1. * A coluna de hoje foi escrita pela convidada Glória Paiva, jornalista e tradutora brasileira.

Sentei-me em um confortável sofá da Biblioteca de Vallcarca, em Barcelona, com alguns livros de Cristina Peri Rossi que havia pescado nas estantes. Era a primeira vez que eu lia algo desta autora uruguaia tão conhecida na Espanha e tão anônima para alguns leitores brasileiros. Eu sabia algo da sua biografia – por exemplo, que ela havia conhecido grandes autores em uma biblioteca como esta, na longínqua Montevidéu, pois seus pais não tinham dinheiro para comprar-lhe livros.

Abri aleatoriamente sua coleção de poemas “Playstation” (2009) e, na página 14, uma narradora relatava o sonho em que fazia amor com a própria mãe, jovem e bonita. Anoche tuve un sueño era o título do poema.

Ontem à noite tive um sonho

I

Ontem à noite sonhei que fazia amor com minha mãe

melhor dizendo

não conseguia fazer amor com minha mãe

porque sempre chegava alguém para interromper

com alguma bobagem

 

minha mãe estava nua

e era muito bonita

sempre foi muito bonita

até a velhice

 

devia ter vinte e seis anos

a idade que tinha quando eu nasci

 

e estava nua

completamente nua

 

eu gostava muito de minha mãe

mas sempre aparecia alguém

disposto a interromper

então eu me demorava

 

Não o contarei para o psicanalista

me dirá que essa não é minha mãe

apesar de ter a aparência de minha mãe

 

os psicanalistas gostam muito

de que as coisas não sejam o que são

lhes pagam para isso

 

II

Mas outro dia fui ao psicanalista

e lhe contei meu sonho

lhe contei que eu ia para a cama com uma mulher

jovem

mais jovem que eu

tinha vinte e seis anos

então o psicanalista

me disse que essa mulher não era outra mulher

como eu acreditava no sonho

na verdade —ele disse—

a mulher com quem você sonhou com que dormia

era sua mãe

 

III

Passei um mês

perguntando a todo tipo de pessoas

—homens e mulheres—

se haviam sonhado que iam para a cama com suas mães

 

e eles

—homens e mulheres—

me diziam que não

que de nenhuma maneira

eles e elas não sonhariam com estas indecências

 

—uma coisa suja destas—

 

até que me dei conta

de que eles não tinham mães bonitas.

Cristina Peri Rossi, “PlayStation” (2009)

O ruído da biblioteca cessou: Cristina havia capturado minha atenção. Franzi as sobrancelhas diante da temática inusitada, da musicalidade e do erotismo com os quais aquela estranha mulher falava sobre um tabu daquele tamanho. Passei as horas seguintes devorando “Playstation” e o livro de contos “Habitaciones Privadas” (2010), dois de suas dezenas de livros premiados e publicados em mais de 20 línguas.

Até a publicação deste texto, a obra de Cristina ainda não havia sido lançada no Brasil.

Esta uruguaia de 75 anos vive em Barcelona desde os 31, quando se exilou, contra sua vontade, após ser perseguida pela Ditadura Militar por seu ativismo político e por escrever artigos e livros de temática política e homoerótica. Na capital catalã, se firmou como escritora e jornalista de língua espanhola e nunca se interessou por aprender o catalão, a primeira língua daquela comunidade autônoma.

Hoje, poetisa reconhecida internacionalmente, Cristina afirma que a poesia é o gênero mais literário de todos. “Porque ela não pode se exprimir nem no cinema, nem na televisão”, explica.

Descendente de italianos, ela vive paixões viscerais, tem grandes emoções por seu país de origem e se comove sempre que escuta “Margherita”, de Riccardo Cocciante, cantada por Mina no YouTube.

Fidelidade

Aos vinte anos, em Montevidéu, escutava Mina

cantando Margherita de Cocciante

na tela preta e branca da Rai

junto à mulher que amava

e me emocionava

 

Aos quarenta anos escutava Mina

cantando Margherita de Cocciante

no toca-fitas

junto à mulher que amava,

em Estocolmo,

e me emocionava

 

Aos sessenta anos, escuto Mina

cantando Margherita de Cocciante

no Youtube, junto à mulher que eu amo,

cidade de Barcelona

e me emociono

 

E aí dizem que não sou uma pessoa fiel.

