Quem senta no divã de hoje é a Mariah Gama. 

Foto: Pierre Marcel

“Esse texto nasce da minha sobrevivência a dores que imaginei não conseguir suportar. Dores emocionais e afetivas que me fizeram crer profundamente que a infelicidade me perseguiria por toda a vida, porque eu estava amorosamente perturbada, e eu acreditava que isso, de alguma forma, definiria todo o resto.

Ando cada dia mais convencida que a relação das mulheres com o Amor romântico tende a ser profundamente doentia. É uma relação auto-destrutiva, baseada em auto-abandono, auto-descuido e auto-inferiorização.

Essa minha premissa é fruto de muita auto-observação e diálogo com mulheres que perceberam em si mesmas o mesmo padrão nocivo: romantizar a vida, o destino, as relações humanas e, acima de tudo, romantizar a felicidade.

A construção da mulheridade, da heterossexualidade e do Amor romântico estão profundamente entrelaçadas, e essa teia resulta em um mecanismo poderoso de controle das mulheres. O controle através da insegurança de não ser merecedora do Amor, o medo de não encontrar o Amor, e o pavor de, uma vez encontrado, perdê-lo pra sempre.

Este pavor nos cala quando precisamos gritar e nos paraliza quando precisamos correr. Esse pavor nos mantém em relações abusivas, violentas ou simplesmente infelizes. Este pavor nos impede de virar as costas e ir embora quando sentimos que é o que precisamos ou devíamos fazer.

A obsessão feminina pelo Amor romântico é, portanto, uma das bases do heteropatriarcado: as mulheres se esforçam de todas as maneiras possíveis pra serem merecedoras do Amor, já que é ele que vai humanizá-la e dar sentido à sua existência. Ser amada é importar aos olhos do heteropatriarcado.

Mas todos esses pensamentos e sentimentos que me inundaram não pareciam fazer sentido, já que meu desejo sexual-afetivo é direcionado apenas para outras mulheres.

Como posso me perceber presa na armadilha heteropatriarcal do ideal de Amor romântico se eu sou uma mulher lésbica em um relacionamento lésbico?

E tudo isso me fez pensar sobre a minha adolescência e os vários momentos em que eu queria muito que os meninos me desejassem, mesmo que eu tivesse a absoluta certeza que não gostaria de ficar com nenhum deles. E esse, na verdade, é só um exemplo pra dizer que eu me comportava diferente na frente deles, moldando a mim mesma pra ser alguém que é passível de ser desejada e amada, como se isso fosse capaz de me validar de alguma forma.

Além disso, no meu relacionamento com outra mulher, me vi em diversos momentos refém de uma concepção de amor que é, acima de tudo irreal e aprisionadora. Um amor que não liberta e não cura. Um ideal de amor que me afastava de mim mesma e me recriava cada dia mais dependente, impotente e fraca.

E isso tudo é sobre nossa relação com o amor e nossos padrões de relacionamento. É uma batalha de nós com nós mesmas. Independente de com quem nos relacionamos romanticamente.

O que eu quero dizer aqui é que a incessante busca pelo Amor não somente nos atravessa. Essa obsessão é um dos elementos que constrói nossa subjetividade e determina uma porção de coisas na forma que enxergamos nós mesmas, a vida e o mundo. Por isso o ideial de Amor romântico ultrapassa as barreiras da hetero sexualidade/afetividade, já que ele diz respeito à construção da própria concepção de mulher. Dessa forma, mesmo que o ideal de amor romântico seja, em sua essência, heterocentrado, ele ainda é capaz de submeter mulheres lésbicas aos seus paradigmas.

Eu não consigo expressar com palavras o quanto isso é cruel.

É absurdamente perverso nos fazer acreditar que é o amor alheio, masculino ou não, que legitima nossa humanidade.

A busca pelo amor romântico se mostra um caminho que nos afasta de nós mesmas e de outras mulheres, já que precisamos competir o tempo inteiro por ele. Como se não houvesse amor suficiente, como se não pudéssemos amar umas as outras de outras formas, como se não pudéssemos amar a nós mesmas, e o mais importante: como se, sem o amor romântico, a vida não pudesse ser tão maravilhosa quanto.

Esse texto é pra mim mesma e pra tantas outras mulheres.

Existimos para além do amor romântico!


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