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Alunos escrevem ofensas de gênero nas paredes da sala de aula de uma escola em Brasília. Fotos: Paula Fróes/AzMina

No livro “Diferentes, não desiguais” (Editora Reviravolta), os autores Beatriz Accioly Lins, Bernardo Fonseca Machado e Michele Escoura descrevem o caso fictício de João, um adolescente que agrediu uma professora com uma carteira. Inspirada em uma situação real de 2013, ocorrida na rede pública de ensino de São Paulo, a história ilustra como as interpretações acerca do comportamento do estudante trazem preconceitos de gênero.

“João mora com a avó, que o sustenta. Quando a diretora anuncia que aquela família é desestruturada, ela está pressupondo que há um modelo de família que, se seguido, garantiria uma educação mais adequada”, detalham os autores. “A sociedade é carregada de preconceitos, logo, a escola e os professores também o são”, comenta Simone Soares, que trabalha na Diretoria de Educação do Campo e Eixos Transversais da Secretaria de Educação do Distrito Federal.

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“O professor disse que eu precisava de um homem pra me ‘colocar na linha’”

No DF, há a oferta periódica de formação em gênero e diversidade para os professores, entretanto, boa parte dos que procuram os cursos já têm um interesse natural pela temática. Segundo a professora Gina Vieira Ponte, que liderou um premiado projeto sobre valorização da mulher, há também a falsa ideia de que educação para direitos humanos implica em um “afrouxamento acadêmico”. “Quando, na verdade, é justamente o contrário: se o aluno se vê representado, ele aprende muito mais”, comenta.

Foco nas exatas

Pensando em atrair outros profissionais, a seleção do ano passado dos docentes que fizeram o curso Gênero e Diversidade na Escola – um projeto da Universidade Federal do Rio de Janeiro em parceria com o Programa Rio Sem Homofobia – privilegiou professores oriundos das ciências exatas. “Eles costumam ser raros nesse tipo de formação”, disse Jaqueline Jesus, colunista da Revista AzMina, que coordena o curso.

Quem passa pela formação faz quatro módulos: sobre gênero, sexualidade, diversidade e relações étnico-raciais e educação. No último módulo, os professores precisam desenvolver atividades pedagógicas em suas escolas.

“A ideia não é formar acadêmicos que vão desenvolver projetos de educação para a diversidade, mas sim capacitar professores para que tenham a habilidade de tratar dessa temática com os alunos de formas diversas”, explica Jaqueline.

Nessa mesma linha de estímulo à formação docente, o governo federal lançou, em novembro passado, o Pacto Universitário pela Promoção do Respeito à Diversidade e da Cultura da Paz e Direitos Humanos. Iniciativa da Secretaria Especial de Direitos Humanos do Ministério da Justiça e Cidadania, em parceria com o Ministério da Educação, o pacto prevê que as instituições de ensino superior implementem medidas para o fortalecimento dos direitos humanos, não apenas no que diz respeito ao ensino, mas também nas áreas de pesquisa, extensão, gestão e convivência acadêmica.

O cientista político Luis Felipe Miguel, professor da Universidade de Brasília (UnB), acredita que a melhor forma de atrair “aliados” para a causa é mostrar como a desigualdade de gênero resulta em violência. “Os estereótipos não são inofensivos”, ressalta.

Além disso, desconstruí-los traz mais liberdade para todos. “Quando a gente fala em discutir gênero na sociedade, estamos também buscando formas de garantir que as pessoas sejam mais felizes sendo quem elas realmente são”, finaliza Jaqueline.

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