Cristina Peri Rossi, “PlayStation” (2009)

Com um estilo experimental e uma voz polifônica, Cristina escreve sobre suas paixões, sobre seu amor pelas mulheres e também sobre o desterro, as cidades, a vida e a morte, misturando prosa e verso como se fossem sonho e realidade. Em seu guarda-chuva de influências, estão autores como Arthur Rimbaud (não por acaso, um de seus editores a apelidou de “La Rimbaudcita”), Jorge Luis Borges, J. D. Salinger, o amigo Julio Cortázar, com quem se correspondeu por muitos anos, e Clarice Lispector, de quem Cristina traduziu dois livros: “Lazos de Família” (1988) e uma coletânea de contos intitulada “Silencio” (1995).

Quando eu morava em Barcelona, quis entrevistá-la. Não conseguimos conciliar um encontro presencial, então propus um Skype e ela aceitou, separadas por alguns quarteirões de distância. Estes são alguns fragmentos da nossa conversa:

Como foi sua decisão de deixar o Uruguai?

Foi a pior coisa que me aconteceu na vida. Ninguém se exila por vontade própria. Se exila porque o expulsam, porque está em perigo.

Tinha que escolher entre morrer ou ir embora, escolher em 24 horas.

Não tinha o menor desejo de sair de Montevidéu. Eu estava bem, dava aulas, escrevia. Senti culpa por abandonar as pessoas que estavam na mesma luta. Me salvei com culpa. Fui embora para escapar, com a ideia de regressar quando o golpe militar passasse. Peguei um barco, porque nos portos havia menos controle. Foram 15 dias de viagem. É melhor, porque você se habitua lentamente à perda.

Você não quis voltar depois do fim da ditadura?

Voltei para o Uruguai no dia que o último militar saiu do poder (1985). Foi muito emocionante, as pessoas saíram às ruas para festejar. Faltavam muitos, que haviam sido mortos ou presos. Mas percebi que começou uma rivalidade entre os que haviam ficado e os que havíamos ido. Eles pensavam que nós, no exterior, havíamos tido uma ótima vida enquanto eles sofreram com os militares. Eu não queria competir com ninguém. Senti-me incômoda.

O país já não era mais o que você conhecia…

Tem um poema que gosto muito de Elisabeth Bishop, que viveu muitos anos no Brasil, A arte de perder. Ela diz que as pessoas se acostumam a ir perdendo; perdem a juventude, os dentes, as coisas. Mas o bom também é que se pode ganhar. O que o exilado tem que aprender é a não recusar a experiência, a dor. É como quando uma pessoa diz: “não quero me apaixonar para não sofrer”. Mas não só se sofre, também há bons momentos! O paraíso não está aqui. Enquanto eu chorava pela perda do Uruguai, fazia o possível para conhecer Barcelona de ponta a ponta. Eu estava aberta, apesar da dor. A dor nunca vai embora.

A viagem

Minha primeira viagem

foi a do exílio

quinze dias de mar

sem parar

o mar constante

o mar antigo

o mar contínuo

o mar, o mal

Quinze dias de água

sem luzes de neon

sem ruas nem calçadas

sem cidades

só a luz

de algum barco fugaz

Quinze dias de mar

e incertezas

não sabia aonde iria

não conhecia o porto de destino

só sabia aquilo que deixava

Como bagagem

uma maleta cheia de papeis

e de angústia

os papeis para escrever

a angústia

para viver com ela

companheira amiga

 

Ninguém se despediu no porto de partida

ninguém lhe esperava no porto de chegada

E as folhas de papel em branco embolorando

tornando-se amarelas na maleta

amolecidas pela água dos mares

 

Desde então

tenho o trauma do viajante

se fico na cidade me angustio

se vou embora

tenho medo de não poder voltar

Tremo antes de fazer uma mala

-quanto pesa o imprescindível-

Às vezes preferiria ir-me

O espaço me angustia como aos gatos

Partir

é sempre se partir em dois.

Cristina Peri Rossi, “Estado de exílio” (2003)

Do que você mais gosta em Barcelona?

Gosto do mar. Eu não posso viver em uma cidade sem mar, se não tiver água em volta. Da minha janela, vejo um pedaço de mar.

A segunda coisa é que aqui não há um machismo aparente.

Nas ruas, há uma chance muito menor de você ser assediada, o que não acontece na nossa América Latina. Aqui, eles olham as mulheres, mas você não ouve coisas agressivas, que poderia escutar nas ruas de Montevidéu e no Brasil. O machismo daqui é mais discreto. Não é que não exista, mas não é tão público, aparente. Quando ando na rua, não tenho vontade de responder quando um desconhecido me diz qualquer coisa.

Falemos sobre Clarice Lispector. O que chamou sua atenção a ponto de você querer traduzi-la?

