio, p.127.

Apesar de ainda não ser tão conhecido no Brasil, a qualidade do romance recebeu reconhecimento internacional. Ponciá Vicêncio já foi editado nos Estados Unidos, França e México. A edição brasileira, hoje, está fora das livrarias, mas é possível adquiri-la entrando em contato diretamente com a autora, por meio do seu blog.

Na Festa Literária de Paraty (Flip) de 2016, Conceição questionou a organização sobre a ínfima presença de negros na programação principal. Para ela, essa discriminação afeta também as editoras. Vencedor do Prêmio Jabuti em 2015, seu livro de contos Olhos d’água, foi o primeiro que a autora não precisou bancar parte da tiragem, graças ao Edital de Apoio à Coedição de Livros de Autores Negros da Biblioteca Nacional.

 

“E quando, após longos dias de viagem para chegar à minha terra, pude contemplar extasiada os olhos de minha mãe, sabem o que vi? Sabem o que vi?

Vi só lágrimas e lágrimas. Entretanto, ela sorria feliz. Mas, eram tantas lágrimas, que eu me perguntei se minha mãe tinha olhos ou rios caudalosos sobre a face. E só então compreendi. Minha mãe trazia, serenamente em si, águas correntezas. Por isso, prantos e prantos a enfeitar o seu rosto. A cor dos olhos de minha mãe era cor de olhos d’água. Águas de Mamãe Oxum! Rios calmos, mas profundos e enganosos para quem contempla a vida apenas na superfície. Sim, águas de Mamãe Oxum.”

Conceição Evaristo em Olhos d’àgua, Editora Pallas, 2014, p.18-19.

A obra reúne breves histórias de mulheres assoladas por realidades injustas, mas que continuam lutando por seus sonhos, por seus corpos, por seu direito de amar e viver sua sexualidade, usando sua força e criatividade para vencer as errâncias da vida. Invisíveis aos olhos da sociedade, moradoras de rua, donas de casa e empregadas domésticas tornam-se protagonistas dos seus destinos pelas letras da autora.

É assim que Conceição segue lutando e desafiando a sorte historicamente imposta às mulheres negras no Brasil. Prestes a completar 70 anos, concluiu seu doutorado em Literatura Comparada na UFF e continua lançando livros. A recém-lançada Editora Malê publicou sua nova coletânea de contos, Histórias de leves enganos e parecenças (2016), e reeditou a antologia de contos Insubmissas lágrimas de mulheres (2011). Ainda em 2016, o Grupo de Pesquisa Letras de Minas – Mulheres em Letras e a Editora IDEA reuniram ensaios sobre sua obra no livro Escrevivências: identidade, gênero e violência na obra de Conceição Evaristo.

“A noite não adormece nos olhos das mulheres

A noite não adormece

nos olhos das mulheres

a lua fêmea, semelhante nossa,

em vigília atenta vigia

a nossa memória.

 

A noite não adormece

nos olhos das mulheres

há mais olhos que sono

onde lágrimas suspensas

virgulam o lapso

de nossas molhadas lembranças.

 

A noite não adormece

nos olhos das mulheres

vaginas abertas

retêm e expulsam a vida

donde Ainás, Nzingas, Ngambeles

e outras meninas luas

afastam delas e de nós

os nossos cálices de lágrimas.

 

A noite não adormecerá

jamais nos olhos das fêmeas

pois do nosso sangue-mulher

de nosso líquido lembradiço

em cada gota que jorra

um fio invisível e tônico

pacientemente cose a rede

de nossa milenar resistência.”

Conceição Evaristo, poema publicado na internet, em memória de Beatriz Nascimento

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