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Da esquerda para a direita: Maria Eduarda, Brenda e Thalita Jennie, alunas de Gina. Foto: Paula Fróes/AzMina

Se mudar a cultura escolar no que diz respeito à educação de gênero demanda esforço e comprometimento, a experiência mostra que, quando isso ocorre, os resultados são surpreendentes. Em Ceilândia, uma das regiões mais carentes do Distrito Federal, o trabalho de uma professora de português transformou a vida de jovens entre 14 e 16 anos.

O projeto Mulheres Inspiradoras, liderado por Gina Vieira Ponte, virou livro, ganhou cinco prêmios de educação e direitos humanos – entre eles, um internacional – e está prestes a ser estendido para 15 escolas do DF, em uma parceria com um banco colombiano.

Mulheres Inspiradoras nasceu em 2014, depois de Gina, que usa o Facebook como ferramenta pedagógica, se deparar com um vídeo de uma aluna de 13 anos dançando de forma hipersexualizada. “Ela dançava muito bem, e tinha o direito de explorar isso. O que me incomodou foi o fato de parecer que ela não tinha consciência da conotação sexual do vídeo”, lembra Gina.

Gina, coordenadora do projeto Mulheres Inspiradoras. Foto: Paula Fróes/AzMina

A professora, então, criou um projeto para levar  a experiência de vida de diferentes mulheres para os adolescentes do Centro de Ensino Fundamental 12 de Ceilândia. O trabalho foi desenvolvido ao longo de um ano, em três fases. Primeiro, os alunos conheceram as biografias de uma dezena de mulheres e meninas – entre elas, jovens como eles, como a ativista paquistanesa Malala Yousafzai e a alemã Anne Frank. Depois, leram seis livros escritos por autoras e ouviram os relatos de mulheres inspiradoras que nasceram ou foram criadas em Ceilândia. Por fim, foram convidados a entrevistar mulheres inspiradoras da vida deles.

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“O professor disse que eu precisava de um homem pra me ‘colocar na linha’”

Ao longo do processo, Gina mesclou conteúdo de língua portuguesa e também análises sobre a representação feminina na mídia. “No começo, foi um choque. Tipo: ‘por que estamos discutindo isso na aula?’”, lembra Brenda Neves, 16 anos, uma das adolescentes que participou da iniciativa.

De surpresos, os estudantes passaram a ficar ávidos por participar.

“Eles se digladiavam para falar, para contribuir. Era uma demanda reprimida”, conta a professora.

Resultados extrapolam a escola

Além do mundo novo que se abriu para os alunos, muitos passaram a conhecer e a valorizar a trajetória de suas mães e avós, as principais escolhidas para a fase de entrevistas. “Aprendi muitas coisas sobre minha mãe, soube que ela começou a trabalhar com 11 anos, que deixou de estudar para cuidar dos irmãos mais novos”, conta Thalita Jennie, 17 anos.

Outra consequência foi que os estudantes se tornaram porta-vozes da igualdade de gênero fora da sala de aula. Maria Eduarda Fernandes, 17 anos, se esforçou para que a mensagem chegasse para outros amigos do colégio, mesmo os que não participaram do projeto. Para Thalita, o maior impacto foi dentro de casa. “Claro que não dá para discutir com todo mundo da família que é machista mas, para meu irmão, eu sempre digo que é preciso ser decente e respeitar as mulheres”, relata a jovem.

Como uma das representantes desse movimento de “resistência” escolar, Gina se emociona ao falar do que considera o verdadeiro prêmio: ouvir de suas alunas que elas também querem se tornar mulheres inspiradoras. “Eu hoje tenho consciência do quanto é difícil ser mulher na nossa sociedade. Eu aprendi a me amar mais”, resume Maria Eduarda.

Projeto virou até livro. Foto: Paula Fróes/AzMina

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