Acredito que Clarice tenha sido a primeira mulher a fazer uma literatura que um homem brasileiro não poderia fazer. Na literatura brasileira há uma forte tradição de narração de fatos, uma coisa um pouco épica, salvo no caso de alguns autores como Graciliano Ramos. Mas ela lançou um olhar interior e me parece maravilhoso que pudesse escrever, por exemplo, sobre um ovo. Sua literatura está muito mais ao lado do “mítico”, do interior. Em Clarice, o importante é a percepção de uma mulher, uma mulher contemporânea.

Você acha que a literatura tem gênero, isto é, que autores e autoras têm marcas diversas por serem homens ou mulheres?

Evidentemente há experiências mais típicas de um gênero ou de outro. Por exemplo, alguns livros que não poderiam ter sido escritos por mulheres, como toda a literatura bélica, da Segunda Guerra Mundial. Dito isso, se só escrevêssemos sobre experiências próprias, seríamos limitados. Por sorte, existe a empatia, o colocar-se no lugar de outro, mesmo que não seja do nosso mesmo sexo, e por isso existe a imaginação.

Como quando se cria personagens ou narradores de outro sexo.

Sim. Tenho um conto sobre um caminhoneiro que dá carona a uma menina que queria se prostituir e ela propõe que ele a inicie. Eu não sou homem, mas posso imaginar sua reação. “Don Quixote” é o exemplo deste poder do imaginário: um fidalgo que fica entediado em um povoado perdido de La Mancha e deseja viver o que sonha. A partir de James Joyce, de Ulisses, a literatura se voltou para o mundo interior.

E é justamente ali, no mundo da subjetividade, que os gêneros deixam de ser tão claros.

Os sonhos são um outro aspecto da escrita. Em seus poemas, às vezes, surgem os temas de sonhos e de psicanálise. Você se interessa pelo assunto?

Eu devo ser a única uruguaia que nunca fez psicanálise! Mas tive grandes amizades com psicanalistas e é uma coisa curiosa: todos eles querem ser escritores. Lacan e Freud, por exemplo. Porque a escrita é também o mundo da subjetividade e do imaginário. Enquanto não existia a psicanálise como tal, os escritores eram chamados de engenheiros de almas.

Montevidéu

Nasci em uma cidade triste

de barcos e imigrantes

uma cidade fora do espaço

suspensa por um mal-entendido:

um rio grande como mar

uma planície deserta como pampa

uma pampa cinza como céu.

 

Nasci em uma cidade triste

fora do mapa

longe de seu continente natural

deslocada do tempo

como uma velha fotografia

tingida de sépia.

 

Nasci em uma cidade triste

de pátios com samambaias

claraboias verdes

e o envolvente perfume das glicínias

flores bêbadas

flores lilás

 

Uma cidade

de tangos tristes

velhas prostitutas de dois por quatro

marinheiros extraviados

e bares que se chamam City Park.

 

E contudo

a amei

com um amor desesperado

a cidade dos impossíveis

dos barcos encalhados

das prostitutas que não cobram

dos mendigos que recitam Baudelaire.

 

A cidade que aparece em meus sonhos

acessível e distante ao mesmo tempo

a cidade dos poetas franceses

e os comerciantes poloneses

os marceneiros galegos

e os açougueiros italianos

 

Nasci em uma cidade triste

suspensa pelo tempo

como um sonho inacabado

que se repete sempre.

Cristina Peri Rossi, “Estado de exílio” (2003)

E o seu processo de escrita, onde começa? O que te move?

Minha mãe disse que se assustou porque quando eu comecei a falar, comecei a falar por metáforas. É curioso, porque as crianças são muito literais. E ela me agarrou a cabeça e disse: “Que horror. Vai virar poeta”. Eu acho que me é espontâneo narrar: eu não sofro escrevendo, encontro prazer. E não é só o ato físico de me sentar no computador. Em um sentido mais amplo, escrever é observar. É sentir, procurar os próprios limites: se às vezes vejo uma coisa de que não gosto, que me machuca, tenho curiosidade sobre isso. E não faço planejamento, não tomo notas, não sei o que vou escrever. Se soubesse, não escreveria, acharia chato. Crio porque não sei.

*Glória Paiva, 34 anos, é uma jornalista e tradutora brasileira que vive no Sul da Itália. Trabalhou em vários veículos de comunicação de Belo Horizonte e fez um mestrado em Jornalismo Literário em Barcelona. Pesquisa e escreve sobre gênero, literatura, viagens e o que mais possa render uma boa história.

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