Como a cadeira de rodas dispensa os sapatos, Adriana aproveita para ficar descalça e usar acessórios e jóias nos pés. Foto: Babi Bowie

Para a estilista Michelle Simões, a cadeira de rodas é uma extensão do seu corpo. Isso não significa, porém, que como todas as outras partes, ela não possa ser uma expressão do seu estilo. “A cadeira de rodas tem uma relação com a moda. E a tendência é que, cada vez mais, ela evolua combinando estética e funcionalidade”, afirma.

“A indústria (da moda) acabou enxergando as deficientes como consumidoras e entendendo que queremos nossa identidade nas cadeiras, não apenas uma cadeira preta e pesada, como era antigamente. Hoje existe uma infinidade de cadeiras modernas, coloridas, que desmontam.”

Michelle, que também é autora do “Guia do Viajante Cadeirante”, é uma das que se esforçam por lembrar as especificidades de mulheres que sofrem algum tipo de paralisia na hora de se vestir. Pode parecer desafiador, inicialmente, pensar além da praticidade e da liberdade de movimentos, mas ela garante que a moda pode e deve ser, para todas as pessoas – inclusive pessoas com deficiência, como ela – uma ferramenta de comunicação, de cultura e de quebra de esteriótipos.

Adriana Buzelin, por exemplo, sabe tirar vantagem das possibilidades que a cadeira lhe dá. Ela aproveita que pode dispensar os sapatos para caprichar nos acessórios e jóias para os pés, como na foto que abre esta reportagem. Assim, ela incrementa seu estilo boho, que mistura influências hippie, étnica, folk e boêmias.

Foto: Babi Bowie

Na hora de escolher as roupas, Adriana prioriza as que não atrapalhem a locomoção. Mas opta por looks que dialoguem com o design da cadeira que irá usar: a vermelha, mais moderna, é um tesouro reservado para eventos especiais e que ela apelidou carinhosamente de “Ferrari”; ou a preta, com visual mais “clean”, a escolha vencedora para o dia-a-dia e que ela chama de “Trator”. Para ela, Trator e Ferrari são como acessórios e ajudam na reconquista de sua autoestima.

“Eu sou uma mulher que teve que se redescobrir e se adaptar a uma nova realidade após um acidente automobilístico que me deixou tetraplégica”, conta.

Já Elisa Amaral, de 39 anos, tem um guarda-roupa divido em duas partes: os looks do dia-a-dia e os de fim de semana. Do lado de lá, predominam calças confortáveis que garantem sua locomoção; do de cá, alguns vestidos. Tudo é muito bem marcado. Ela é exigente e se recusa a usar qualquer roupa do cotidiano depois de voltar das aulas na sexta-feira.

Elisa tem paralisia cerebral de nascença mas, apesar das dificuldades, desenvolveu uma forma de se comunicar com a família, através do movimentos dos olhos.

Elisa é produzida pela maquiadora Lu Escarbe para este ensaio. Foto: Babi Bowie

Dicas

Para quem, como Elisa ou Adriana, precisa considerar a cadeira de rodas ou dificuldades de mobilidade na hora de se vestir, Michelle dá algumas dicas. “Gosto muito de usar jeans e sempre dou preferência para aqueles com elastano, porque eles facilitam na hora de colocar a calça sentada. Terninhos de malha, também com elastano, e sapatos que não prendam a circulação são elegantes e confortáveis”.

E quando entramos no mundo das diversas deficiências, é sempre importante lembrar aos lojistas e designers de que essas mulheres também tem querem expressar-se ao escolher o que vestir. Michelle sugere, por exemplo, que comerciantes coloquem um QR com descritivo das peças nas vitrines para aquelas que não podem ver. “Essas pessoas não podem confiar só no que o vendedor está falando, porque cada um tem uma formade olhar aquela peça”, opina.

Para ela, o primeiro passo de uma moda mais inclusiva é a oferta de peças práticas para mulheres. Por exemplo: o tecido de calças de pessoas com deficiência precisa ser leve para facilitar a ida ao banheiro. Os braços precisam ter mobilidade, principalmente se a cadeira não for elétrica. E se a pessoa, como Michelle, não tem sensibilidade nas pernas, é importantíssimo que o zíper ou fecho não machuquem, pois elas podem se ferir sem nem mesmo perceber.

“Enfim, precisamos pensar na moda como mais do que a vestimenta e sim uma questão de pertencimento. Pois os deficientes não são vistos como consumidores, e isso tem de ser repensado.”

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